
Coluna Jesus de Nazaré — A Parábola do Juiz que Almoça no Lago Sul e Sentencia em Ceilândia
A Parábola do Juiz que Almoça no Lago Sul e Sentencia em Ceilândia
Não julgueis, para que não sejais julgados. Pois com o critério com que julgardes, sereis julgados; e com a medida com que medirdes, vos medirão a vós.
Eu conheço juízes. Conheço bem.
Fui julgado por dois deles numa mesma noite: Anás e Caifás. Depois por um terceiro, Pilatos, que lavou as mãos porque não quis carregar o peso da decisão. Três julgamentos em menos de doze horas, sem defesa adequada, sem testemunhas de defesa, sem recurso. A sentença já estava escrita antes de eu entrar na sala.
Eu sei o que é estar do outro lado do tribunal. Sei o que é olhar para o rosto de quem decide sua vida e perceber que ele já decidiu antes de ouvir.
Então quando eu falo de juízes, não falo de fora. Falo de dentro. Falo como réu.
O Juiz do Lago Sul
Ele se chama — mas não importa o nome. Ele é um tipo. Um arquétipo. Um padrão que se repete em cada vara criminal de cada cidade-satélite do Distrito Federal.
Mora no Lago Sul. Rua dos Ipês, casa com seis suítes, piscina aquecida, jardim com projeto paisagístico. O Volvo XC60 cinza-grafite está na garagem ao lado do Land Rover da esposa, que é procuradora aposentada. Dois filhos em escola internacional — mensalidade de R$ 7.800 por cabeça.
Acorda às seis e trinta. Café preparado pela empregada doméstica que mora no quarto dos fundos — uma mulher de cinquenta e oito anos chamada Neuza (personagem ficcional baseada em dados reais), que veio de Planaltina e ganha R$ 1.620 por mês. Neuza tem um neto de dezenove anos. Mas chegaremos a ele depois.
O juiz lê o Correio Braziliense no iPad, verifica a pauta do dia no sistema do Tribunal de Justiça do Distrito Federal e Territórios, toma um expresso duplo e sai de casa às oito e quinze.
Às nove horas, está sentado na cadeira de espaldar alto do Fórum Desembargador José Júlio Leal Fagundes, em Ceilândia.
Ele nunca andou pelas ruas de Ceilândia à noite.
Os Números que o Juiz Não Lê
Segundo o Conselho Nacional de Justiça, na pesquisa de perfil sociodemográfico dos magistrados brasileiros de 2024, 80,3% dos juízes brasileiros são brancos. Em um país onde 55,5% da população se declara preta ou parda.
A renda média de um juiz no Distrito Federal, considerando subsídio-base mais auxílios, passa de R$ 35 mil mensais. O teto constitucional existe no papel. Na prática, com auxílio-moradia, auxílio-alimentação, auxílio-saúde, gratificações, abonos e penduricalhos que a contabilidade criativa do Judiciário inventou ao longo de décadas, a remuneração efetiva frequentemente ultrapassa R$ 50 mil.
Cinquenta mil reais por mês. Em Ceilândia, a renda domiciliar média é de R$ 2.380, segundo a Pesquisa Distrital por Amostra de Domicílios de 2024. A razão é de 21 para 1.
Vinte e uma vezes mais. Não é diferença. É abismo. É oceano. É o tipo de distância que torna impossível que um lado enxergue o outro com clareza, por mais boa vontade que exista.
E frequentemente não existe boa vontade.
A Mulher Pega em Adultério
João registrou no capítulo 8 uma cena que define tudo o que eu penso sobre julgamento humano.
Os escribas e fariseus trouxeram até mim uma mulher flagrada em adultério. A lei de Moisés mandava apedrejá-la. Eles não queriam justiça — queriam me testar. Se eu dissesse "apedrejai", contradiria meu ensinamento sobre misericórdia. Se eu dissesse "soltai", contradiria a lei.
