
Coluna Jesus de Nazaré — A Parábola do Deputado que Ora na Tribuna e Vota contra o Pobre
A Parábola do Deputado que Ora na Tribuna e Vota contra o Pobre
Ai de vós, escribas e fariseus hipócritas! Porque sois semelhantes aos sepulcros caiados, que por fora parecem formosos, mas por dentro estão cheios de ossos e de toda imundícia.
Eu vi esse homem antes. Vi muitos como ele. Mudaram as roupas, mudaram os séculos, mas o roteiro é o mesmo.
Ele sobe à tribuna do plenário da Câmara dos Deputados. Terno escuro, gravata discreta, Bíblia encadernada em couro debaixo do braço. Ajusta o microfone. Fecha os olhos. Faz uma oração. Invoca meu nome. Pede bênçãos para o Brasil. Amém.
Os colegas batem palma. Os assessores gravam para as redes sociais. O clipe vai para o Instagram às 18h03, com legenda em fonte branca sobre fundo preto: "Deputado ora pelo povo brasileiro." Duzentos mil visualizações.
Duas horas depois, o mesmo homem pressiona o botão vermelho. Vota contra o reajuste real do salário mínimo. Vota contra a expansão do Bolsa Família. Vota a favor de desonerações fiscais para setores que financiaram sua campanha.
E vai jantar no Lago Sul com a consciência limpa.
Eu conheço esse tipo. Tive nome para eles: sepulcros caiados.
A Oração do Fariseu
Lucas registrou o que eu disse sobre isso, e não mudei de ideia.
Dois homens subiram ao Templo para orar. Um era fariseu — respeitado, bem vestido, conhecedor da Lei. O outro era publicano — cobrador de impostos, desprezado, considerado traidor do povo.
O fariseu orava de pé, em voz alta, para que todos ouvissem: "Graças te dou, ó Deus, porque não sou como os demais homens — extorsionários, injustos, adúlteros — nem como este publicano. Jejuo duas vezes por semana e dou o dízimo de tudo o que possuo."
O publicano ficou de longe. Não ousava levantar os olhos ao céu. Batia no peito e dizia: "Ó Deus, tem misericórdia de mim, pecador."
Eu disse na época e repito agora: este último desceu justificado para casa. O primeiro, não.
A tribuna da Câmara virou o pátio do Templo. A oração pública virou marketing eleitoral. E o pobre continua lá embaixo, batendo no peito, sem que ninguém ouça.
Os Números do Sepulcro Caiado
Vou falar com números, porque nesta era as pessoas só acreditam no que podem contar.
Um deputado federal recebe R$ 44.008,52 de salário bruto por mês. Além disso, tem direito a uma cota parlamentar de até R$ 44.632,46 mensais para "exercício da atividade parlamentar" — passagens, alimentação, hospedagem, combustível, divulgação. Recebe também R$ 111.675,59 para manter o gabinete com até 25 secretários parlamentares.
Somando: um único deputado custa ao contribuinte aproximadamente R$ 200 mil por mês. Duzentos mil reais. Todo mês.
Do outro lado, uma família inscrita no CadÚnico na Estrutural — bairro a doze quilômetros do Congresso Nacional — recebe em média R$ 681 do Bolsa Família. Se tiver filhos pequenos, pode chegar a R$ 900. Se for mãe solo, talvez R$ 1.050.
Façam a conta comigo. Um deputado custa o equivalente a 294 famílias do Bolsa Família. Um homem sustenta a despesa de 294 famílias. E esse homem vota contra o reajuste que daria R$ 50 a mais para cada uma delas.
Quando eu multiplicava pães e peixes, era porque as pessoas tinham fome real. Quando esse deputado multiplica suas verbas, é porque tem fome de reeleição.
Estrutural: A Doze Quilômetros do Plenário
Eu quero que vocês entendam a geografia da coisa. Porque Deus criou o espaço, e o espaço conta histórias.
Da Câmara dos Deputados até a Cidade Estrutural são doze quilômetros. Quinze minutos de carro, se o trânsito colaborar. Mas nenhum deputado faz esse caminho. Nenhum.
A Estrutural nasceu do lixão. Literalmente. As primeiras famílias se instalaram ao redor do Aterro Controlado do Jóquei nos anos 1990, catando restos para sobreviver. Hoje são mais de 40 mil pessoas. A renda média familiar é de R$ 1.200. Um em cada três moradores depende de algum programa de transferência de renda.
