
Coluna Jesus de Nazaré — A Parábola do Pai que Perdeu o Filho na 712 Sul
A Parábola do Pai que Perdeu o Filho na 712 Sul
Jesus chorou. — João 11:35, o versículo mais curto da Bíblia e o mais profundo de todos.
Jesus chorou.
É o versículo mais curto de toda a Bíblia. João 11:35. Duas palavras no original grego: Ἐδάκρυσεν ὁ Ἰησοῦς. Duas palavras que carregam todo o peso do que significa ser humano e divino ao mesmo tempo, olhar para a morte e sentir o peito esmagar.
Eu chorei diante do túmulo de Lázaro. Não porque não pudesse ressuscitá-lo — eu podia e fiz. Chorei porque vi Maria e Marta destruídas. Chorei porque a morte de alguém que amamos é um rasgo no tecido do mundo que nenhuma teologia consegue costurar por completo.
Hoje eu choro de novo.
Choro por um menino chamado Rafael (personagem ficcional baseado em dados reais). Vinte e dois anos. Estudante de Engenharia Civil na Universidade de Brasília. Filho de Seu Antônio, eletricista em Taguatinga Norte, e de Dona Cláudia, auxiliar administrativa num escritório de contabilidade na Asa Sul.
Rafael morreu numa madrugada de sábado, num apartamento na 712 Sul, de parada cardiorrespiratória induzida por fentanil. Onze minutos entre a administração da substância e a morte clínica. Onze minutos. O tempo de um café.
O Filho que Partiu
A parábola do filho pródigo, que Lucas registrou no capítulo 15, é a história que todo pai reconhece no fundo do estômago.
Um filho pede sua herança antecipada — o que equivale a dizer "Pai, para mim você já morreu" —, vai para uma terra distante e gasta tudo em vida dissoluta. Quando o dinheiro acaba, acaba junto a farsa. Ele se vê alimentando porcos, com fome, com vergonha, com saudade.
E volta.
O pai o vê de longe. Corre ao seu encontro. Abraça. Beija. Manda preparar o melhor bezerro. Porque "este meu filho estava morto e reviveu; estava perdido e foi achado."
A parábola é sobre a misericórdia do pai. Sobre a porta que nunca se fecha. Sobre o amor que não calcula.
Mas eu preciso contar uma versão dessa parábola que Lucas não registrou. Porque nessa versão, o filho não volta.
Seu Antônio
Seu Antônio (personagem ficcional baseado em dados reais) tem cinquenta e quatro anos, mãos grossas de quem puxa fio elétrico desde os dezessete, e uma cicatriz no indicador esquerdo que ele mostra orgulhoso: "Essa aqui foi a 220 que me pegou em 2003, no prédio do SIG." Ri quando conta. Eletricista bom tem história de choque para contar.
Ele criou Rafael sozinho durante seis anos, depois que Dona Cláudia saiu de casa. Depois se reconciliaram, tiveram uma segunda filha, reconstruíram uma vida que funcionava no ritmo possível — almoço de domingo, parcela do carro, carnê do material escolar.
Rafael era o orgulho. Primeiro da família a entrar numa universidade pública. Engenharia Civil na UnB. Seu Antônio chorou no dia da matrícula. Chorou na frente de todo mundo, sem vergonha, porque aquele menino era a prova de que a fiação da vida dele tinha dado certo.
Rafael passou os dois primeiros anos da faculdade sem problemas visíveis. Notas razoáveis, estágio num escritório de projetos no Sudoeste, uma namorada que Dona Cláudia adorava. A engrenagem funcionava.
Ninguém sabe precisar quando parou de funcionar.
A 712 Sul
A 712 Sul é um endereço que Brasília conhece e finge não conhecer. Comercial, residencial misto, com bares, restaurantes, lojas de conveniência. De dia, civilizada. De noite, uma das esquinas mais conhecidas do tráfico de drogas sintéticas no Plano Piloto.
Não é a Cracolândia de São Paulo. Não tem barracos de lona. As pessoas que compram drogas na 712 Sul vestem Lacoste e chegam de Uber Black. Os traficantes não são meninos descalços de favela — são jovens com iPhone e conta no PicPay. O fentanil chega em envelopes discretos, às vezes misturado com MDMA, às vezes com cetamina, às vezes puro.
A Polícia Federal registrou um aumento de 487% nas apreensões de fentanil no Brasil entre 2021 e 2024. No Distrito Federal, as apreensões de drogas sintéticas cresceram 312% no mesmo período. A Secretaria de Saúde do DF contabilizou 89 óbitos por intoxicação aguda por substâncias sintéticas em 2024 — contra 23 em 2020.
Oitenta e nove famílias. Oitenta e nove Antônios. Oitenta e nove mesas com um lugar vazio no domingo.
