
Coluna Jesus de Nazaré — A Parábola da Fila do SUS às Quatro da Manhã
A Parábola da Fila do SUS às Quatro da Manhã
Não são os sãos que precisam de médico, mas sim os doentes. Eu não vim chamar justos, mas pecadores. E hoje, nem os doentes conseguem médico.
Eu curei leprosos com as mãos. Abri olhos de cegos com lama e saliva. Levantei paralíticos de suas macas diante de multidões que não acreditavam no que viam. E nunca — nunca — cobrei uma consulta. Nunca pedi um plano de saúde. Nunca mandei ninguém voltar na semana que vem porque o sistema estava fora do ar.
Fiz tudo isso há dois mil anos, num deserto, sem eletricidade, sem formação médica, sem aparelho de ressonância magnética.
E hoje, na capital do país mais rico da América Latina, uma mulher diabética precisa acordar às três e meia da madrugada para conseguir uma senha no Hospital Regional de Sobradinho.
A Fila
Eu fui até lá. Não fisicamente — vocês sabem como funciona. Mas eu vi. Como sempre vi.
Às quatro da manhã, o estacionamento do Hospital Regional de Sobradinho já tem fila. Não é fila de show. Não é fila de lançamento de celular. É fila de gente doente. Gente que dói. Gente que não dormiu porque a dor não deixa, e que agora vai ficar de pé por três, quatro, cinco horas esperando uma senha que talvez nem saia.
Sobradinho tem cerca de 210 mil habitantes. É uma cidade dentro do Distrito Federal, com todas as promessas que o endereço carrega. Mas a realidade de Sobradinho não mora no Plano Piloto. A realidade de Sobradinho acorda antes do sol.
O Hospital Regional de Sobradinho foi inaugurado em 1987. Quase quarenta anos. Atende Sobradinho I, Sobradinho II, Fercal e parte de Planaltina. São mais de 300 mil pessoas dependendo de um hospital que foi projetado para uma fração desse número.
Segundo dados do Cadastro Nacional de Estabelecimentos de Saúde, o Distrito Federal possui cerca de 1,6 leito do SUS por mil habitantes. A Organização Mundial da Saúde recomenda entre 3 e 5. Estamos na metade do mínimo. Na metade.
Eu olhei para aquela fila e vi o que sempre vejo quando olho para multidões desamparadas: ovelhas sem pastor.
Dona Marlene
A primeira pessoa que vi na fila se chama Marlene (personagem ficcional baseada em dados reais). Sessenta e três anos. Diabética tipo 2 há quinze anos. Pressão alta. Neuropatia nos pés — aquela doença que faz os nervos morrerem devagar, começando pelas pontas. Ela não sente mais os dedos do pé esquerdo. Caminha com cuidado, como quem pisa em terreno minado, porque qualquer ferida que não sente pode virar uma infecção que vira uma amputação.
Marlene mora em Sobradinho II. Pega um ônibus às três e quarenta da manhã. O ônibus nem é linha regular — é um favor do vizinho que dirige van escolar e passa perto do hospital no caminho da garagem.
Ela estava ali para tentar renovar a receita da metformina e conseguir encaminhamento para endocrinologista. A última consulta com especialista foi há catorze meses. O protocolo diz que diabético deve ir ao endócrino a cada três ou quatro meses.
Catorze meses.
Eu curei um homem no Tanque de Betesda que esperava havia trinta e oito anos. Quando perguntei "queres ficar são?", ele nem acreditou que alguém se importava. Marlene tem esse mesmo olhar. Não é desespero. É algo pior que desespero — é a aceitação de que ninguém vai perguntar.
A fila de espera para endocrinologista na rede pública do Distrito Federal pode ultrapassar 180 dias. Seis meses para saber se a doença que está comendo seus nervos avançou ou recuou. Seis meses torcendo para que os pés aguentem.
No meu tempo, os leprosos ficavam do lado de fora da cidade. Ninguém os tocava. Ninguém se aproximava. Eles eram os invisíveis da sociedade — existiam, mas ninguém queria saber. Eu fui até eles. Toquei neles. E isso foi considerado um escândalo.
Marlene é a leprosa moderna. Não porque sua doença seja contagiosa, mas porque sua dor é invisível. Ela existe nas estatísticas, existe nos relatórios do SUS, existe nos discursos de campanha. Mas ninguém vai até ela às quatro da manhã.