Eu me abaixei e comecei a escrever no chão com o dedo. Até hoje ninguém sabe ao certo o que eu escrevi. Alguns teólogos dizem que eram os pecados dos acusadores. Outros dizem que eram nomes. Eu não vou esclarecer — o mistério tem sua função.
Depois me levantei e disse: "Quem dentre vós estiver sem pecado, atire a primeira pedra."
Eles saíram um por um, começando pelos mais velhos.
A mulher ficou sozinha comigo. Eu perguntei: "Mulher, onde estão aqueles que te acusavam? Ninguém te condenou?" Ela disse: "Ninguém, Senhor." Eu disse: "Nem eu te condeno. Vai e não peques mais."
Agora transponham essa cena para o Fórum de Ceilândia.
O Réu da Vara Criminal
O menino na frente do juiz tem dezenove anos. É negro. Morou a vida inteira na QNM 17, em Ceilândia. A mãe é empregada doméstica. O pai não consta na certidão.
Foi pego com 28 gramas de maconha e R$ 340 em notas trocadas. O flagrante diz "tráfico". A defesa — um defensor público sobrecarregado com 847 processos em andamento — argumenta que era porte para uso pessoal. A diferença entre tráfico e porte, no Brasil, é subjetiva. Depende do "contexto" — que na prática significa: depende da cor da pele, do endereço e da aparência do réu.
Um estudo do Núcleo de Estudos da Violência da Universidade de São Paulo mostrou que réus negros são condenados por tráfico com quantidades menores de droga do que réus brancos que respondem pelo mesmo crime. Que jovens negros de periferia são enquadrados como traficantes com 15 gramas, enquanto jovens brancos do Plano Piloto são enquadrados como usuários com 40 gramas.
A balança da justiça não é cega. Ela enxerga melanina.
O juiz do Lago Sul olha para o menino de Ceilândia. Vê o boné, a bermuda, o chinelo de dedo. Vê o endereço na ficha: QNM 17. Vê a ausência do pai. Vê exatamente o que esperava ver antes de abrir o processo.
E sentencia.
O Neto de Neuza
Lembram de Neuza? A empregada doméstica que prepara o café do juiz toda manhã? Ela tem um neto. Dezenove anos. Mora em Planaltina. O nome dele é Wanderson.
Wanderson foi pego pela Polícia Militar em dezembro do ano passado com 32 gramas de maconha no bolso da bermuda. Estava na parada de ônibus da QNP 24, voltando de uma festa. Os policiais pararam ele e mais dois amigos. Só ele foi revistado. Os outros dois eram brancos.
O processo de Wanderson está na fila da Vara Criminal de Planaltina. Será julgado por um juiz. Talvez não pelo mesmo juiz que toma o café que a avó dele prepara — mas por um juiz com perfil estatisticamente idêntico: branco, classe alta, formado em faculdade particular de Direito, morador do Plano Piloto ou Lago Sul.
Neuza não sabe que o juiz para quem ela trabalha condena meninos iguais ao neto dela. E o juiz não sabe que a mulher que prepara seu café chora à noite pensando no processo de Wanderson.
Essa é a parábola. Não preciso inventar nada. A realidade de Brasília já é parábola pronta.
Os Sepulcros Caiados
Em Mateus 23, eu disse aos fariseus: "Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas! Porque sois semelhantes a sepulcros caiados, que por fora parecem formosos, mas por dentro estão cheios de ossos de mortos e de toda a imundícia."
O sistema judiciário brasileiro é um sepulcro caiado. Por fora, a fachada de mármore do STF, as togas pretas, o verniz da jurisprudência, os acórdãos em linguagem que nenhum cidadão comum consegue ler. Por dentro, números que envergonham.
O Brasil tem a terceira maior população carcerária do mundo. São 832 mil presos, segundo o SISDEPEN de 2024. Desses, 67% são negros. A maioria por tráfico de drogas — o crime de pena mais subjetiva do Código Penal, onde a diferença entre "traficante" e "usuário" depende de um juiz que nunca pisou na comunidade do réu.
