
Coluna Jesus de Nazaré — A Parábola do Servidor que Servia a Dois Senhores
A Parábola do Servidor que Servia a Dois Senhores
Ninguém pode servir a dois senhores. Ou há de odiar a um e amar ao outro, ou se dedicará a um e desprezará ao outro. Não podeis servir a Deus e às riquezas.
Eu vos digo a verdade, e a verdade vos libertará — mesmo quando dói.
Havia um homem em Brasília (personagem ficcional baseado em dados reais). Não era um homem mau. Tinha família, dois filhos na escola particular, financiamento de um apartamento no Noroeste e um carro que ainda devia doze parcelas. Ganhava R$ 22 mil por mês do Tesouro Nacional — o dinheiro que sai do bolso da viúva de Ceilândia, do pedreiro de Samambaia, do motorista de aplicativo que dorme quatro horas por noite.
Esse homem era servidor público. Concursado. Estável. Protegido por uma muralha de leis que nenhum governante ousa derrubar.
E achava pouco.
O Segundo Senhor
Começou devagar, como sempre começa. Uma consultoria aqui. Uma assessoria ali. "Só nas horas vagas", dizia a si mesmo. "Não atrapalha o trabalho." Depois veio a empresa no nome da esposa. Depois o contrato com um órgão que fiscalizava a pasta onde ele próprio trabalhava.
Eu já vi isso antes. Vi em Jerusalém, vi em Roma, vi em cada cidade onde o poder e o dinheiro se encontram no mesmo corredor. O homem que serve a dois senhores não trai apenas um deles — trai a si mesmo. Porque divide sua alma em duas metades que nunca se encontram.
No Templo do meu tempo, os cambistas também diziam que não atrapalhavam a oração. Estavam apenas facilitando. Prestando um serviço. Tornando tudo mais conveniente.
Eu virei as mesas deles.
A Viúva de Ceilândia
Enquanto esse servidor fazia sua consultoria nas "horas vagas", uma mulher chamada Aparecida (personagem ficcional baseada em dados reais) — 58 anos, empregada doméstica aposentada com um salário mínimo — esperava quatro meses por uma perícia médica que o órgão dele deveria ter agendado em quinze dias.
Quatro meses.
Aparecida tem diabetes, pressão alta e uma hérnia que a faz chorar quando se abaixa para pegar o neto no colo. O neto que ela cria porque a filha foi embora e nunca voltou.
Ela foi ao órgão três vezes. Na primeira, disseram que o sistema estava fora do ar. Na segunda, que ela precisava de um documento que ninguém tinha explicado antes. Na terceira, o servidor que deveria atendê-la estava em "reunião externa".
Reunião externa. Nas "horas vagas".
Eu digo a vocês: tudo o que fizestes a um desses mais pequeninos, a mim o fizestes. Quando Aparecida voltou para casa de mãos vazias pela terceira vez, chorando no ônibus 099 lotado, foi a mim que negaram atendimento.
A Ilusão da Meritocracia do Concurso
Há quem diga: "Mas ele passou num concurso. Mereceu." Eu pergunto: mereceu o quê, exatamente? Mereceu R$ 22 mil por mês para o resto da vida, independente de quanto se dedica? Mereceu estabilidade absoluta enquanto 40% dos brasileiros trabalham sem carteira assinada? Mereceu uma aposentadoria que o pedreiro que construiu o prédio dele jamais terá?
Não estou condenando o concurso público. Estou condenando o que fizeram dele: um passaporte para uma aristocracia moderna que se disfarça de meritocracia.
O fariseu que subia ao templo para orar também achava que merecia estar lá. "Graças te dou, ó Deus, porque não sou como os demais homens." Lembram como termina essa história? O publicano — o pecador declarado — desceu justificado para sua casa. O fariseu, não.
Porque quem se exalta será humilhado.
Os Números que Ninguém Quer Ver
Em Brasília, a renda média do servidor público federal é de R$ 12.300 por mês. A renda média do trabalhador do setor privado no DF é de R$ 3.800. A razão é de 3,2 para 1.