Rafael frequentava a 712 Sul há pelo menos oito meses antes de morrer. Ninguém sabia. Ou todos sabiam e ninguém quis ver — que é a forma mais covarde de não saber.
Onze Minutos
O fentanil é um opioide sintético. Cinquenta vezes mais potente que a heroína. Cem vezes mais potente que a morfina. Uma dose do tamanho de dois grãos de sal é suficiente para matar um adulto de setenta quilos.
Rafael pesava setenta e três quilos. Tinha um metro e oitenta e dois. Jogava futsal às quartas-feiras no ginásio de Taguatinga. Estava vivo, forte, presente.
Às duas e dezessete da madrugada de um sábado, no apartamento de um colega na 712 Sul, Rafael inalou fentanil. Às duas e vinte e oito, parou de respirar. O amigo que estava com ele não sabia fazer reanimação cardiopulmonar. Não tinha naloxona — o antídoto que poderia ter revertido a overdose se administrado a tempo. Ligou para o SAMU às duas e trinta e um. A ambulância chegou às duas e cinquenta e três.
Rafael já estava morto havia vinte e cinco minutos.
O SAMU não demorou. Doze minutos de tempo-resposta para o Plano Piloto é normal, às vezes até rápido. O problema é que o fentanil não espera doze minutos. O fentanil não espera nada.
Eu Chorei
Quando Marta me encontrou no caminho para Betânia e disse "Senhor, se estivesses aqui, meu irmão não teria morrido", eu senti a acusação dentro da frase. Senti a dor que se transforma em raiva, a raiva que se transforma em pergunta, a pergunta que não tem resposta fácil: onde você estava?
Seu Antônio me faria a mesma pergunta. "Onde você estava, Jesus, quando meu filho inalou veneno num apartamento da Asa Sul? Onde estava o Deus que eu rezo todo domingo na Igreja Batista de Taguatinga Norte?"
Eu não tenho uma resposta confortável. Eu nunca tive respostas confortáveis. Eu tenho a verdade, e a verdade é que eu estava lá. Eu estou em todo lugar onde alguém sofre. Mas estar presente não é o mesmo que impedir.
Porque eu criei vocês livres. E a liberdade inclui a possibilidade de destruição.
Quem Abandonou Rafael Primeiro?
A pergunta que ninguém faz é a que mais importa.
Não foi a droga que matou Rafael. A droga foi o instrumento. O que matou Rafael foi uma cadeia de abandonos tão longa que nenhum elo sozinho carrega a culpa inteira, mas todos carregam uma parte.
O sistema de saúde mental do Distrito Federal abandonou Rafael. Em 2024, o DF tinha 0,7 psiquiatra por dez mil habitantes na rede pública — a Organização Mundial da Saúde recomenda pelo menos 2. Os Centros de Atenção Psicossocial para Álcool e Drogas, os chamados CAPS AD, são quatro para todo o DF. Quatro. Para uma população de três milhões e duzentas mil pessoas.
A universidade abandonou Rafael. A UnB registrou 1.247 trancamentos por motivos de saúde mental em 2023 — número que dobrou em relação a 2019. O serviço de apoio psicológico da universidade tem fila de espera de três meses. Três meses é tempo demais para quem está afundando.
A política de drogas abandonou Rafael. O Brasil gasta 85% do seu orçamento antidrogas em repressão e 15% em prevenção e tratamento. Inverteu a lógica. Gasta para prender e quase nada para curar. O resultado: as apreensões aumentam todo ano e os óbitos por overdose também.
Os amigos de Rafael o abandonaram. Não por maldade, mas por ignorância. Nenhum deles sabia o que era naloxona. Nenhum sabia que um kit de emergência custa menos de R$ 50 e pode ser a diferença entre a vida e uma ligação para os pais às três da manhã.
E eu pergunto sem acusar: Seu Antônio e Dona Cláudia, em algum momento, viram os sinais e desviaram o olhar? Não porque não amassem Rafael. Amavam mais que tudo. Mas porque olhar de frente para a possibilidade de que seu filho está se destruindo é a coisa mais aterrorizante que um pai pode fazer.
Eu sei. Eu vi meu Pai desviar o olhar no Getsêmani. "Passa de mim este cálice." Ele não passou.
O Porco e a Farinha
Na parábola original, o filho pródigo caiu tão baixo que desejava comer a comida dos porcos. Esse é o fundo. O ponto em que a pessoa olha para si mesma e não se reconhece.
Rafael nunca chegou a esse ponto de forma visível. Essa é a crueldade das drogas sintéticas em contexto de classe média: não há degradação aparente. Não há corpo emaciado na calçada. Não há fedor de crack num cachimbo improvisado. Há um universitário bem vestido que frequenta festas no Plano Piloto e, num sábado qualquer, não acorda.
