
Pátio do Centro de Ensino Fundamental 104 do Recanto das Emas, durante o recreio das 10h. A escola atende 612 alunos em jornada integral desde 2024.
O recreio de sete horas: como as escolas de tempo integral do DF mudaram a rotina de 60 mil crianças
Antes de soar o sinal das sete da manhã, Yasmin já está na fila do refeitório com a bandeja na mão. Tem oito anos, mora a quinze minutos da escola e só vai pegar o ônibus de volta às quatro e meia da tarde. No meio do caminho, são quase nove horas dentro do prédio: aula, almoço, recreio, reforço, mais aula, mais recreio, atividade complementar e uma última oração coletiva. A jornada é longa para uma criança. Mas Yasmin, perguntada se gosta, responde sem hesitar: 'gosto, porque aqui tem comida quente e tem amigo'.
O recreio de sete horas: como as escolas de tempo integral do DF mudaram a rotina de 60 mil crianças
A jornada se chama "tempo integral", mas o nome esconde a verdade do dia. Não é só mais aula.
É mais comida, mais convivência, mais chão de pátio, mais paciência da professora e, em alguns casos, mais futuro. As escolas de jornada estendida do Distrito Federal atendem hoje cerca de 60 mil crianças e adolescentes, entre Educação Infantil, Ensino Fundamental e Ensino Médio — número quase três vezes maior que o registrado em 2022.
A reportagem do Mirante passou uma manhã inteira no Centro de Ensino Fundamental 104 do Recanto das Emas, uma das 187 unidades que oferecem o modelo na rede pública.
A primeira coisa que se nota ao entrar é o cheiro. Não é o cheiro de escola que se conhece dos anos noventa, com tinta velha e merenda aguada.
É o cheiro de pão de queijo recém-assado, vindo de uma cozinha industrial reformada em 2023, que serve dois mil e quatrocentas refeições por dia em quatro turnos: café da manhã, lanche da manhã, almoço e lanche da tarde. As crianças comem em mesas compridas, supervisionadas por monitoras de cozinha que sabem o nome de quase todos.
A primeira hora
Às 7h15, a primeira aula é de matemática. A turma é do quarto ano, vinte e oito alunos, professora Leila Bezerra, 41 anos, formada pela Universidade Católica de Brasília, na rede há dezesseis anos.
Ela divide o quadro em três colunas — fácil, médio, desafio — e deixa cada aluno escolher por onde começar. "Não posso fingir que todo mundo está no mesmo lugar.
Eles não estão. E ficar fingindo é o que afundou a escola pública por décadas."
Leila trabalhava antes em uma escola de meio período no Riacho Fundo II. Pediu transferência em 2024 quando soube da expansão do modelo integral.
"Em meio período, eu tinha cinquenta minutos com cada turma. Não dá para alfabetizar criança em cinquenta minutos.
Aqui, eu fico com a mesma turma de manhã e à tarde. A gente se conhece.
Eu sei quando o Caio não almoçou direito, quando a Lara está triste. Isso muda tudo."
O que diz o IDEB
O Índice de Desenvolvimento da Educação Básica, divulgado pelo INEP em ciclos de dois anos, é o termômetro mais usado para medir aprendizagem no país. No último ciclo, divulgado em setembro de 2025, a rede pública do Distrito Federal registrou 5,9 nos anos iniciais do Ensino Fundamental — acima da média nacional de 5,2 e a segunda melhor entre as capitais.
Nos anos finais, foram 4,8, contra 4,5 da média Brasil.
O dado mais relevante, no entanto, está no recorte por modelo de jornada. As escolas de tempo integral do DF tiveram, em média, IDEB 0,7 ponto acima das escolas de meio período da mesma região administrativa.
A diferença é maior nas regiões periféricas — Recanto das Emas, Itapoã, Estrutural —, onde a jornada estendida vem associada a programas de reforço, atividades artísticas e acompanhamento psicológico.
| Região | IDEB integral (anos iniciais) | IDEB meio período (anos iniciais) | |--------|-------------------------------|-----------------------------------| | Plano Piloto | 6,9 | 6,7 | | Taguatinga | 6,1 | 5,8 | | Ceilândia | 5,8 | 5,2 | | Recanto das Emas | 5,7 | 4,9 | | Estrutural | 5,3 | 4,4 |
A leitura técnica do dado, segundo o pesquisador em educação Pedro Holanda, da Universidade de Brasília, é que o tempo integral não funciona pelo simples acréscimo de horas. "Hora a mais sem projeto é hora a mais de tédio.