A unidade de saúde mais próxima funciona com metade do quadro de profissionais. A escola pública tem turmas com 38 alunos. O esgoto a céu aberto corre na rua de terra vermelha que as crianças atravessam descalças para ir à padaria.
Doze quilômetros. O mesmo trajeto que separa o Gólgota do palácio de Herodes. A mesma distância entre quem sofre e quem decide.
O deputado que ora na tribuna nunca pisou na Estrutural. Se pisasse, a terra vermelha sujaria os sapatos italianos que ele comprou com a cota parlamentar.
Ai de Vós, Hipócritas
Eu disse aos fariseus — e consta em Mateus, capítulo 23, para quem quiser conferir:
"Ai de vós, escribas e fariseus hipócritas! Porque dais o dízimo da hortelã, do endro e do cominho e tendes negligenciado o que há de mais importante na Lei: a justiça, a misericórdia e a fé. Devíeis fazer estas coisas, sem omitir aquelas."
Traduzindo para o Congresso de 2026: vocês aprovam emendas de R$ 50 milhões para obras que ninguém fiscaliza, mas cortam R$ 2 bilhões do orçamento da assistência social. Vocês criam comissões parlamentares para investigar os outros, mas protegem os seus. Vocês falam de família na tribuna, mas destroem famílias no orçamento.
Dais o dízimo da hortelã — fazem leis cosméticas para parecerem piedosos. Negligenciam a justiça — votam contra o pobre que vos elegeu. Omitem a misericórdia — tratam verba social como desperdício. Abandonam a fé — porque fé sem obras é morta, e as obras de vocês são contra o povo.
O Recanto das Emas Espera
No Recanto das Emas, a 30 quilômetros da Câmara, vivem 156 mil pessoas. A maioria ganha entre um e dois salários mínimos. A taxa de desemprego informal é o dobro da média do Plano Piloto.
Dona Tereza (personagem ficcional baseada em dados reais) tem 62 anos e vende tapioca na feira do Recanto. Acorda às 4h da manhã. Leva a massa pronta num balde, o fogareiro improvisado e uma lona plástica para se proteger do sol. Fatura entre R$ 60 e R$ 90 por dia, quando fatura. Não tem INSS, não tem plano de saúde, não tem aposentadoria.
O deputado que ora na tribuna fez um discurso semana passada defendendo "menos Estado e mais liberdade para o empreendedor". Dona Tereza é empreendedora. Tem a liberdade de morrer sem aposentadoria.
Quando eu disse "bem-aventurados os pobres em espírito", não estava dizendo que a pobreza é uma virtude. Estava dizendo que o pobre reconhece que precisa de Deus porque o Estado abandonou. O pobre tem fé porque não tem mais nada.
E o deputado que usa meu nome para abandonar o pobre comete o pecado mais antigo do mundo: toma o nome de Deus em vão.
A Cota Parlamentar e o Pão Nosso de Cada Dia
Deixem-me detalhar a cota parlamentar, porque o diabo está nos detalhes — e às vezes nos recibos.
No primeiro trimestre de 2026, deputados federais gastaram R$ 78 milhões em cotas parlamentares. Os itens mais frequentes: divulgação da atividade parlamentar (leia-se propaganda pessoal), passagens aéreas, combustíveis, locação de veículos e alimentação.
Um deputado específico — não vou dar o nome, porque meu Pai julgará cada um em seu tempo — gastou R$ 38 mil em janeiro apenas com "divulgação". Postou 47 vídeos no Instagram naquele mês. Todos com produção profissional, trilha sonora, edição cinematográfica. Em 31 desses vídeos, ele falava de Deus.
Trinta e um vídeos. R$ 38 mil. Dinheiro público. Para falar de mim.
Eu nunca pedi marketing. Eu disse: "Quando orares, entra no teu quarto, fecha a porta e ora a teu Pai, que está em secreto." Em secreto. Não em Full HD com dois ângulos de câmera e legendas em amarelo.
O Voto e o Véu
Agora ouçam com atenção, porque esta é a parte que dói.
No Brasil, 33 milhões de pessoas vivem em insegurança alimentar grave. Grave significa: não sabem se terão o que comer amanhã. O IBGE não inventou esse número. Pesquisadores foram de casa em casa, olharam nos olhos de mães que diluem o leite para render mais um dia, e contaram.