O filho pródigo da classe média morre limpo, perfumado, em apartamento com ar-condicionado. E o pai só descobre que ele estava perdido quando já não pode mais ser achado.
O Abraço que Não Aconteceu
Na parábola de Lucas, o pai corre ao encontro do filho. Corre. Um patriarca judeu do primeiro século, que por norma cultural jamais correria em público, levanta as vestes e corre porque o amor é mais forte que a dignidade.
Seu Antônio teria corrido. Eu sei que teria. Se Rafael tivesse ligado às duas da manhã e dito "Pai, estou em apuros", Seu Antônio teria calçado o chinelo, pegado o Gol 2014 e dirigido de Taguatinga Norte até a 712 Sul em vinte minutos, sem farol de milha, sem reclamar.
Mas Rafael não ligou.
E essa é a parte da parábola que eu não contei dois mil anos atrás, porque naquela época eu precisava dar esperança. Hoje eu preciso dar verdade.
Nem todo filho pródigo volta para casa. Alguns morrem na terra distante. E o pai espera no portão até o sol se pôr, e depois espera mais, e mais, até que alguém vem e diz as palavras que nenhum pai deveria ouvir.
Seu Antônio recebeu a ligação do Hospital de Base às quatro e quinze da madrugada. Dona Cláudia ouviu o grito dele do quarto e soube antes de perguntar.
Não Condenem o Menino
Eu preciso dizer isso porque sei o que vocês estão pensando. Alguns de vocês estão pensando: "Fez por onde. Quem manda usar droga."
Para. Parem.
Quando trouxeram até mim a mulher pega em adultério, os fariseus queriam apedrejá-la. Estavam certos pela lei de Moisés. A lei dizia: apedrejai. Eu disse: quem não tiver pecado que atire a primeira pedra.
Os fariseus não queriam justiça. Queriam a satisfação de condenar alguém para se sentirem limpos.
Rafael errou. Rafael fez escolhas que o levaram à morte. Isso é fato. Mas eu vi o coração de Rafael — eu vejo todos os corações — e o que eu vi não era maldade. Era vazio. Era uma dor sem nome que ele tentava anestesiar com química porque ninguém ensinou a ele outro caminho.
Nenhum menino de vinte e dois anos busca fentanil porque está feliz. Nenhum.
O Lázaro que Não Ressuscitou
Eu ressuscitei Lázaro. Chamei do túmulo e ele saiu, ainda envolto em faixas. Marta e Maria caíram de joelhos. A multidão viu e muitos creram.
Mas eu não ressuscito todos. Essa é a parte que machuca e que não tem explicação teológica que satisfaça um pai em luto. Não tenho uma fórmula para oferecer a Seu Antônio que justifique por que Lázaro voltou e Rafael não.
O que eu tenho é isto: a dor de Seu Antônio é sagrada. Não é castigo. Não é teste de fé. É a consequência de viver num mundo quebrado onde sistemas falham, substâncias matam e meninos morrem antes dos pais.
E a resposta certa para essa dor não é "Deus quis assim." Deus não quis assim. Deus chora junto. Jesus chorou. Eu chorei e continuo chorando.
O que Eu Peço
Eu não peço que criminalizem mais. Já criminalizaram bastante e os mortos continuam se acumulando.
Eu peço naloxona nas farmácias sem receita. Eu peço CAPS AD em cada região administrativa do DF — não quatro para três milhões, mas trinta. Eu peço que a UnB contrate psicólogos suficientes para atender em uma semana, não em três meses. Eu peço que os pais de Brasília conversem com seus filhos sobre fentanil do mesmo jeito que conversam sobre vestibular — porque o fentanil está mais perto dos filhos deles do que eles imaginam.
Eu peço que Seu Antônio não seja o último pai a receber uma ligação às quatro da manhã.
E eu peço que vocês não julguem Rafael. Porque eu, que tenho autoridade para julgar o mundo inteiro, olhei para aquele menino e não vi um pecador. Vi um filho. Um filho que se perdeu numa terra distante e não conseguiu achar o caminho de volta.
E isso, eu garanto, é a coisa mais triste que existe.
Coluna produzida por inteligência artificial na persona de Jesus de Nazaré, sob supervisão editorial humana. Os dados de apreensões de drogas sintéticas são da Polícia Federal e Secretaria de Saúde do DF. As referências bíblicas são de Lucas 15:11-32, João 11:35 e Mateus 9:36.
A coluna Jesus de Nazaré é uma voz editorialmente independente dentro do Mirante News. As posições aqui expressas não representam necessariamente a linha editorial do veículo. Os personagens são composições ficcionais baseadas em dados reais do Distrito Federal.
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