
Pátio da Escola Parque 303/304 Sul durante aula de artes visuais. Foto: Secretaria de Educação do DF/Divulgação.
As escolas parque de Brasília completam 60 anos — o conceito que o mundo copiou
Há uma árvore no pátio da Escola Parque 307/308 Sul que tem quase a mesma idade do prédio. Mangueira antiga, tronco grosso, sombra que cobre metade da quadra poliesportiva. Debaixo dela, crianças da rede pública do Distrito Federal aprendem música, teatro, artes visuais e educação física há exatos 60 anos. O modelo foi inventado por Anísio Teixeira, implementado em Brasília e depois copiado por educadores de Portugal, Finlândia e Colômbia.
Há uma árvore no pátio da Escola Parque 307/308 Sul que tem quase a mesma idade do prédio. É uma mangueira antiga, de tronco grosso, cuja sombra cobre metade da quadra poliesportiva.
Debaixo dela, crianças da rede pública do Distrito Federal aprendem música, teatro, artes visuais e educação física há exatos 60 anos. A escola foi inaugurada em março de 1966 e é a terceira mais antiga das cinco escolas parque originais do Plano Piloto.
O modelo que ali funciona foi inventado por Anísio Teixeira, implementado em Brasília pela primeira vez em escala de rede pública e depois copiado por educadores de Portugal, Finlândia e Colômbia.
Um sonho com planta baixa
Quando Anísio Teixeira começou a desenhar a rede de ensino de Brasília, ainda em 1957, ele já vinha de uma experiência frustrada na Bahia. Lá, nos anos 1950, tinha criado o Centro Educacional Carneiro Ribeiro, no bairro da Liberdade, em Salvador — uma escola classe ligada a uma escola parque onde as crianças passavam oito horas por dia.
Metade do tempo em disciplinas tradicionais. Metade do tempo em oficinas, esportes, artes e leitura livre.
A proposta era ambiciosa e frontalmente oposta ao modelo de turno único que dominava o país. Anísio defendia que a educação integral — expressão que hoje virou jargão, mas em 1950 soava quase utópica — era a única forma de cumprir a promessa republicana de igualdade.
Criança pobre precisava de tanto tempo de escola quanto criança rica tinha em casa. E precisava, sobretudo, de arte, esporte e convívio.
Em Brasília, pela primeira vez, Anísio teve mão livre. Desenhou a rede junto com Lucio Costa e Oscar Niemeyer.
A lógica era simples: para cada quatro escolas classe — os prédios menores, de ensino tradicional — haveria uma escola parque, maior, no centro da superquadra, equipada com piscina, auditório, biblioteca, ateliê de artes, sala de música, quadras cobertas e horta. A criança estudava português e matemática na escola classe pela manhã e caminhava até a escola parque à tarde.
Ou vice-versa.
O primeiro prédio foi inaugurado em 1960, na 308 Sul. Nos cinco anos seguintes, outras quatro abriram.
A 307/308 Sul, a 303/304 Sul, a 210/211 Sul e a 210/211 Norte. Depois vieram mais.
Hoje são 41 escolas parque em todo o Distrito Federal, atendendo cerca de 22 mil estudantes da rede pública em contraturno.
O que se aprende ali dentro
Num dia comum de terça-feira, a reportagem acompanha a rotina da Escola Parque 307/308 Sul. Às 7h30, o portão abre.
As primeiras crianças chegam andando, acompanhadas por professores da escola classe vizinha que as trouxeram em fila. São estudantes do 3º e 4º ano do ensino fundamental.
Vão passar quatro horas e meia ali dentro.
A grade do turno é montada em blocos. Cada turma roda por quatro oficinas ao longo da semana: artes visuais, música, teatro e educação física.
A oficina de artes visuais da 307/308 tem 32 cavaletes, potes de tinta guache, argila, papel craft e uma parede coberta de desenhos das turmas anteriores. A professora, Ana Paula Moreira, formada em artes plásticas pela UnB, dá aula ali há 14 anos.
"Tem aluno meu que hoje é arquiteto, cenógrafo, professor. A gente encontra no Mercado Municipal e eles lembram do cheiro da tinta."
A sala de música tem um piano vertical Fritz Dobbert, doado em 1978, ainda em uso. Dezesseis flautas doces, quatro violões, dois teclados e uma bateria eletrônica.
A oficina de teatro funciona num auditório de 180 lugares, projetado por Oscar Niemeyer, com palco italiano, cortina vermelha e coxia.
A educação física ocupa três quadras cobertas, uma piscina semiolímpica e um campo de areia. Durante a reportagem, uma turma do 5º ano está aprendendo a nadar.
Metade das crianças nunca tinha entrado numa piscina antes.