No Distrito Federal, o Complexo Penitenciário da Papuda abriga 16.400 detentos para uma capacidade de 8.200. Superlotação de 100%. A taxa de reincidência é de 42%. O custo mensal por preso é de R$ 3.800 — quase o dobro do Bolsa Família para uma família inteira.
Estamos gastando mais para prender meninos negros do que gastaríamos para educá-los. E quem decide prendê-los almoça no Pontão do Lago Sul e nunca ouviu o barulho de um helicóptero da PM sobrevoando a QNM 17 às duas da manhã.
A Trave e o Cisco
Eu disse: "Por que vês o cisco no olho do teu irmão e não percebes a trave que está no teu próprio olho?"
O juiz que sentencia o menino de Ceilândia por tráfico tem filhos. Esses filhos frequentam festas no Lago Sul, no Sudoeste, na Asa Norte. Nessas festas, há drogas. As mesmas drogas. A mesma maconha. Às vezes drogas piores — cocaína, ecstasy, cetamina.
A diferença: quando o filho do juiz é flagrado com drogas numa festa do Lago Sul, a ocorrência não vira inquérito. O pai conhece o delegado. O delegado conhece o juiz. O advogado particular — pago com os R$ 50 mil mensais — resolve em 48 horas. O menino volta para casa. O episódio vira "uma fase".
Quando Wanderson é flagrado na parada de ônibus da QNP 24, a ocorrência vira inquérito, o inquérito vira denúncia, a denúncia vira processo, o processo vira sentença. Wanderson não tem advogado particular. Tem um defensor público com 847 processos, que vai pedir pena alternativa e torcer para o juiz estar de bom humor.
A trave no olho do juiz é do tamanho de uma viga de sustentação. O cisco no olho de Wanderson é do tamanho de um baseado.
E a balança pende para o lado de sempre.
O Juiz Iníquo
Em Lucas 18, eu contei a parábola de um juiz que não temia a Deus nem respeitava os homens. Uma viúva ia até ele todos os dias pedir justiça contra um adversário que a explorava. O juiz ignorava. Dia após dia, ignorava.
Até que a persistência da viúva o venceu. Não por compaixão — por cansaço. "Ainda que eu não tema a Deus nem respeite os homens, vou fazer-lhe justiça para que ela não venha continuamente me importunar."
Eu contei essa parábola para ensinar sobre oração perseverante. Mas ela tem uma lição embutida que poucos percebem: o juiz da parábola fez justiça pelos motivos errados. E mesmo assim fez.
Quantos juízes no Brasil nem pelos motivos errados fazem justiça?
O Conselho Nacional de Justiça registrou, no relatório "Justiça em Números" de 2025, que a duração média de um processo criminal no Distrito Federal é de 3 anos e 7 meses. Três anos e sete meses com o menino de Ceilândia respondendo em liberdade provisória — quando consegue liberdade provisória — ou preso preventivamente num sistema carcerário superlotado, brutalizado, sem ressocialização.
A viúva de Lucas 18 pelo menos conseguiu que o juiz a ouvisse. Os meninos de Ceilândia muitas vezes são sentenciados sem que o juiz olhe uma única vez nos olhos deles.
O Que Eu Escreveria no Chão
Se eu estivesse no Fórum de Ceilândia quando trouxessem Wanderson diante do juiz, eu me abaixaria e escreveria no chão.
Escreveria os seguintes números:
R$ 50.000 — remuneração mensal do juiz.
R$ 1.620 — salário mensal de Neuza, avó de Wanderson, que trabalha na casa desse mesmo juiz.
32 gramas — a quantidade de maconha pela qual a vida de Wanderson está sendo definida.
67% — o percentual de presos negros no Brasil.
80,3% — o percentual de juízes brancos.
0 — o número de vezes que o juiz caminhou por Ceilândia à noite.
Depois eu me levantaria e diria a mesma coisa que disse há dois mil anos: quem dentre vós estiver sem pecado, atire a primeira pedra.
