
Corredor central da Feira Permanente de Taguatinga num sábado de abril de 2026, perto da banca 412, vista do lado da Avenida Comercial.
A feira de Taguatinga tem 800 bancas e movimenta R$ 180 milhões por ano
A Feira Permanente de Taguatinga, fincada desde 1976 num quarteirão do Setor B Norte que virou endereço afetivo de três gerações de brasilienses, chega em 2026 como o mais denso e mais movimentado equipamento de comércio popular do Distrito Federal — um organismo vivo de 800 bancas, 3.200 trabalhadores e cheiro de galinha caipira assada que mistura, num mesmo corredor, feirante do Piauí, importador de eletrônicos da Rua 25 de Março, barbeiro, cartomante, barraca de crochê e vendedor de disco de vinil usado.
Meu nome é Francisca Pereira de Souza, mas na feira todo mundo me chama de Dona Francisca do Ponto. Tenho a banca 318, corredor C, desde 1989.
Vendo galinha caipira assada, baião de dois, cuscuz e goma de tapioca feita por mim de madrugada. Aprendi o ofício com minha mãe, que tinha barraca de madeira na primeira versão desta feira, em 1976, quando ela ainda era chamada simplesmente de "a feira do Setor B".
Minha mãe chegou do Piauí em 1972. Eu cheguei no colo dela.
Não conheço outra profissão. Não quero conhecer.
A feira em que minha mãe começou tinha 120 barracas de madeira, nenhuma cobertura decente e chuva entrava. A feira em que eu trabalho em 2026 tem 800 bancas em estrutura de concreto, corredores cobertos, praça de alimentação, 42 câmeras de segurança, banheiros com funcionamento cotidiano e administração do Governo do Distrito Federal através da administração regional de Taguatinga.
Minha mãe sonhava com isso e não viveu para ver.
Os números de um organismo vivo
A administração regional de Taguatinga divulgou em março o censo interno do equipamento, feito em parceria com a Codeplan. A feira tem hoje 800 bancas ativas — sendo 312 de alimentação (quentinha, pastelaria, lanchonete, caldos, comida nordestina, churrasco), 189 de hortifrúti, 128 de roupas e calçados, 94 de bijuteria, eletrônicos e brinquedos, 42 de utilidades domésticas, 22 de serviços (barbearia, costura, manicure, chaveiro) e 13 de produtos regionais (rapadura, queijo, cachaça).
Trabalham no equipamento 3.200 pessoas em vínculo direto — feirantes titulares, familiares e ajudantes — e mais 480 em serviços indiretos (segurança terceirizada, limpeza, carregadores autônomos). A circulação média num sábado é de 58 mil visitantes, medida por contagem automática nas seis entradas principais.
Aos domingos, o número cai para 32 mil. Nos dias úteis, a média é de 12 mil a 18 mil.
| Indicador | 1976 | 1998 | 2010 | 2026 | |---|---|---|---|---| | Bancas ativas | 120 | 410 | 612 | 800 | | Trabalhadores diretos | ~400 | 1.400 | 2.350 | 3.200 | | Visitantes num sábado | ~6.000 | 22.000 | 41.000 | 58.000 | | Estrutura | Madeira | Mista | Concreto | Concreto coberto | | Segurança | Nenhuma | 4 vigias | 12 vigias | 42 câmeras + 18 vigias |
O volume financeiro é uma estimativa, não um dado contábil consolidado. A administração do equipamento calcula, a partir do cruzamento entre declarações dos feirantes, transações via maquininha de cartão e pesquisa de tíquete médio feita pelo Sebrae em 2024, que o faturamento agregado das 800 bancas é de cerca de R$ 180 milhões por ano.
Fica entre R$ 14 milhões e R$ 17 milhões por mês. Se a feira fosse um shopping center, entraria na lista dos 25 maiores do DF por faturamento.
O corredor das comidas
A parte mais densa da feira é a praça de alimentação, concentrada nos corredores A, C e F. Ali estão 312 bancas de comida, quase todas familiares, quase todas com cardápio escrito à mão em placa de ardósia.
O cardápio coletivo desse setor é um mapa do Brasil nordestino misturado com o Brasil de Minas e com invenções de segunda geração: buchada de bode servida ao lado de pastel de carne de sol, bolinho de bacalhau ao lado de feijão tropeiro, cuscuz recheado ao lado de yakisoba (sim, tem yakisoba, na banca 712, feito por uma japonesa de Taguatinga Sul).
