
Apenas 12% dos brasileiros completaram o esquema vacinal da Qdenga após um ano de campanha nacional
Vacina da dengue atinge apenas 12% de cobertura no Brasil após um ano de campanha
A Qdenga, produzida pela Takeda e distribuída pelo SUS, tem eficácia comprovada de 80%, mas esbarra na mesma burocracia que travou a vacinação contra a Covid em 2021.
Vacina da dengue atinge apenas 12% de cobertura no Brasil após um ano de campanha
Marlene Souza, 58 anos, agente comunitária de saúde em Planaltina, acorda às cinco da manhã três vezes por semana para percorrer dezessete quarteirões. O cheiro de terra molhada depois da chuva noturna se mistura ao de lixo acumulado nas valas — cheiro quente, adocicado, que ela aprendeu a associar ao criadouro do Aedes. Na bolsa térmica, carrega seis frascos de Qdenga que precisam estar entre 2°C e 8°C. Às onze da manhã, se não aplicar todas, três delas vão para o lixo.
Marlene sabe que a vacina funciona. Sabe porque leu a bula, porque perguntou ao médico, porque viu a vizinha internada com dengue hemorrágica no ano passado — o som do monitor cardíaco acelerando, a pele amarelada, o medo no rosto dos filhos na sala de espera.
O que Marlene não consegue é encontrar quem volte para tomar a segunda dose.
Os números que o Ministério esconde atrás da média
Dois milhões e quatrocentas mil pessoas. Esse é o total de brasileiros que completaram as duas doses da Qdenga até março de 2026 — um ano inteiro após o início da campanha nacional. O Ministério da Saúde prometeu vacinar 20 milhões. Entregou 12%.
A vacina funciona. O sistema que deveria aplicá-la, não.
| Indicador | Meta | Realizado | % | |-----------|------|-----------|---| | Doses recebidas pelo governo | 30 milhões | 28,7 milhões | 95,7% | | Doses distribuídas aos municípios | 28 milhões | 22,1 milhões | 78,9% | | Primeiras doses aplicadas | 20 milhões | 14,3 milhões | 71,5% | | Esquema completo (2 doses) | 20 milhões | 2,4 milhões | 12,0% | | Doses perdidas (vencimento/armazenamento) | — | 3,2 milhões | — |
O gargalo está na segunda dose. Das 14,3 milhões de pessoas que tomaram a primeira aplicação, apenas 16,8% voltaram para completar o esquema. A Qdenga exige duas doses com intervalo de três meses. Três meses: tempo suficiente para esquecer, mudar de endereço ou desistir quando o posto fecha no horário de almoço.
E aqui, o dado que deveria ter provocado demissões.
Três vírgula dois milhões de doses venceram nos estoques municipais. A R$ 180 por dose — preço negociado pelo Ministério com a Takeda — o país jogou no lixo R$ 576 milhões em vacinas perfeitamente funcionais que apodreceram em geladeiras de postos de saúde.
Quinhentos e setenta e seis milhões de reais. Apodrecendo. Em geladeiras. Enquanto o Aedes continuava botando ovos.
O mapa da vacina é o mapa da desigualdade
A distribuição geográfica da cobertura reproduz, com precisão perturbadora, o mapa da desigualdade brasileira.
| Região | Cobertura (esquema completo) | Municípios com zero aplicação | |--------|------------------------------|-------------------------------| | Sudeste | 18,4% | 12 | | Sul | 16,2% | 28 | | Centro-Oeste | 13,7% | 41 | | Nordeste | 7,3% | 234 | | Norte | 4,1% | 189 |
São Paulo alcançou 22%. O Amazonas, 3,8%. Dos 5.570 municípios brasileiros, 504 não aplicaram uma única dose da Qdenga em um ano de campanha. Cidades pequenas, menos de 15 mil habitantes, que dependem de equipes volantes de vacinação — equipes que nunca chegaram.
A Organização Mundial da Saúde classifica o Brasil como zona endêmica de dengue, com transmissão ativa em 4.032 municípios. O país registrou 5,9 milhões de casos prováveis e 5.712 mortes no ano anterior — o pior da série histórica. Nordeste e Norte, que mais sofrem com a doença, foram exatamente as regiões com menor cobertura.
O escudo existe. Mas protege quem já estava protegido.
O problema tem nome, sobrenome e horário de almoço
A Qdenga precisa ser armazenada entre 2°C e 8°C. Após reconstituição, aplicada em 24 horas. Cadeia de frio padrão — a maioria das vacinas do calendário infantil tem exigências semelhantes. O SUS faz isso há décadas com tríplice viral, febre amarela e hepatite B.