O que muda é o conjunto: alimentação, acompanhamento individualizado, vínculo com o professor, oferta de atividades que a família não tem condições de pagar. É um pacote, não um relógio."
O recreio que dura uma vida
O segundo recreio do dia, às 10h, é o mais longo: trinta minutos. As crianças se espalham pelo pátio coberto.
Algumas jogam queimada. Outras desenham com giz no chão.
Um grupo de sete meninos de oito ou nove anos disputa um campeonato improvisado de rouba-bandeira. Em um canto, perto de um vaso de samambaia, três meninas leem um livro juntas.
É uma cena banal, e talvez seja exatamente esse o ponto.
A monitora de pátio, Gilcinéia Souza, 52 anos, está há onze anos na rede. Ela observa o movimento sem intervir, exceto quando alguém cai ou chora.
"Antes a gente tinha quinze minutos de recreio. Não dava nem para terminar de comer o lanche.
Agora dá tempo da criança ser criança. E criança que é criança aprende melhor."
A frase soa intuitiva, mas tem suporte na literatura. Estudos do Centro de Estudos Mente, Cérebro e Educação da Universidade de Harvard, replicados em escolas brasileiras pelo Centro de Políticas Públicas e Avaliação da Educação da UFJF, mostram que crianças que têm pelo menos vinte minutos contínuos de brincadeira livre por turno apresentam ganho mensurável em atenção sustentada nas duas horas seguintes de aula.
O recreio não é pausa do aprendizado: é parte dele.
Os desafios que ninguém mostra na foto
O modelo não é unanimidade. A reportagem ouviu também a pedagoga Renata Vilas Boas, 39 anos, professora de português dos anos finais, que vê problemas.
"A gente pede demais das crianças. Nove horas dentro de uma escola é muito tempo para qualquer pessoa.
Tem aluno que chega exausto na quarta aula. Tem aluno que não tem espaço em casa nem para fazer dever, então a escola virou casa também.
E nem toda escola tem estrutura para ser casa."
A reclamação de Renata aparece em um relatório interno da Secretaria de Educação ao qual o Mirante teve acesso: 23% das escolas integrais do DF ainda funcionam em prédios projetados para meio período, com banheiros insuficientes, refeitórios apertados e quadras descobertas. A expansão correu na frente da reforma.
A secretaria reconhece o problema e diz ter previsto, no orçamento de 2026, a reforma de 42 unidades, com previsão de entrega até 2027.
Há também a questão dos professores. A jornada ampliada exige dedicação exclusiva, e a carreira ainda paga, na média, abaixo do que a Constituição Federal estabelece como piso quando se considera a hora-aula efetivamente trabalhada.
O concurso público de 2025 abriu 2.100 vagas, mas 380 cargos seguem sem preenchimento.
A última hora
Às 16h25, Yasmin pega a mochila, diz tchau para a professora Leila, beija a Gilcinéia no rosto e entra na fila do ônibus escolar. Daqui a quinze minutos vai estar em casa, em uma rua de chão batido do Recanto das Emas, onde mora com a mãe — auxiliar de limpeza em uma clínica particular do Sudoeste — e um irmão de cinco anos.
A mãe ainda está no trabalho. Yasmin vai entrar sozinha, esquentar uma sopa, ligar a televisão e esperar.
A escola, para ela, é um lugar onde tem comida quente e tem amigo. Pode parecer pouco, à primeira vista.
Mas nove horas por dia, durante 200 dias letivos, durante nove anos de Ensino Fundamental, totalizam 16.200 horas. É mais tempo do que ela passará dormindo no mesmo período.
É a maior fração de infância que Yasmin terá. E a única, talvez, em que alguém vai medir, ano após ano, se ela está aprendendo a ler, a somar e a confiar — e vai colocar isso em uma planilha que, com sorte, ninguém precisará abrir para comprovar que a escola pública pode, sim, dar certo.
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