
Equipe de visita domiciliar do programa Saúde em Casa atende família em Sobradinho, em março de 2026.
Programa Saúde em Casa: 380 equipes e queda de 15% em internações evitáveis
A Secretaria de Saúde do Distrito Federal completou em março de 2026 a 380ª equipe do programa Saúde em Casa, modelo de atenção domiciliar com visitas regulares a famílias com pacientes crônicos, idosos acamados e gestantes de risco. A expansão de 142% em dois anos correspondeu a queda de 15% nas internações evitáveis e economia estimada de R$ 180 milhões para o SUS no DF.
A senhora dona Geralda tem 81 anos, diabetes tipo 2, hipertensão, sequela de AVC no lado direito e mora numa casa de dois cômodos no fundo do lote da filha, em Sobradinho. Há dois anos atrás, ela ia à UPA três vezes por mês.
Glicemia descompensada, pressão alta, escara no calcanhar, infecção urinária. Cada vez que ia, ficava em observação 12 horas, voltava pra casa, semana seguinte estava tudo igual.
Agora ela recebe visita semanal da equipe do Saúde em Casa. Médico, enfermeira e técnica de enfermagem entram na casa dela toda terça-feira de manhã.
Aferem pressão, medem glicemia capilar, trocam curativo, ajustam medicação, conversam com a filha sobre dieta, conferem se a insulina está sendo guardada na geladeira. Em 14 meses, dona Geralda foi à UPA uma única vez — e, dessa vez, foi por algo que de fato precisava de pronto-socorro.
Essa é a história do programa em uma única paciente. Multiplicada por 142 mil famílias, vira política pública.
A escala que o DF construiu em dois anos
O Saúde em Casa é a versão brasiliense ampliada do programa federal Melhor em Casa, do Ministério da Saúde, com adaptações operacionais e financiamento próprio do GDF para acelerar a cobertura. Em janeiro de 2024, o DF tinha 157 equipes ativas.
Em março de 2026, são 380. Crescimento de 142% em 26 meses.
Cada equipe é composta por médico, enfermeiro, dois técnicos de enfermagem e um agente comunitário, com retaguarda de fisioterapeuta, fonoaudiólogo, nutricionista e psicólogo via núcleo de apoio. A equipe atende, em média, 380 famílias cadastradas, com visitas programadas conforme a complexidade do caso — semanais para acamados graves, quinzenais para crônicos compensados, mensais para acompanhamento preventivo.
| Indicador Saúde em Casa | Jan/2024 | Mar/2026 | Variação | |---|---|---|---| | Equipes ativas | 157 | 380 | +142% | | Famílias acompanhadas | 59.660 | 142.500 | +139% | | Visitas/mês | 38.412 | 91.870 | +139% | | Internações evitáveis (DF) | base 100 | 85 | -15% | | Custo evitado SUS-DF | — | R$ 180 milhões | — |
Fonte: SES-DF, Balanço Saúde em Casa 2026; DataSUS
A meta da gestão Celina Leão para dezembro de 2026 é chegar a 460 equipes, cobertura suficiente para incluir 100% das regiões administrativas do DF e atender cerca de 175 mil famílias. O orçamento é de R$ 312 milhões para o ano, sendo R$ 198 milhões do tesouro do DF e R$ 114 milhões do programa federal.
Por que a internação evitável é o indicador que importa
Existe uma categoria estatística no SUS chamada Internações por Condições Sensíveis à Atenção Primária, ou ICSAP. São hospitalizações que, em tese, não deveriam ter ocorrido se a atenção primária à saúde tivesse funcionado.
Diabetes descompensada, hipertensão grave, asma, pneumonia bacteriana em criança vacinada, infecção urinária complicada, gastroenterite com desidratação, anemia, deficiência nutricional.
Quando essas internações sobem, é sinal de que o sistema não está prevenindo. Quando caem, é sinal de que está.
O DF registrou 47.812 ICSAP em 2023 e 40.640 em 2025 — queda de 15% em dois anos. Não é estatisticamente irrelevante.
É evidência de que o modelo funciona.
Cada internação por causa sensível custa, em média, R$ 1.847 ao SUS, segundo o DataSUS. A redução de 7.172 internações em dois anos representa cerca de R$ 13,2 milhões em economia direta com diárias hospitalares.