Seu Geraldo
Atrás de Marlene, três lugares na fila, estava Geraldo (personagem ficcional baseado em dados reais). Setenta e um anos. Aposentado. Duas cirurgias de hérnia nas costas. Problema de próstata que ele teve vergonha de falar durante anos, até que o jato de urina ficou tão fraco que ele precisava de dez minutos no banheiro para fazer o que antes fazia em trinta segundos.
Geraldo é daqueles homens que o Brasil produz em série: trabalhou a vida inteira, nunca reclamou, criou quatro filhos com salário de pedreiro, e agora que o corpo cobra a conta de quarenta anos de cimento e sol, descobre que o país que ajudou a construir não tem urologista para ele.
A lista de espera para urologia no DF chegou a ultrapassar 200 dias em anos recentes. Para um homem de setenta e um anos com suspeita de hiperplasia prostática — que pode ou não ser câncer — 200 dias não é espera. É roleta russa.
Geraldo levantou às três da manhã. A esposa, Dona Rita, quis ir junto, mas ele não deixou. "Não precisa", disse. Porque homens como Geraldo aprenderam que pedir ajuda é fraqueza, e que a dor se enfrenta em silêncio.
Eu chorei no Getsêmani. Pedi ao Pai que tirasse de mim o cálice, se fosse possível. E tinha comigo os meus amigos mais próximos. Não enfrentei a dor sozinho. Tentei não enfrentar sozinho. Mas Geraldo vai sozinho ao hospital às três da manhã porque ninguém ensinou a ele que vulnerabilidade não é vergonha.
O câncer de próstata é o segundo mais comum entre homens brasileiros. O Instituto Nacional de Câncer estima mais de 71 mil novos casos por ano. O diagnóstico precoce muda tudo — a diferença entre viver e morrer. Mas diagnóstico precoce exige acesso. Exige médico. Exige consulta antes dos 200 dias.
Geraldo não tem plano de saúde. Os quatro filhos que ele criou com salário de pedreiro cresceram, saíram de casa e mandam o que podem — cem reais aqui, duzentos ali. Nenhum deles pode pagar os R$ 400 a R$ 600 de uma consulta particular com urologista, mais os R$ 300 do PSA, mais o ultrassom, mais a biópsia se der alterado.
Na minha época, um homem desceu pelo telhado de uma casa para chegar até mim, porque a porta estava bloqueada pela multidão. Seus amigos cavaram o barro do teto para abrir passagem e descê-lo numa maca. Eu curei aquele homem não apenas por sua fé, mas pela fé dos que se recusaram a aceitar que a porta fechada era a última palavra.
A porta do SUS está fechada para Geraldo. E ele não tem amigos dispostos a cavar o telhado.
Jéssica
Na fila, mais perto do fim, havia uma menina. Dezessete anos. Grávida de seis meses. Jéssica (personagem ficcional baseada em dados reais). Morava em Fercal, que é um canto do Distrito Federal que muita gente de Brasília nem sabe que existe — um pedaço de terra entre morros onde o asfalto acaba e o esquecimento começa.
Jéssica estava ali para o pré-natal. Já deveria ter feito seis consultas até aquele ponto da gravidez. Tinha feito duas. A primeira demorou um mês para conseguir, a segunda levou quase dois. As outras não tinham data.
O Ministério da Saúde recomenda no mínimo seis consultas de pré-natal para gestação de risco habitual. A Codeplan registra que Fercal é uma das regiões administrativas com menor renda per capita do DF — cerca de R$ 800 a R$ 1.000 por pessoa, menos de um terço da média do Distrito Federal. É também uma das regiões com menor cobertura de Estratégia Saúde da Família.
Jéssica tinha dezessete anos, uma barriga de seis meses, nenhum parceiro ao lado, uma mãe que trabalhava como faxineira em Sobradinho e um medo silencioso de que algo estivesse errado com o bebê porque ela sentia umas pontadas que ninguém tinha explicado se eram normais.
Eu sei o que é nascer em condições precárias. Nasci num estábulo porque não havia lugar na hospedaria. Minha mãe era uma adolescente numa sociedade que poderia tê-la apedrejado. E mesmo assim, pastores foram avisados. Magos vieram de longe. Alguém prestou atenção.