A média de preço de uma refeição completa feita na feira, em abril de 2026, é de R$ 22,50 segundo a pesquisa do Sebrae. Uma quentinha simples sai a R$ 18.
Um prato montado com dois acompanhamentos e proteína sai a R$ 25 a R$ 30. Para comparar: a média do Plano Piloto, na mesma pesquisa, ficou em R$ 48.
A feira oferece, literalmente, metade do preço — e, em boa parte das bancas, com comida melhor feita.
Quem compra
O perfil do visitante mudou muito. Até 2012, a clientela da feira era predominantemente de moradores de Taguatinga, Ceilândia, Samambaia e Recanto das Emas.
A partir de 2015, começou a chegar em volume o morador do Plano Piloto, de Águas Claras e do Sudoeste em busca de preços melhores, de variedade e de certa estética "autêntica" que se tornou valiosa na mesma medida em que o comércio do Plano se gentrificou.
Uma pesquisa rápida feita pela administração em janeiro de 2026, com amostra de 1.400 visitantes, apontou que 38% vinham de Taguatinga, 19% de Ceilândia, 11% de Samambaia, 9% do Plano Piloto, 7% de Águas Claras, 5% do Recanto das Emas, 4% do Entorno do DF (Águas Lindas, Santo Antônio do Descoberto, Valparaíso) e 7% distribuídos em outras regiões administrativas. Ou seja: a feira continua sendo predominantemente popular e periférica, mas um a cada seis visitantes hoje vem do Plano, do Sudoeste ou de Águas Claras.
Os problemas que ninguém imprime no folder
Eu vou ser franca. A feira funciona, mas não é um lugar sem problema.
O primeiro é a infraestrutura elétrica, que foi dimensionada nos anos 1990 e hoje não aguenta a carga de 800 bancas usando geladeira, freezer, micro-ondas, maquininha de cartão e luz de LED ao mesmo tempo. Queda de energia nos fins de semana é rotina.
A administração regional tem um projeto de R$ 8,4 milhões, já licitado, para trocar toda a rede interna e instalar gerador próprio. A obra começa em maio e deve durar seis meses.
O segundo é a fila de espera por uma banca. A lista oficial tem hoje 1.840 nomes inscritos, e o tempo médio de espera é de sete anos.
Parte da solução seria liberar a ampliação do equipamento para os quatro lotes adjacentes, vazios desde 2004, mas essa ampliação depende de revisão do plano diretor local, que tramita há três anos na administração.
O terceiro é o envelhecimento dos feirantes. A idade média dos titulares de banca é de 58 anos.
Os filhos, em muitos casos, não querem assumir o ponto — preferem trabalhar em outros setores, estudar, sair da feira. Há uma geração inteira prestes a passar, e a sucessão é incerta.
Isso muda a feira que vai existir em dez anos.
A feira como patrimônio
Em 2024, a Secretaria de Cultura do Distrito Federal abriu processo para reconhecer a Feira Permanente de Taguatinga como patrimônio imaterial do DF. O reconhecimento protegeria a estrutura física, a organização dos corredores e a composição cultural do equipamento, e garantiria certa estabilidade contra mudanças abruptas em futuras gestões administrativas.
O parecer técnico favorável foi assinado em fevereiro de 2026 e o processo aguarda publicação do decreto formal.
O reconhecimento não vai aumentar faturamento nem resolver o problema elétrico. Mas vai colocar a feira, formalmente, na mesma categoria do samba do Planaltina, do congado de Pirenópolis e da carranca do São Francisco.
É o reconhecimento de que um equipamento de comércio popular pode ser, ele mesmo, um bem cultural.
Eu não ligo muito para papel oficial. Eu ligo para o freezer continuar ligando na sexta-feira de manhã, para o meu filho mais novo ir para a banca no sábado quando eu estou cansada e para o preço da galinha caipira não subir a ponto de afastar meu cliente de 20 anos.
Mas entendo o que o reconhecimento significa para quem veio depois da minha mãe e ainda vai ver isso aqui virar o que for. Minha mãe chamava de "a feira do Setor B".
Meu neto vai chamar de patrimônio. Entre as duas coisas, esteve uma vida inteira de corredor C, banca 318, goma de tapioca feita de madrugada.
Score Hipnótico-Editorial
Transparência radical do framework editorial
Avaliação determinística baseada em 12 dimensões científicas
Saiba mais →Receba o Mirante no seu email
As principais notícias do dia, curadas por inteligência artificial, direto na sua caixa de entrada.