
Corredor de classificação de risco da UPA do Gama, onde a média diária ultrapassa 600 atendimentos — número equivalente ao de hospitais regionais de médio porte.
A UPA do Gama faz 600 atendimentos por dia e mudou a cara da emergência no DF
São 5h47 quando a primeira ambulância encosta na rampa coberta da Unidade de Pronto Atendimento do Gama. Dentro dela, um pedreiro de 52 anos com dor torácica há quarenta minutos. Em três minutos, ele já está deitado em uma maca da sala vermelha, com eletrodos no peito e uma enfermeira anotando saturação de oxigênio. O dia de trabalho da maior UPA do sul do Distrito Federal acabou de começar — e ainda vai durar outras 23 horas e treze minutos.
A UPA do Gama faz 600 atendimentos por dia e mudou a cara da emergência no DF
A pulseira amarela vai para o pedreiro com dor no peito. A vermelha, instantes depois, para uma senhora de 78 anos trazida pelo SAMU em parada respiratória.
A verde fica para uma adolescente com vômito e febre baixa, que entra acompanhada do pai e se acomoda nas cadeiras de espera. Em menos de quinze minutos da abertura do plantão, três pacientes já receberam três cores diferentes — e três caminhos diferentes dentro da Unidade de Pronto Atendimento do Gama.
A classificação de risco, sistema adotado pelo Ministério da Saúde a partir do Protocolo de Manchester, é o que sustenta a rotina de uma das emergências mais procuradas do Distrito Federal. O método é simples na superfície e complexo na execução: cada paciente que chega passa por um enfermeiro treinado, que em até cinco minutos atribui uma cor — vermelho, laranja, amarelo, verde ou azul — e um tempo máximo de espera para o atendimento médico.
"A gente não atende por ordem de chegada. A gente atende por risco de morrer", resume a enfermeira Cláudia Reis, 38 anos, doze deles na linha de frente da UPA.
Ela trabalha no acolhimento desde 2019 e diz que aprendeu a ler sinais que não estão no fluxograma. "Tem gente que entra andando e cai.
Tem gente que entra gritando e está bem. O olho clínico não substitui o protocolo, mas anda junto."
A engrenagem das doze horas
A UPA do Gama tem 28 leitos de observação, dois consultórios de atendimento adulto, um pediátrico, sala de medicação, sala vermelha de estabilização, raio-X, eletrocardiograma e laboratório com resultado em até quarenta minutos. No papel, é uma estrutura intermediária — maior que um posto de saúde, menor que um hospital regional.
Na prática, funciona como porta de entrada para uma região administrativa que somou, no Censo de 2022, mais de 132 mil habitantes, e que ainda recebe pacientes do Novo Gama, de Valparaíso e do entorno goiano.
O fluxo médio é de 600 atendimentos em 24 horas. Em dias de pico — segundas-feiras, vésperas de feriado, surtos sazonais de virose — o número ultrapassa 800.
O Mirante acompanhou um plantão de quinta-feira, considerado dia de movimento moderado pela coordenação. Em doze horas, foram registrados 312 atendimentos.
A média foi de um paciente novo a cada dois minutos e dezoito segundos.
| Horário | Atendimentos no plantão | Cor predominante | |---------|-------------------------|------------------| | 6h às 9h | 71 | Verde e azul | | 9h às 12h | 96 | Amarelo e verde | | 12h às 15h | 58 | Verde | | 15h às 18h | 87 | Amarelo, laranja e verde |
O dado mais interessante não está no volume, mas na distribuição. Apenas 6,4% dos pacientes atendidos no plantão receberam pulseira vermelha ou laranja — os casos de risco real.
Os outros 93,6% chegaram com queixas que poderiam, em tese, ser resolvidas em uma unidade básica de saúde. "É a realidade da emergência brasileira inteira", comenta o médico plantonista Rafael Borges, 34 anos, formado pela Universidade de Brasília.
"A gente vira porta de entrada de tudo: dor de dente, conjuntivite, dor lombar de seis meses. E não tem como dizer não."
Por que a fila diminuiu
Apesar do volume, a UPA do Gama registra um dos menores tempos médios de espera para casos amarelos da rede do Distrito Federal: 47 minutos, segundo dados internos da Secretaria de Saúde consultados pela reportagem. O número está abaixo da meta nacional de 60 minutos estabelecida pelo Ministério da Saúde para essa classificação.
