
Feira do Produtor de Vicente Pires na manhã de sábado: 380 boxes, 6 mil visitantes por semana.
As feiras livres do DF mantêm 14 mil famílias — e resistem ao supermercado há 40 anos
Antes do sol nascer em Vicente Pires, o caminhão do seu Raimundo já está parado no boxe 47. Há 31 anos é o mesmo boxe, a mesma rotina, a mesma alface crespa colhida na véspera no Núcleo Rural do PAD-DF. O que mudou em volta foi o resto: a cidade cresceu, três supermercados de bandeira nacional abriram num raio de dois quilômetros, o aplicativo de entrega chegou. A feira não. A feira continua.
Antes do sol nascer em Vicente Pires, o caminhão do seu Raimundo já está parado no boxe 47. Há 31 anos é o mesmo boxe, a mesma rotina, a mesma alface crespa colhida na véspera no Núcleo Rural do PAD-DF.
O que mudou em volta foi o resto: a cidade cresceu, três supermercados de bandeira nacional abriram num raio de dois quilômetros, o aplicativo de entrega chegou. A feira não.
A feira continua.
O Distrito Federal tem hoje 132 feiras livres e permanentes registradas pela Emater-DF. São 8.400 boxes ativos, distribuídos por 28 das 35 regiões administrativas.
Juntas, essas feiras sustentam de forma direta cerca de 14 mil famílias — feirantes, ajudantes, transportadores, pequenos produtores rurais que entregam a mercadoria três vezes por semana — e movimentam, segundo estimativa cruzada da Emater com a Codeplan, algo entre R$ 1,1 e R$ 1,3 bilhão por ano em vendas no varejo.
Para um mercado de hortifrúti dominado por sete redes de supermercado que respondem por 71% do faturamento do setor no Distrito Federal, a sobrevivência das feiras é uma anomalia. Em capitais como Curitiba, Belo Horizonte e Porto Alegre, o número de feiras livres caiu mais de 30% nas duas últimas décadas.
Em Brasília, caiu 4%. E o número de feirantes ativos subiu 11% no mesmo período.
O retrato em números
A Pesquisa Distrital por Amostra de Domicílios da Codeplan, divulgada em fevereiro de 2026, perguntou a 22 mil famílias onde compravam hortifrúti com mais frequência. A resposta surpreendeu a própria equipe técnica.
| Local de compra de hortifrúti | % das famílias | Variação 2018-2024 | |---|---|---| | Feira livre ou do produtor | 38,2% | +6,1 p.p. | | Supermercado de grande rede | 34,7% | -3,4 p.p. | | Sacolão de bairro | 18,1% | -1,2 p.p. | | Aplicativo de entrega | 5,4% | +4,8 p.p. | | Outros (horta própria, vizinho) | 3,6% | -0,3 p.p. |
A feira é hoje o canal preferido de compra de hortifrúti em Brasília. Não era em 2018.
O movimento contrário ao do resto do país tem três explicações que aparecem nos questionários abertos da Codeplan e que a Emater já vinha documentando desde 2021.
A primeira é o preço. A cesta básica de hortifrúti com 12 itens custa, em média, 23% menos na feira do que no supermercado mais barato da mesma região administrativa.
A diferença chega a 41% no Núcleo Bandeirante e a 38% no Gama. A pesquisa de preços do Procon-DF de março de 2026 mostrou que o quilo do tomate caqui variou de R$ 4,90 (Feira do Guará) a R$ 9,79 (rede atacadista de Águas Claras) na mesma semana.
A segunda é a origem. Sessenta e oito por cento dos produtos vendidos nas feiras do produtor vêm de propriedades rurais do próprio Distrito Federal ou do Entorno (Padre Bernardo, Cristalina, Planaltina de Goiás, Luziânia).
A cadeia é curta. O alface colhido na quinta-feira chega ao boxe na sexta de manhã.
No supermercado, o mesmo alface passa por um centro de distribuição em Goiânia, fica três a cinco dias em câmara fria e perde, segundo medição do Cepea-Esalq, entre 8% e 14% do peso.
A terceira é o vínculo. Setenta e três por cento dos frequentadores de feira no DF compram sempre dos mesmos feirantes.
Conhecem pelo nome. Pedem fiado quando o salário atrasa.
Levam encomenda — o feirante separa a mandioca descascada na quarta para entregar no sábado. É o tipo de relação comercial que aplicativo nenhum reproduz, e que os economistas chamam, sem entender direito, de capital social.
Quem são os feirantes
A Emater-DF terminou em janeiro um recadastramento completo. O perfil que saiu de lá desfaz o estereótipo do feirante como pequeno produtor rural empobrecido.
Idade média: 51 anos. Escolaridade: 62% têm ensino médio completo, 14% superior.
