
Sala de espera de unidade básica de saúde no Plano Piloto: a procura por atendimento psicológico cresceu 41% entre 2022 e 2025.
A saúde mental do brasiliense: 1 em cada 4 adultos faz acompanhamento psiquiátrico
Brasília tem hoje a maior taxa de adultos em acompanhamento psiquiátrico ou psicológico do país. Os números, levantados pelo IBGE em parceria com o Conselho Federal de Psicologia, revelam um retrato silencioso de uma capital que, debaixo da rotina dos servidores e dos universitários, sustenta um sofrimento mental que deixou de ser tabu — e virou estatística pública.
Brasília acordou para um dado que circula entre médicos da rede pública há pelo menos dois anos, mas que só agora ganhou consolidação oficial. Segundo a Pesquisa Nacional de Saúde divulgada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística em março deste ano, 24,8% dos adultos do Distrito Federal relataram fazer algum tipo de acompanhamento psiquiátrico ou psicológico nos últimos doze meses.
É a maior taxa entre todas as capitais brasileiras, à frente de Florianópolis (22,1%), Porto Alegre (21,4%) e Belo Horizonte (19,7%).
A média nacional, no mesmo recorte, é de 14,3%. A diferença não é pequena: o brasiliense procura ajuda psicológica em uma proporção 73% maior do que o brasileiro médio.
E não se trata apenas de moradores do Plano Piloto. Os dados desagregados por região administrativa, cruzados pela Companhia de Planejamento do Distrito Federal, mostram que a procura cresceu de forma consistente em Ceilândia, Samambaia, Planaltina e São Sebastião — regiões historicamente subatendidas em saúde mental.
Quem são os pacientes do divã
A psiquiatra Fernanda Souza, que atende há catorze anos em consultório no Lago Sul e em ambulatório do Hospital de Base, observa um padrão que se repete: mulheres entre 28 e 45 anos, com filhos pequenos, jornada dupla e queixa inicial de "cansaço que não passa". Em segundo lugar, jovens entre 18 e 24 anos com sintomas de ansiedade generalizada e episódios de pânico.
Em terceiro, servidores públicos próximos da aposentadoria, com quadros depressivos relacionados à perda de identidade profissional.
"Não é uma epidemia de fragilidade, como dizem alguns. É uma epidemia de exposição", diz a médica.
"As pessoas hoje conseguem nomear o que sentem. E nomear é o primeiro passo para procurar ajuda."
Os números do Conselho Federal de Psicologia confirmam essa leitura. Entre 2022 e 2025, o número de psicólogos registrados no Distrito Federal cresceu 38% — de 11.420 para 15.760 profissionais ativos.
A densidade hoje é de um psicólogo para cada 196 habitantes, a melhor proporção do país. Em comparação, São Paulo tem um psicólogo para cada 312 habitantes; o Rio de Janeiro, um para cada 287.
A rede pública não dá conta
Apesar da abundância de profissionais, o Sistema Único de Saúde no Distrito Federal opera com fila de espera. Segundo a Secretaria de Saúde, o tempo médio entre a primeira triagem em uma Unidade Básica e a primeira consulta com psiquiatra é de 87 dias.
Para psicólogo, 64 dias. Em casos classificados como urgência leve, o paciente pode esperar até quatro meses.
O orçamento da Secretaria destinado à saúde mental em 2026 é de R$ 312 milhões, valor 18% maior do que em 2025, mas ainda inferior à média recomendada pela Organização Mundial da Saúde, que sugere 5% do orçamento total de saúde. No Distrito Federal, o percentual atual é de 3,7%.
| Indicador de saúde mental no DF | 2022 | 2025 | |---|---|---| | Adultos em acompanhamento (%) | 17,6 | 24,8 | | Psicólogos registrados | 11.420 | 15.760 | | Tempo médio fila SUS (dias) | 112 | 87 | | Internações por transtornos mentais | 4.180 | 5.640 | | Suicídios registrados (por 100 mil hab.) | 6,8 | 7,4 | | Orçamento saúde mental (R$ milhões) | 198 | 312 |
Fonte: IBGE, Secretaria de Saúde do DF, Conselho Federal de Psicologia, DataSUS.
Os medicamentos mais vendidos
Um dado paralelo, levantado pelo Conselho Regional de Farmácia do Distrito Federal, ajuda a dimensionar o fenômeno. Em 2025, foram vendidas no Distrito Federal 4,2 milhões de caixas de antidepressivos — um crescimento de 52% em relação a 2022.
A escitalopram lidera o ranking, seguida por sertralina, fluoxetina e venlafaxina. Entre os ansiolíticos, clonazepam e alprazolam continuam no topo, apesar da pressão dos protocolos clínicos para reduzir a dependência de benzodiazepínicos.
A psiquiatra Marina Vieira, da Universidade de Brasília, alerta para o uso prolongado: "Temos uma geração inteira que entrou no clonazepam aos 25 anos e hoje, aos 40, não consegue mais dormir sem ele. A dependência iatrogênica é um problema de saúde pública que ainda subestimamos."
O custo invisível
Para além dos gastos diretos com medicação e consultas, o sofrimento mental cobra um preço silencioso da produtividade. Um estudo da Universidade de Brasília publicado em fevereiro estima que os afastamentos por transtornos mentais custaram ao Distrito Federal R$ 1,8 bilhão no exercício anterior, considerando salários pagos a servidores afastados, queda de produtividade e custos com substituição.
É mais do que o orçamento anual da Secretaria de Cultura.
Entre os servidores públicos federais lotados em Brasília, o transtorno depressivo recorrente tornou-se a terceira maior causa de afastamento médico, atrás apenas de problemas musculoesqueléticos e pós-cirúrgicos. Em 2020, ocupava a sétima posição.
O que está sendo feito
A Secretaria de Saúde do Distrito Federal anunciou em janeiro um plano de expansão dos Centros de Atenção Psicossocial, os chamados CAPS. Hoje são 23 unidades em funcionamento; até dezembro de 2026, devem ser 31.
O plano também prevê a contratação de 240 novos profissionais — entre psicólogos, psiquiatras, enfermeiros e assistentes sociais — e a criação de uma linha telefônica de escuta gratuita que funcionará 24 horas, em parceria com o Centro de Valorização da Vida.
Iniciativas privadas também avançam. Plataformas digitais de teleconsulta psicológica, como Zenklub e Vittude, registraram crescimento de 67% no número de assinantes da capital federal entre 2024 e 2025.
O preço médio de uma sessão online no Distrito Federal varia entre R$ 90 e R$ 180, contra R$ 200 a R$ 400 no atendimento presencial.
A psiquiatra Fernanda Souza encerra a entrevista com uma observação que resume o fenômeno: "Brasília sempre foi uma cidade dura. As distâncias enormes, a rotina dos concursos, o peso institucional.
O que mudou é que as pessoas pararam de fingir que estavam bem. E isso, por mais doloroso que pareça nos números, é um avanço civilizatório."
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