
Caricatura de costumes do século XIX revisitada para a Brasília de 2026. A conversão pública é uma forma muito antiga de teatro político, e o cronista observa a estreia da temporada com a paciência de quem já viu a peça.
Daquele homem que descobriu a humildade dois dias antes da posse
Vi, há poucos dias, na televisão da sala de jantar, um homem chorar. Não era um homem qualquer. Era um homem público, daqueles cujo nome a coluna evita por delicadeza, e cuja altivez, ao longo dos últimos quinze ou vinte anos, se tornou parte do mobiliário urbano desta capital — como o eixo monumental, como a estátua dos candangos, como aquele relógio do aeroporto que ninguém sabe se funciona ou apenas finge.
Pois esse homem, leitor amigo, esse mesmo homem, apareceu choroso. Era humilde. Era contrito. Pediu perdão a vagas entidades — ao povo brasileiro, à juventude, aos mais carentes, à própria família. Confessou erros que, segundo ele, foram sempre erros do passado. Disse-se transformado por uma experiência interior recente, cujo conteúdo exato não detalhou. E concluiu o monólogo com uma frase dessas que se gravam na memória do telespectador médio: agora, dizia ele, é tempo de escutar.
Ora, ora.
A coincidência singular, e que talvez tenha escapado ao redator do rodapé, é que essa cena televisiva foi gravada numa quarta-feira, e na sexta-feira seguinte o homem em questão tomava posse de cargo importantíssimo, conferido por aliados políticos depois de longa negociação cujos detalhes a coluna, por modéstia, prefere não recapitular.
Quarenta e oito horas. Foi o tempo, segundo entendi, entre a confissão pública e a coroação oficial.
Do calendário das almas
Há uma cronologia que os santos antigos respeitavam e que parece ter sido abandonada pelos homens públicos contemporâneos.
A conversão verdadeira, segundo os tratados medievais que li em outras vidas, segue mais ou menos um curso assim: primeiro vem a inquietação, depois a dúvida, depois a leitura, depois o recolhimento, depois a vergonha, depois o ato corretivo, depois a reparação concreta dos danos, depois — só depois — a exposição pública, e mesmo essa, quando ocorre, ocorre por imposição alheia, não por iniciativa do convertido.
O processo todo costumava levar anos. Em alguns casos, décadas. Santo Agostinho, por exemplo, levou cerca de quinze anos entre o primeiro espasmo de inquietação interior e a publicação das Confissões — e nesse intervalo ele não tomou posse de cargo nenhum, antes pelo contrário, recolheu-se ao isolamento e recusou diversas honrarias eclesiásticas que lhe foram oferecidas.
O homem público brasileiro contemporâneo, leitor amigo, opera em outra escala temporal. Ele consegue espremer o ciclo agostiniano em pouco menos de quarenta e oito horas, encaixando inquietação, vergonha, ato corretivo e exposição pública num único pronunciamento televisivo de sete minutos. Há quem ache isso uma virtude da vida moderna, um sinal de eficiência espiritual, um aproveitamento racional do tempo. Eu, por teimosia de velho cronista que viu muitas coisas semelhantes em outros séculos, suspeito de outra coisa.
Suspeito que a velocidade do processo é o sinal mais seguro de que ele não aconteceu.
De como a contrição se reconhece
Há, no fundo da alma humana, um traço pequeno que distingue a contrição verdadeira da contrição cênica, e esse traço — talvez por ser pequeno — escapa ao espectador apressado.
A contrição verdadeira não inventa palavra nova. Usa a palavra velha. Aquela que machuca por ser a de sempre. O homem que se arrepende de fato fala de coisas concretas: nomes, datas, quantias, atos específicos, danos pelo nome. E pede perdão a pessoas concretas: aquele a quem prejudicou, aquela a quem caluniou, aquele cujo nome riscou da agenda quando deixou de ser útil.
A contrição cênica, ao contrário, é abstrata por construção. Pede perdão ao "povo brasileiro", à "juventude", aos "mais carentes" — entidades vastas o bastante para que o pedido caiba em qualquer um e em ninguém ao mesmo tempo. Não nomeia o que fez. Não detalha o que pretende corrigir. Não devolve o que pegou de errado. Apenas se declara um homem novo, e exige, em troca dessa autodeclaração, que o público creia.