Renda mensal média da família feirante: R$ 6.840 — bem acima da renda média do DF, que é de R$ 4.520 segundo a PDAD. O tempo médio no ofício é de 18 anos.
Quarenta e três por cento são filhos ou netos de feirantes — a profissão tem hereditariedade.
E há um dado que a Codeplan nunca tinha medido: 71% dos feirantes do DF não pagam aluguel da própria casa. São proprietários, herdeiros ou moram em imóvel da família.
Para uma profissão que começa às quatro da manhã e exige capital de giro próprio, ter o teto resolvido é a diferença entre prosperar e fechar.
A outra ponta da cadeia — os 2.200 produtores rurais que abastecem as feiras do DF — é mais frágil. Trabalham em propriedades de tamanho médio de 4,2 hectares.
Sessenta e um por cento estão em assentamentos do Incra ou em parcelamentos rurais regularizados pela Terracap. A renda média do produtor é menor: R$ 3.900 por mês.
Mas é uma renda estável, semanal, sem intermediário, sem o atravessador que historicamente ficava com 60% do preço final.
A geografia das feiras
As 132 feiras do DF não estão distribuídas por igual. O mapa que a Emater divulgou em março mostra três cinturões claros.
| Cinturão | Regiões administrativas | Nº de feiras | |---|---|---| | Sul | Gama, Santa Maria, Recanto das Emas | 28 | | Oeste | Ceilândia, Taguatinga, Samambaia, Vicente Pires | 41 | | Centro-Norte | Sobradinho, Planaltina, Itapoã, Paranoá | 33 | | Plano Piloto e Lago | Asa Sul, Asa Norte, Lago Sul, Lago Norte | 12 | | Outras | Brazlândia, Núcleo Bandeirante, SIA, etc. | 18 |
O Plano Piloto, que concentra a maior renda do Distrito Federal, é o que tem menos feira por habitante. Uma feira para cada 18 mil moradores.
Ceilândia, no extremo oposto da escala de renda, tem uma para cada 5 mil. A explicação é simples e dura: feira é equipamento de bairro popular.
O morador da Asa Norte vai ao supermercado gourmet, encomenda no aplicativo, almoça fora. O morador do P Sul vai à feira no sábado porque é onde o dinheiro estica.
A maior feira do DF em volume de vendas é a do Guará, com 612 boxes e fluxo estimado de 22 mil pessoas no fim de semana. A mais antiga em funcionamento contínuo é a da W3 Sul, instalada em 1962 e que sobreviveu a sete tentativas de remoção.
A mais nova é a Feira do Itapoã, inaugurada em outubro de 2025 com 84 boxes — todos ocupados na primeira semana.
O que ameaça e o que sustenta
A Emater listou no relatório de 2026 três ameaças concretas. A primeira é a sucessão.
Quase metade dos feirantes tem mais de 50 anos e só 18% têm filhos que pretendem assumir o boxe. Em dez anos, se nada mudar, o setor pode perder 25% da força de trabalho.
A segunda é a infraestrutura. Sessenta e três das 132 feiras funcionam em galpões públicos com cobertura precária, fiação irregular, banheiro insuficiente.
A reforma da Feira do Núcleo Bandeirante, prometida desde 2019, ainda não saiu do papel. A do Gama, reformada em 2023, virou referência — e o movimento subiu 31% no ano seguinte.
A terceira é a concorrência do atacarejo. As três grandes redes de atacarejo que entraram no DF entre 2018 e 2024 capturaram parte do consumidor de baixa renda que antes ia à feira por preço.
A reação dos feirantes foi inesperada: muitos começaram a vender em quantidade maior, fechar pacotes de cinco quilos, oferecer entrega para o cliente que compra acima de R$ 200. Adaptaram-se.
Do lado do que sustenta, há uma combinação de fatores que outras capitais perderam. O DF nunca teve cadeia produtiva agroindustrial forte, então o pequeno produtor rural não foi engolido.
A renda média alta da elite cria um nicho premium para orgânicos e produtos diferenciados — 18% dos feirantes do DF hoje vendem orgânico certificado. E a cultura migrante, que trouxe gente de Minas, do Nordeste, do Sul, manteve viva a memória da feira como lugar de comprar comida de verdade.
Seu Raimundo, do boxe 47, fechou o caminhão às onze e meia da manhã do sábado. Vendeu 380 quilos de hortaliça, 90 maços de cheiro-verde, 14 bandejas de morango.
Faturou bruto pouco mais de R$ 2.100 num dia. Disse que não troca o boxe por emprego nenhum.
Disse também que o filho, de 28 anos, está aprendendo o ofício. Vai assumir quando ele se aposentar.
Se aposentar.
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