Mas o cálculo completo é maior: somando exames evitados, medicamentos não consumidos, transporte sanitário poupado, leitos liberados para casos graves e dias de afastamento do trabalho economizados pelos cuidadores familiares, a Secretaria estima R$ 180 milhões em custos evitados para o SUS-DF no biênio.
A epidemiologia da prevenção
Quem trabalha com medicina baseada em evidência sabe que prevenção é, de longe, a intervenção mais custo-efetiva que existe. Cada real investido em atenção primária qualificada economiza entre R$ 4 e R$ 7 em atenção hospitalar, segundo metanálises publicadas no The Lancet e nos Cadernos de Saúde Pública nas últimas duas décadas.
O Saúde em Casa do DF está reproduzindo, com adaptações locais, modelos consolidados em países como Cuba, Costa Rica, Portugal e Reino Unido, onde a visita domiciliar regular é eixo central da atenção primária.
O estudo do Departamento de Saúde Coletiva da UnB publicado em janeiro de 2026 mediu o impacto epidemiológico do programa em três regiões administrativas — Ceilândia, Samambaia e Recanto das Emas — entre 2023 e 2025. Os resultados:
- Hospitalizações por descompensação diabética: -22%
- Hospitalizações por crise hipertensiva: -19%
- Hospitalizações por úlcera de pressão (acamados): -34%
- Hospitalizações por pneumonia em idosos: -16%
- Mortalidade domiciliar evitável: -11%
São números que, num ensaio clínico, seriam considerados grande efeito. Em política pública aplicada, são quase milagre estatístico.
E não vieram de tecnologia cara, não vieram de medicamento novo, não vieram de equipamento de ponta. Vieram de gente entrando na casa do paciente uma vez por semana.
O elo que faltava na rede
O sistema de saúde brasileiro foi desenhado com três níveis: atenção primária (postos de saúde, ESF), atenção secundária (UPA, especialidades) e atenção terciária (hospital). Por décadas, o DF teve atenção secundária e terciária funcionando razoavelmente, mas a atenção primária era o elo fraco.
O Saúde em Casa não é a única peça desse elo, mas é a peça que estava faltando para fechar o ciclo.
Quando o agente comunitário visita a casa toda semana, ele detecta o problema antes de virar crise. Quando a enfermeira ajusta a medicação na sala da paciente, o paciente toma o remédio certo.
Quando o médico vê o ambiente em que a pessoa vive — a geladeira, o banheiro, o colchão, a comida — ele entende o que prescrever que vai funcionar e o que não vai.
A medicina de consultório, dentro do prédio, sob luz fluorescente, com 15 minutos por paciente, entrega uma fração do que a medicina dentro de casa entrega. Sempre foi assim.
O Brasil só esqueceu durante algumas décadas porque era mais fácil construir hospital do que treinar equipe domiciliar.
O DF está reaprendendo. E os números do DataSUS estão registrando.
O que falta para 2026 fechar bem
A meta de 460 equipes até dezembro depende de três coisas: contratação de mais 240 profissionais (médicos, enfermeiros, técnicos), aquisição de 80 veículos adicionais para deslocamento das equipes e ampliação do sistema de prontuário eletrônico domiciliar para integração com o e-SUS. As três frentes estão contratadas e em execução, segundo cronograma divulgado pela Secretaria em fevereiro.
O risco operacional é o de sempre em programa de expansão acelerada: contratar gente sem perder qualidade. A SES-DF criou um programa de capacitação obrigatória de 80 horas para todo profissional novo da rede Saúde em Casa, com avaliação prática e tutoria por equipe veterana nos primeiros três meses.
É uma camada simples mas essencial — porque escala sem qualidade é só estatística inflada.
Se o programa chegar em dezembro com 460 equipes, qualidade mantida e ICSAP ainda em queda, o DF terá entregue, em pouco mais de três anos, uma das maiores expansões de atenção domiciliar da história do SUS. Não é hipérbole.
É aritmética da rede.
E para a dona Geralda, que mora nos fundos do lote da filha em Sobradinho, é a diferença entre acordar pensando se vai precisar ir à UPA hoje ou apenas tomar café da manhã.
Dra. Fernanda Souza é médica emergencista, especialista em Medicina de Urgência pela AMB e plantonista do Hospital Regional da Asa Norte há 11 anos.
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