Quem presta atenção em Jéssica?
A taxa de mortalidade materna no Brasil ainda gira em torno de 50 a 60 mortes por 100 mil nascidos vivos — mais que o dobro do que a OMS considera aceitável. E essa taxa é pior entre mulheres negras, jovens, periféricas. Mulheres como Jéssica.
Ela estava com frio na fila. Tinha levado um cobertor fino, desses de doação, e enrolava nos ombros enquanto olhava o celular sem bateria. Às quatro da manhã, a temperatura em Sobradinho pode cair para 14, 15 graus nos meses mais frios. Uma grávida de dezessete anos enrolada num cobertor de doação na frente de um hospital público.
Quando eu via multidões, eu tinha compaixão delas, porque estavam aflitas e desamparadas, como ovelhas sem pastor. Mateus escreveu isso. E é exatamente o que eu sentia diante daquela fila.
O Samaritano Que Nunca Passou
Vocês conhecem a parábola. Um homem caiu entre ladrões, que o espancaram e o deixaram semimorto na estrada. Passou um sacerdote — viu e passou do outro lado. Passou um levita — viu e passou do outro lado. Passou um samaritano — parou, cuidou, pagou a hospedaria.
Eu contei essa história quando um doutor da Lei me perguntou quem era seu próximo. A resposta era óbvia: próximo é quem tem misericórdia.
Agora me digam: quem é o samaritano na fila do SUS às quatro da manhã?
O sacerdote que passa do outro lado é o gestor que aprova o orçamento da saúde e gasta o dinheiro em outra coisa. O Distrito Federal tem um dos maiores orçamentos per capita de saúde do país. São bilhões. O gasto autorizado para a Secretaria de Saúde ultrapassa R$ 8 bilhões ao ano. Bilhões. E Marlene não consegue endocrinologista.
O levita que passa do outro lado é o cidadão com plano de saúde que olha a fila do SUS pelo vidro do carro e pensa: "coitados". E segue para o consultório particular onde será atendido em quinze minutos, com café e revista na recepção.
O samaritano — aquele que deveria parar, cuidar e pagar — deveria ser o Estado. Esse é o pacto. Isso está na Constituição, artigo 196: saúde é direito de todos e dever do Estado. Não é sugestão. Não é meta. É dever.
Mas o samaritano nunca passa por ali. Não às quatro da manhã. Não em Sobradinho. O samaritano está em reunião, está em campanha, está inaugurando uma obra que deveria ter ficado pronta há três governos.
O Custo da Fila
Vou contar a vocês algo que os relatórios não contam.
A fila não custa apenas tempo. A fila custa dignidade.
Marlene chorou na fila. Não porque doía — a dor ela já estava acostumada. Chorou porque uma mulher atrás dela perguntou, em voz alta, se ela tinha trazido o documento certo. Marlene não entendeu qual documento. Ficou nervosa. Mexeu na bolsa. Derrubou os papéis. Uma senhora ao lado ajudou a juntar. Marlene pediu desculpa seis vezes em trinta segundos.
Seis vezes.
Uma mulher de sessenta e três anos, doente, que acordou às três da manhã, pedindo desculpa por existir na fila de um hospital público que deveria estar ali para servi-la.
Geraldo ficou de pé por três horas e doze minutos. Com a hérnia nas costas. Quando finalmente sentou, numa cadeira de plástico rachada, gemeu baixinho — e olhou para os lados com vergonha, para ver se alguém tinha ouvido.
Jéssica não conseguiu a consulta. As senhas para pré-natal tinham acabado às sete e vinte. Ela chegou às quatro e quinze e era a décima segunda da fila. Havia dez senhas. Dez. Para uma cidade com centenas de gestantes.
Ela voltou para Fercal no ônibus das oito, com a barriga encostando no banco da frente e os olhos vermelhos de quem engoliu o choro porque aprendeu cedo que chorar não resolve.
Os Que Ficam do Outro Lado
A doze quilômetros de Sobradinho, no Lago Sul, existe um hospital privado onde a consulta com endocrinologista custa R$ 500 e sai no mesmo dia. Onde o exame de próstata é feito na hora. Onde a gestante tem pré-natal com oito consultas, ultrassom 4D, e uma sala de parto com música ambiente.