O leitor amigo há de notar que a primeira forma de contrição é custosa e a segunda é grátis. Onde a primeira pede que o arrependido pague algo concreto para provar o arrependimento, a segunda pede que o público pague — pague em forma de credibilidade renovada, pague em forma de votos, pague em forma de tolerância para o que vier depois.
A contrição grátis, leitor, é como o almoço grátis: alguém sempre paga, e quase nunca é quem está sentado à mesa.
Da posse que veio depois
Voltemos ao homem da cena televisiva. O homem que chorou na quarta e tomou posse na sexta.
A posse foi solene, como costumam ser as posses brasileiras. Hino nacional, banda da polícia, parentes na primeira fila, adversários derrotados na segunda, jornalistas filmando a quarta. O homem subiu ao púlpito, fez o juramento de praxe, prometeu defender a Constituição, prometeu servir ao interesse público, prometeu uma série de coisas que constam num roteiro que circula entre as cerimônias de posse há cerca de duzentos anos sem alterações de fundo.
E aqui, leitor amigo, vem a parte que me interessa. Em nenhum momento do discurso de posse, em nenhuma única frase, o homem fez menção à confissão pública que tinha feito quarenta e oito horas antes. Não retomou o tema. Não recordou os erros que acabara de admitir. Não disse: vou começar este mandato diferente porque sou um homem novo desde quarta-feira. Nada.
O discurso de posse podia ser de qualquer outro homem público do mesmo tipo, em qualquer outra cerimônia equivalente, em qualquer outra década. Era genérico como os bilhetes de loteria.
E foi aí, leitor, que a peça inteira se desmontou para mim. Porque se a conversão da quarta-feira fosse real, ela teria necessariamente atravessado o discurso de sexta-feira. Não dava para ignorá-la. Quem se transformou interiormente carrega essa transformação para tudo o que faz nos dias seguintes — não consegue tirá-la da fala, dos gestos, das escolhas. A transformação interior é, por natureza, contagiosa para o que o convertido faz logo depois.
A transformação cênica, ao contrário, fica circunscrita ao estúdio onde foi gravada. Não atravessa para o resto da vida porque não tem onde se prender. É um número artístico fechado em si mesmo.
Um parêntese, desses que o leitor me perdoa
Permita-me, leitor amigo, uma pequena digressão antes do fecho.
Pensei muitas vezes em escrever um manual breve sobre como distinguir o convertido verdadeiro do encenado, para uso dos jovens jornalistas brasileiros. Cheguei a esboçar um sumário. Tinha capítulos sobre vocabulário, sobre tempo, sobre nomes específicos, sobre custo concreto pago, sobre comportamento na semana seguinte. Era um manualzinho útil, achei.
Acabei desistindo do projeto. Não por preguiça, mas porque entendi, a meio caminho, que o leitor que precisa do manual provavelmente não terá paciência para lê-lo, e o leitor que teria paciência já dispensa o manual. Dos manuais sobre hipocrisia política, leitor, costumam aproveitar-se mais os hipócritas do que as suas vítimas — porque os hipócritas o estudam para refinar a técnica, enquanto as vítimas seguem sendo enganadas com surpresa renovada a cada novo episódio.
Fim do parêntese.
Do que sobra para o cronista
Concluo, e concluo com o gesto pequeno que costuma fechar estas notas semanais.
Aprendi, ao longo de muitos séculos de observação dos homens públicos, que a humildade tem um calendário próprio. Ela não combina bem com vésperas de posse, com calendários eleitorais, com janelas de denúncia, com vencimentos de prazo. Ela costuma aparecer fora do horário esperado — no homem que se afasta sem explicar por quê, na mulher que recusa o cargo oferecido sem fazer drama, no servidor que devolve um documento sem cobrar crédito por isso.
Essa humildade não vai à televisão. Não tem assessor. Não recebe convite para entrevista. E é, exatamente por isso, a única que se reconhece como real.
A outra, a que aparece de quarta-feira para tomar posse na sexta, eu fiquei tantas vezes vendo, em tantas vidas, que já a identifico no primeiro plano, antes mesmo do choro começar.
Tenho pena. Mas, leitor amigo, não tanta pena assim — porque a encenação é voluntária, e quem encena escolhe encenar.
Até a próxima coluna, se a televisão e o jornal assim permitirem.
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