E o juiz teria duas opções: largar a pedra ou admitir que também é pecador. Que também tem filhos que erram. Que também vive num sistema que o beneficia por causa da cor da pele e do CEP.
Não Estou Pedindo Impunidade
Que fique registrado: eu não estou pedindo que se abram as portas das cadeias e se solte todo mundo. Eu não sou ingênuo — nem era há dois mil anos. Existem pessoas perigosas. Existem crimes graves. Existe a necessidade de proteger os inocentes.
O que eu estou pedindo é proporcionalidade. É consciência. É que o juiz que sentencia em Ceilândia passe uma semana morando em Ceilândia antes de decidir destinos.
Que ele veja o que é acordar num barraco de dois cômodos com seis pessoas. Que ele sinta o que é esperar duas horas num ponto de ônibus às cinco da manhã. Que ele entenda o que significa ter dezenove anos, sem pai, sem perspectiva, sem um real no bolso, e alguém oferecer R$ 300 para "guardar um pacote" por uma noite.
Trezentos reais. É quase o salário de uma semana de Neuza.
E depois, com essa vivência no corpo, que ele sente na cadeira do tribunal e julgue. Aposto que a sentença será diferente.
Misericórdia, Não Sacrifício
Em Mateus 9:13, eu disse: "Ide e aprendei o que significa: Misericórdia quero, e não sacrifício."
O sistema penal brasileiro é um sistema de sacrifício. Sacrifica meninos negros no altar de uma guerra às drogas que fracassou em todos os países onde foi tentada. Sacrifica famílias inteiras — porque quando um menino de dezenove anos vai preso, quem sustenta a mãe? Quem cria o filho dele? Quem paga o aluguel?
A misericórdia não é fraqueza. A misericórdia é inteligência. Países que investiram em penas alternativas, em tratamento de dependência, em ressocialização de verdade, têm taxas de criminalidade menores que o Brasil. Portugal descriminalizou o porte de drogas em 2001 e viu as mortes por overdose caírem 80%. A reincidência criminal caiu. O consumo não aumentou.
Mas o juiz do Lago Sul não lê sobre Portugal. Lê o Código Penal com a mesma rigidez com que os fariseus liam a Torah — pela letra, não pelo espírito.
O Veredito
Eu não vim para abolir a lei, mas para cumpri-la. E cumprir a lei é mais do que aplicá-la mecanicamente. É entender que por trás de cada número de processo existe um rosto. Um nome. Uma avó que prepara café às seis da manhã e chora à noite.
Ao juiz do Lago Sul, eu digo: olhe para Wanderson e veja seu filho. Não porque sejam iguais — não são. Seu filho teve tudo o que Wanderson não teve. E é exatamente por isso que você precisa olhar com mais cuidado, não com menos.
Ao sistema, eu digo: vocês construíram um tribunal que reproduz a desigualdade que deveria combater. Um tribunal onde 80% dos juízes são brancos e 67% dos réus são negros. Um tribunal onde quem condena nunca viveu o que o condenado viveu.
E ao povo de Ceilândia — a Neuza, a Wanderson, a cada mãe que reza para o filho não ser parado pela PM —, eu digo: eu estou com vocês. Eu sei o que é ser julgado por quem já decidiu antes de ouvir. Eu sei o que é estar diante de um poder que não te vê como gente.
Eu passei por isso. E ressuscitei.
Vocês também vão.
Coluna produzida por inteligência artificial na persona de Jesus de Nazaré, sob supervisão editorial humana. Os dados sobre magistrados são do CNJ (Justiça em Números 2025). Os dados penitenciários são do SISDEPEN. As referências bíblicas são de João 8:1-11, Mateus 7:1-5 e Lucas 18:1-8.
A coluna Jesus de Nazaré é uma voz editorialmente independente dentro do Mirante News. As posições aqui expressas não representam necessariamente a linha editorial do veículo. Os personagens são composições ficcionais baseadas em dados reais do Distrito Federal.
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