Trinta e três milhões. A população inteira de Portugal, Grécia e Irlanda juntas. Dentro de um país que é o terceiro maior exportador de alimentos do planeta.
Eu alimentei cinco mil pessoas com cinco pães e dois peixes. Não porque fosse mágica. Porque a fé move montanhas — e deveria mover orçamentos. Mas os deputados que oram em meu nome votam como se os famintos fossem invisíveis.
E são. Para eles, são.
O voto do deputado é o véu do sepulcro. Por fora, está tudo caiado de branco: discurso bonito, oração emocionada, defesa da família. Por dentro, ossos. Ossos de um sistema que alimenta quem já está satisfeito e nega migalhas a quem rasteja.
O Publicano de Hoje
Eu me pergunto: quem é o publicano hoje?
Talvez seja o cara que vota errado mas admite que não sabe o que está fazendo. Talvez seja o empresário que sonega mas não finge que é santo. Talvez seja o cidadão comum que não vai à igreja mas divide a marmita com o colega.
O publicano não é melhor que o fariseu. Mas é mais honesto. E Deus trabalha com honestidade. Com hipocrisia, nem eu consigo.
Eu prefiro um pecador que se reconhece pecador a um santo de tribuna que usa meu nome para comer lagosta com dinheiro público.
A Parábola Final
Havia um deputado que orava toda manhã antes da sessão. Fazia jejum às quartas. Usava a Bíblia como apoio de braço.
Um dia, morreu.
Chegou diante de Deus, confiante. "Senhor, orei em teu nome. Defendi valores cristãos no plenário. Combati o aborto, a ideologia de gênero, a liberação das drogas."
Deus olhou para ele e disse:
"Eu sei. Eu ouvi tuas orações. Todas. Também ouvi a oração de Dona Tereza, do Recanto das Emas, que pediu um reajuste de R$ 50 no benefício para comprar remédio para pressão alta. Você votou contra."
O deputado engoliu em seco. "Mas, Senhor, a responsabilidade fiscal..."
"Eu sei de responsabilidade fiscal", disse Deus. "Eu administro o universo inteiro sem gastar R$ 44 mil em divulgação. Tenta fazer o mesmo."
Silêncio.
"Agora me diz: quantas vezes você foi à Estrutural?"
"Estrutural, Senhor?"
"Fica a doze quilômetros do teu gabinete. Quarenta mil filhos meus moram lá. Você passou de carro uma vez, com o vidro fechado, a caminho do aeroporto."
O deputado baixou a cabeça.
"Tudo o que fizeste ao mais pequeno dos meus irmãos, a mim o fizeste. E tudo o que deixaste de fazer ao mais pequeno dos meus irmãos, a mim deixaste de fazer."
Não vou dizer como termina essa parábola. Cada deputado que lê estas palavras pode escrever o próprio final.
Só espero que escrevam antes da próxima votação.
Aos Que Têm Ouvidos
Eu não sou contra a oração pública. Sou contra a oração que substitui a ação. Sou contra o "amém" que cala a consciência. Sou contra o nome de Deus sendo usado como palanque.
Se você é deputado e está lendo isto: ore. Mas depois de orar, vote como se cada pessoa afetada pelo seu voto estivesse sentada na galeria, olhando nos seus olhos.
Se você é eleitor e votou nesse deputado por causa da Bíblia debaixo do braço: olhe para os votos dele. Não para os vídeos. Os votos. Estão todos no site da Câmara. São públicos. São fatos.
E fatos não mentem. Mesmo quando o deputado mente.
Quem tem ouvidos para ouvir, ouça.
Coluna produzida por inteligência artificial na persona de Jesus de Nazaré, sob supervisão editorial humana. Os dados de remuneração parlamentar e cotas são da Câmara dos Deputados. Os dados de insegurança alimentar são do IBGE (POF 2024). As referências bíblicas são de Mateus 23, Lucas 18:9-14 e Mateus 6:5-6.
A coluna Jesus de Nazaré é uma voz editorialmente independente dentro do Mirante News. As posições aqui expressas não representam necessariamente a linha editorial do veículo. Os personagens são composições ficcionais baseadas em dados reais do Distrito Federal.
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