O que mudou foi a escala. Vacinar 20 milhões em 12 meses exige operação do tamanho da campanha contra a Covid. E a campanha contra a Covid — quando funcionou — contou com forças armadas, drive-throughs, horários estendidos, mutirões em estádios.
A campanha da dengue não teve nada disso.
| Comparativo logístico | Covid (2021-2022) | Dengue (2025-2026) | |----------------------|-------------------|-------------------| | Pontos de vacinação | 38 mil | 14 mil | | Horário de funcionamento | Estendido (8h-22h) | Comercial (8h-17h) | | Vacinação em fins de semana | Sim, mutirões | Esporádica | | Apoio das Forças Armadas | Sim | Não | | Drive-through | 2.100 pontos | Zero | | Campanha publicitária (TV/rádio) | R$ 280 milhões | R$ 42 milhões |
O investimento em publicidade conta a história inteira. R$ 280 milhões para convencer o país a tomar vacina contra a Covid. R$ 42 milhões para a dengue — seis vezes menos, para uma doença que matou 5.712 brasileiros no ano passado.
Marlene, a agente de Planaltina, resume numa frase que nenhum relatório ministerial ousaria escrever: "O povo não volta porque o posto fecha na hora que o povo trabalha."
A ciência entregou. A gestão devolveu.
A eficácia da Qdenga está comprovada em duas frentes — laboratório e mundo real. Os estudos clínicos de fase 3 da Takeda, com 20.071 participantes em oito países, mostraram 80,2% de eficácia contra dengue sintomática e 90,4% contra hospitalização. Os dados do primeiro ano de campanha no Brasil confirmam: entre vacinados com esquema completo, a taxa de hospitalização caiu 84%.
| Indicador de eficácia | Estudo clínico | Mundo real (Brasil) | |----------------------|----------------|---------------------| | Redução de dengue sintomática | 80,2% | 76,8% | | Redução de hospitalização | 90,4% | 84,0% | | Eventos adversos graves | 0,1% | 0,08% |
Não existe dúvida sobre a vacina. A Qdenga funciona independentemente do sorotipo, em soropositivos e soronegativos — diferente da Dengvaxia da Sanofi, que gerou controvérsia nas Filipinas em 2017 por risco aumentado em soronegativos. A ciência aprendeu com o erro e corrigiu. Forjou um escudo novo, mais resistente, mais abrangente.
O gargalo é exclusivamente operacional. O SUS tem 48 mil Unidades Básicas de Saúde, 312 mil agentes comunitários e rede capilar que alcança 190 milhões de brasileiros. A estrutura existe. O que falta é a decisão de usá-la.
O que outros países fizeram com o mesmo escudo
A Indonésia enfrentou situação parecida e resolveu de forma diferente. Com 277 milhões de habitantes e clima tropical semelhante, atingiu 31% de cobertura vacinal contra a dengue em 10 meses.
A diferença: o governo indonésio integrou a vacinação ao programa escolar. Crianças e adolescentes de 6 a 16 anos vacinados nas escolas, sem deslocamento até postos de saúde. Pais assinaram autorização digital pelo aplicativo do governo. Segunda dose aplicada no mesmo local, três meses depois, com lembrete automático por SMS.
A Tailândia adotou modelo misto: postos de saúde nos dias úteis, templos budistas nos fins de semana. Cobertura de 27% em oito meses.
O Brasil escolheu o modelo mais caro e menos eficiente: depender exclusivamente da rede do SUS em horário comercial, sem busca ativa, sem lembretes automatizados, sem pontos alternativos.
A aritmética que o Ministério finge não conhecer
Cada paciente internado por dengue custa ao SUS entre R$ 3.200 e R$ 8.500, dependendo da gravidade. No ano passado, o sistema gastou R$ 4,7 bilhões com internações e tratamento ambulatorial — recorde absoluto.
| Cenário | Custo | Economia estimada (3 anos) | |---------|-------|---------------------------| | Sem vacinação | R$ 4,7 bi/ano em tratamento | — | | Vacinação 12% (atual) | R$ 432 milhões aplicados | R$ 1,2 bilhão | | Vacinação 50% (meta revisada) | R$ 3,6 bilhões | R$ 5,8 bilhões | | Vacinação 80% (ideal) | R$ 5,76 bilhões | R$ 9,1 bilhões |
A conta é primária. Vacinar custa menos que tratar. Prevenir sai mais barato que chorar. Mas vacinar exige competência logística que o Ministério demonstrou ter — na Covid — e escolheu não mobilizar para a dengue.
O SUS já provou. Basta repetir.