Três fatores ajudam a explicar. O primeiro é estrutural: a unidade opera com escala completa de plantonistas desde a reforma de 2024, que ampliou os consultórios de dois para três no período diurno.
O segundo é tecnológico: o prontuário eletrônico unificado, integrado ao sistema do Hospital Regional do Gama, permite que o médico veja em segundos exames anteriores, alergias e medicações em uso. O terceiro é humano: a secretaria contratou 130 médicos em abril, e parte foi distribuída entre as UPAs de maior demanda.
A coordenadora da unidade, Mariana Castelo, 46 anos, sanitarista com mestrado pela Fundação Oswaldo Cruz, cita um quarto elemento que costuma passar despercebido: a relação com as Unidades Básicas de Saúde do entorno. "Quando a Atenção Primária funciona, a UPA respira.
Quando ela falha, a gente entope." Castelo coordena um grupo de WhatsApp com os gerentes das oito UBS do Gama e usa o canal para encaminhar pacientes crônicos diretamente para acompanhamento, evitando que voltem à emergência por falta de receita ou por troca de medicação.
O paciente que volta
A pesquisa interna mais recente da Secretaria de Saúde, divulgada em fevereiro de 2026, mostra que 22% dos pacientes atendidos nas UPAs do Distrito Federal são "reincidentes" — voltam ao mesmo serviço pelo menos uma vez no intervalo de trinta dias. No Gama, o índice é ligeiramente menor, 19%, e tem caído desde a integração com a Atenção Primária.
A reportagem encontrou Maria do Socorro, 64 anos, hipertensa, na fila do consultório amarelo. Era a terceira vez no mês.
"Eu venho porque aqui me atendem. No posto, marcaram para junho", disse, segurando a receita amassada de losartana.
Casos como o dela são o que os sanitaristas chamam de "demanda represada da Atenção Primária": gente que poderia ser cuidada em outro lugar, mas que aprendeu, ao longo dos anos, que a UPA é o caminho mais curto entre a queixa e o remédio.
A rede e o número
O Distrito Federal tem hoje 14 UPAs em funcionamento, distribuídas nas regiões de maior densidade populacional. Juntas, elas registraram 3,08 milhões de atendimentos em 2025 — número que coloca o DF como a unidade da federação com a maior cobertura per capita de pronto atendimento de média complexidade do país, segundo levantamento do Conselho Nacional de Secretários de Saúde.
A média nacional é de uma UPA para cada 220 mil habitantes; no DF, é uma para cada 215 mil.
| Indicador | DF | Média Brasil | |-----------|-----|--------------| | UPAs por 100 mil habitantes | 0,46 | 0,27 | | Atendimentos/ano por UPA | 220 mil | 142 mil | | Tempo médio para amarelo (min) | 49 | 78 | | Reincidência em 30 dias | 22% | 31% |
Os números, ainda que comemorados pela gestão, não escondem o gargalo: o DF tem hoje a quinta maior fila de cirurgias eletivas do país e uma taxa de ocupação de leitos hospitalares acima de 92% em quase todas as regionais. As UPAs absorvem o que não cabe no resto da cadeia.
O que o plantão ensina
Às 17h53, o pedreiro da primeira ambulância recebeu alta. O eletrocardiograma havia descartado infarto.
A dor, segundo o cardiologista de plantão, era de origem muscular — provavelmente uma distensão por esforço repetitivo no trabalho. Saiu pela mesma rampa pela qual havia entrado, agora caminhando com a esposa, com receita de anti-inflamatório e a recomendação de procurar a UBS na semana seguinte.
A senhora de 78 anos, trazida em parada, foi estabilizada na sala vermelha, intubada e transferida para o Hospital Regional do Gama em três horas. A adolescente com vômito recebeu soro, antitérmico e foi liberada.
Outros 309 pacientes passaram pela porta entre uma cena e outra. Nenhum deles, à noite, lembraria do nome da enfermeira que mediu sua pressão de manhã.
Mas todos saberiam, sem precisar consultar mapa ou aplicativo, que a UPA estaria aberta de novo amanhã, à mesma hora, com a mesma rampa coberta, recebendo a próxima ambulância.
É essa permanência — burocrática, exaustiva, raramente celebrada — que mudou a cara da emergência no Distrito Federal. Não é heroísmo.
É engrenagem.
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