A renda média do Lago Sul ultrapassa R$ 8.000 per capita. A de Sobradinho II gira em torno de R$ 1.200 a R$ 1.500. A de Fercal, menos de R$ 1.000.
No meu tempo, eu disse que é mais fácil um camelo passar pelo fundo de uma agulha do que um rico entrar no Reino de Deus. Não disse isso porque o dinheiro é mau. Disse porque o dinheiro faz as pessoas acharem que estão separadas do sofrimento alheio. Que a fila do SUS é problema dos outros. Que a saúde pública é para quem "não se esforçou o bastante".
Eu nasci pobre. Vivi entre pescadores, cobradores de impostos arrependidos e prostitutas que a sociedade desprezava. Nunca — em nenhum momento — eu disse que o sofrimento do pobre é culpa do pobre.
O sofrimento do pobre é a acusação mais grave que existe contra quem tem o poder de mudar e escolhe não fazê-lo.
O Que Eu Faria
Se eu estivesse em Sobradinho às quatro da manhã — e de certa forma eu estava — eu não construiria um hospital maior. Não primeiro.
Primeiro, eu perguntaria: por que, num Distrito Federal que arrecada bilhões, existem apenas dez senhas de pré-natal para uma cidade de centenas de grávidas?
Depois, eu perguntaria: quem decidiu que dez era o suficiente? Qual foi o nome? Qual foi o cargo? Qual foi a reunião? Porque alguém decidiu. Senhas não se limitam sozinhas. Alguém, em alguma sala com ar-condicionado, olhou para uma planilha e decidiu que dez era um número aceitável.
Eu viraria a mesa desse alguém.
Depois, eu iria até Marlene. Pegaria as mãos dela — aquelas mãos com neuropatia, que estão perdendo a sensibilidade, que em breve talvez não sintam mais o rosto do neto quando o acariciam. E eu diria: você não precisa pedir desculpa. Você não precisa acordar às três da manhã. Você não precisa provar que merece tratamento. Você é filha de Deus e isso basta.
Depois, eu sentaria ao lado de Geraldo. E ficaria em silêncio com ele. Porque às vezes a presença é a única medicina que funciona. E eu diria, quando ele estivesse pronto para ouvir: não é fraqueza pedir ajuda. Eu mesmo pedi. No jardim, na noite mais escura da minha vida, eu pedi. E o Pai ouviu.
Depois, eu iria atrás de Jéssica. No ônibus das oito. E eu me sentaria ao lado dela e diria: o bebê está bem. Você está bem. E alguém vai cuidar de vocês dois. Nem que esse alguém seja eu.
A Cura Que Falta
Eu curei muita gente. Mas a cura que mais custou não foi a dos corpos — foi a das consciências. Porque o leproso sabe que está doente. O cego sabe que não vê. O paralítico sabe que não anda.
Mas o gestor que fecha os olhos para a fila do SUS não sabe que está doente. O cidadão que troca de canal quando aparece reportagem sobre saúde pública não sabe que está cego. A sociedade que normaliza uma grávida de dezessete anos voltando para casa sem consulta não sabe que está paralítica.
Não são os sãos que precisam de médico. São os que se acham sãos.
A fila do SUS às quatro da manhã em Sobradinho não é um problema de saúde. É um problema moral. É um espelho. E quem olha para esse espelho e não sente nada — esse sim está doente de verdade.
Eu estive naquela fila. Estive no rosto de Marlene, na coluna de Geraldo, na barriga de Jéssica.
E eu volto amanhã. E depois de amanhã. E todos os dias até que alguém — qualquer um — decida ser o samaritano que para.
Porque a fila não espera. A fila só cresce.
E eu conheço cada nome nela.
Coluna produzida por inteligência artificial na persona de Jesus de Nazaré, sob supervisão editorial humana. Os dados de saúde são do CNES/DataSUS e Secretaria de Saúde do DF. Os dados populacionais são da Codeplan e IBGE. As referências bíblicas são de Marcos 2:17, Mateus 9:35-36 e Lucas 10:25-37.
A coluna Jesus de Nazaré é uma voz editorialmente independente dentro do Mirante News. As posições aqui expressas não representam necessariamente a linha editorial do veículo. Os personagens são composições ficcionais baseadas em dados reais do Distrito Federal.
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