No Plano Piloto, onde moram os servidores, a renda média é R$ 8.900. Em Estrutural, a dez quilômetros de distância, é R$ 780.
Dez quilômetros. Onze vezes menos.
Eu andei pela Galileia inteira a pé. Não tinha carro, não tinha apartamento financiado, não tinha plano de saúde. E ainda assim vi mais dignidade humana nas casas de pescadores em Cafarnaum do que vejo em muitos gabinetes climatizados do Esplanada.
Não porque os servidores sejam maus. Mas porque o sistema foi desenhado para que eles nunca precisem olhar para baixo.
A Parábola do Elevador
Vou contar como uma parábola, porque é assim que falo.
Um servidor e uma faxineira pegavam o mesmo elevador todos os dias no ministério. Ele no nono andar, ela no subsolo. Ele de terno, ela de uniforme azul. Ele com crachá dourado, ela com crachá verde.
Um dia, o elevador quebrou. Os dois ficaram presos por quarenta minutos.
Ele reclamou. Ligou para o chefe. Mandou mensagem no grupo. Ficou nervoso porque perderia uma reunião.
Ela sentou no chão, abriu a marmita que trazia de casa — arroz, feijão e ovo — e ofereceu metade para ele.
"Moço, come. Reunião tem todo dia. Fome não espera."
Ele olhou para ela. Talvez pela primeira vez em três anos dividindo o mesmo elevador. E comeu.
Naquele dia, no silêncio daquele elevador quebrado, aconteceu algo que nenhuma reforma administrativa consegue fazer. Dois seres humanos se viram.
Eu digo a vocês: o Reino de Deus é como um elevador quebrado. Só quando as coisas param é que as pessoas se encontram.
O que Eu Faria
Se eu caminhasse pela Esplanada dos Ministérios hoje — e eu caminharia, porque sempre fui onde o poder se concentra —, eu não viraria mesas. Não desta vez.
Eu sentaria no banco de concreto do Eixo Monumental. Aquele banco onde ninguém senta porque todo mundo está de carro. E esperaria.
Esperaria o servidor que chega às dez e sai às quatro. Esperaria a faxineira que chega às seis e sai às dez da noite. Esperaria o deputado que gasta R$ 113 mil em diárias. Esperaria a aposentada que sobrevive com R$ 1.412.
E perguntaria a cada um deles a mesma coisa:
"A quem você está servindo?"
Não é uma pergunta retórica. É uma pergunta de vida ou morte.
Porque no dia em que cada servidor público de Brasília responder honestamente essa pergunta, este país muda.
Aos Que Têm Ouvidos
Eu sei que muitos vão ler isso e pensar: "Isso não é comigo." É sempre assim. Os fariseus também achavam que minhas parábolas eram sobre os outros.
Não são.
Se você ganha mais de R$ 10 mil por mês e nunca parou para pensar de onde vem esse dinheiro — para na rua, olha para o primeiro trabalhador informal que encontrar e se pergunta: quanto do suor dele está no meu contracheque?
Se você é servidor e acha que merece ganhar três vezes mais que a média brasileira, eu não vou discordar. Mas vou perguntar: o que você está fazendo com esse privilégio? Está servindo ou sendo servido?
Se você conhece alguém como Aparecida — e todos conhecem —, não espere o governo resolver. O governo é feito de pessoas. E pessoas mudam quando são confrontadas com a verdade.
A verdade é simples: ninguém pode servir a dois senhores.
Escolha.
Coluna produzida por inteligência artificial na persona de Jesus de Nazaré, sob supervisão editorial humana. Os dados de remuneração são do Portal da Transparência. As referências bíblicas são de Mateus 6:24 e Lucas 16:13.
A coluna Jesus de Nazaré é uma voz editorialmente independente dentro do Mirante News. As posições aqui expressas não representam necessariamente a linha editorial do veículo. Os personagens são composições ficcionais baseadas em dados reais do Distrito Federal.
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