Em janeiro de 2021, o Brasil estava em último lugar entre os grandes países na vacinação contra a Covid. Em dezembro, 75% da população adulta tinha esquema completo. A virada aconteceu quando o governo parou de debater e começou a vacinar: horários estendidos, mutirões, pontos em shoppings, igrejas, estádios.
O SUS já provou que consegue vacinar 3 milhões de pessoas por dia quando opera em capacidade total. Para a dengue, a média diária ficou em 39 mil. Cem vezes menos.
Não é falta de dinheiro. O orçamento do Ministério da Saúde no ano passado foi de R$ 241 bilhões — o maior da história. A questão é escolha. Um ministério que destina R$ 42 milhões em publicidade para uma vacina contra doença que mata 5 mil por ano não colocou a dengue como prioridade.
A promessa do Butantan: escudo nacional
O Instituto Butantan desenvolve sua própria vacina — a Butantan-DV — desde 2006. Fase 3 com 16.235 participantes apresentou 79,6% de eficácia com dose única. Uma dose. Não duas. A vantagem operacional é cirúrgica: elimina o problema da segunda aplicação que o Brasil provou ser incapaz de resolver.
A Anvisa recebeu pedido de registro em outubro do ano passado. Análise em andamento, sem previsão.
| Vacina | Fabricante | Doses | Eficácia (sintomática) | Custo por esquema | Status no Brasil | |--------|-----------|-------|----------------------|------------------|-----------------| | Qdenga | Takeda | 2 doses | 80,2% | R$ 360 | Aprovada e em uso | | Butantan-DV | Butantan | 1 dose | 79,6% | R$ 40-60 (estimado) | Registro em análise | | Dengvaxia | Sanofi | 3 doses | 65,6% | R$ 450 | Retirada do mercado |
Se aprovada, a Butantan-DV poderá ser produzida integralmente no Brasil, reduzindo dependência da Takeda e o custo por esquema de R$ 360 para R$ 40-60. Cronograma otimista: aprovação no segundo semestre de 2026, produção em escala a partir de 2027. Cronograma realista — considerando o histórico da Anvisa com vacinas novas — 2028.
O custo político de deixar o escudo no chão
A dengue matou mais brasileiros no ano passado do que qualquer outra arbovirose na história do país. O governo teve vacina, dinheiro e estrutura. Escolheu não mobilizar.
Pesquisa Datafolha de fevereiro de 2026: 67% dos brasileiros consideram a campanha de vacinação "ruim" ou "péssima". No Nordeste e Norte — menor cobertura, maior incidência — a rejeição chega a 78%.
A ministra Nísia Trindade, convocada na Comissão de Seguridade Social da Câmara em março, apresentou plano de "intensificação" com mutirões em maio e junho. O plano repete as mesmas medidas que falharam: horário estendido em postos selecionados e campanha em redes sociais.
Sem mudança estrutural — vacinação em escolas, busca ativa, lembretes automatizados, pontos em shoppings e terminais — o resultado será o mesmo. Repetir a mesma ação esperando resultado diferente não é estratégia. É inércia com nome bonito.
O próximo verão já tem data marcada
O ciclo da dengue é sazonal. Janeiro a abril concentram 70% dos casos anuais. O próximo verão — dezembro de 2026 — encontrará o Brasil com cobertura de 12%. Insuficiente para imunidade coletiva, que exige pelo menos 60% da população-alvo.
A Fiocruz projeta que o primeiro trimestre de 2027 pode registrar entre 4 e 7 milhões de casos prováveis, dependendo de condições climáticas e cobertura vacinal. O cenário otimista — vacinação acelerada nos próximos oito meses — reduziria o intervalo para 2,5 a 4 milhões.
A diferença se mede em corpos. Cada ponto percentual de cobertura evita aproximadamente 12 mil internações e 70 mortes, segundo modelo do Programa Nacional de Imunizações. Passar de 12% para 40% até dezembro evitaria 336 mil internações e quase 2 mil óbitos.
Marlene vai continuar acordando às cinco da manhã, percorrendo seus dezessete quarteirões, carregando na bolsa térmica o escudo que a ciência forjou. O relógio corre. As doses vencem. O Aedes não respeita horário de expediente, não espera regulamentação, não lê nota técnica.
A ciência entregou o escudo. A pergunta que ninguém responde: o governo vai levantá-lo — ou deixá-lo apodrecer na geladeira, como fez com R$ 576 milhões em vacinas que nunca encontraram um braço.
Dados: Programa Nacional de Imunizações/DataSUS (mar/2025 a fev/2026), Organização Mundial da Saúde — Dengue Fact Sheet (ano passado), Takeda — estudo clínico TIDES fase 3, Butantan — relatório de acompanhamento vacinal. Análise pelo Mirante News.
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