Os números de seis décadas
| Indicador | 1966 | 1986 | 2006 | 2026 | |---|---|---|---|---| | Escolas parque no DF | 5 | 12 | 27 | 41 | | Estudantes atendidos | ~2.800 | ~7.100 | ~14.500 | ~22.000 | | Professores especialistas | 48 | 180 | 412 | 736 | | Piscinas em operação | 5 | 10 | 19 | 28 | | Horas semanais de arte por aluno | 10 | 8 | 6 | 5 |
A rede cresceu em número, mas perdeu densidade de horas. Em 1966, cada criança tinha dez horas semanais só de atividades artísticas.
Em 2026, tem cinco. A queda se deve a um conjunto de fatores: o aumento da demanda, a necessidade de ampliar o número de turmas atendidas por escola, o corte de recursos para reposição de professores especialistas, a reorganização curricular da Base Nacional Comum.
Ainda assim, nenhuma rede pública brasileira oferece algo parecido. O programa federal Mais Educação, criado em 2007 e depois renomeado Escola em Tempo Integral, tentou replicar a lógica em cidades como Salvador, Belo Horizonte, Recife e São Paulo.
Chegou a funcionar em algumas centenas de escolas. Mas nunca com a infraestrutura das escolas parque do DF — porque as outras cidades não tinham os prédios.
Os que vieram de longe para ver
A lista de visitantes internacionais oficiais registrada pela Secretaria de Educação é extensa. Em 1987, uma missão da Universidade de Lisboa passou duas semanas na 308 Sul estudando o modelo.
O resultado foi a criação, em 1988, das escolas a tempo inteiro em Portugal, hoje regra em todo o sistema público português.
Em 1996, uma delegação da Finlândia esteve em Brasília. Os finlandeses vieram ver justamente a integração entre escola classe e escola parque, e voltaram para Helsinque com um conceito que, adaptado, virou parte do modelo de phenomenon-based learning que hoje é referência mundial.
Em 2011, educadores de Bogotá visitaram Brasília três vezes durante o projeto Jornada Única, que acabou implementado em mais de 400 escolas colombianas. O chefe da missão, Sergio Fajardo, declarou na época que "o que vimos em Brasília foi o futuro da educação pública da América Latina funcionando há 45 anos".
A Unesco publicou em 2016 um documento de referência intitulado Integral Education: Lessons from Brasília's Parque Schools, distribuído em seis idiomas. O texto é até hoje usado como leitura obrigatória em cursos de gestão educacional de várias universidades estrangeiras.
O estado dos prédios
A reportagem percorre cinco escolas parque da Asa Sul e da Asa Norte e encontra o que qualquer professor da rede descreve sem constrangimento: prédios maravilhosos e tinta descascada. Os telhados originais de Niemeyer, com as famosas coberturas curvas, vazam em pelo menos três das cinco visitadas.
Os banheiros foram reformados pela última vez em 2019. A piscina da 303/304 Sul está fechada há oito meses aguardando conserto da bomba de filtragem.
A diretora da 307/308 Sul, Maria Lúcia Fernandes, está no cargo desde 2022 e conhece a rotina do improviso. "A gente compra tinta com a cota do caixa escolar.
Pai de aluno vem ajudar a pintar a sala de música no sábado. A escola parque é patrimônio do DF, mas no dia a dia quem sustenta somos nós e as famílias."
A Secretaria de Educação confirma que há um programa de restauração das escolas parque tombadas pelo Iphan previsto para 2026, com orçamento de R$ 47 milhões para as primeiras 12 unidades do Plano Piloto. O edital foi publicado em fevereiro.
Nenhuma obra começou até o fechamento desta reportagem.
O que sobrou do sonho
Anísio Teixeira morreu em 1971, sem ver o conjunto inteiro funcionando. Lucio Costa viveu até 1998, tempo suficiente para visitar várias escolas parque já em operação.
Niemeyer, que morreu em 2012, costumava dizer que as escolas parque eram, junto com a Catedral, a obra mais importante que projetou em Brasília.
Seis décadas depois, o modelo continua de pé. Não é o que era.
Não é o que poderia ser. Mas é ainda, por larga margem, a experiência mais bem-sucedida de educação integral pública que o Brasil já teve.
E a única, no mundo, que foi pensada junto com a cidade, em pranchetas que desenharam ruas, quadras e escolas ao mesmo tempo.
No fim da tarde da terça-feira da reportagem, a última turma sai da 307/308. As crianças atravessam o gramado correndo até o portão.
A mangueira antiga continua ali, imensa, cheia de fruta que ninguém colhe porque a escola não pode dar sem laudo sanitário. Mas a sombra é pública.
E é grátis. E é exatamente o que Anísio Teixeira, em 1957, queria que fosse.
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