
Roubos a comércio dispararam 42% no primeiro trimestre de 2026, concentrados nas cidades-satélites do DF
Homicídios caem 18% no DF no primeiro trimestre, mas roubos a comércios disparam 42%
O governo celebra a queda nos homicídios. Os comerciantes de Ceilândia, Samambaia e Recanto das Emas contam uma história diferente.
Homicídios caem 18% no DF, mas roubos a comércios disparam 42%
Valdeci Santos tem uma papelaria na QR 308 de Samambaia Norte. Dezessete anos no mesmo ponto, entre a lotérica e o salão de cabeleireiro da Dona Mirtes. O cheiro de papel novo misturado ao de tinta de impressora é a primeira coisa que o cliente sente ao empurrar a porta de vidro — vidro que já foi trocado duas vezes este ano. Na parede atrás do balcão, três câmeras de segurança compradas no parcelamento. Abaixo do caixa, um botão de pânico que aciona uma central que demora, em média, vinte e sete minutos para responder.
Na quarta-feira passada, às 18h40, dois homens de capacete entraram, apontaram uma faca para a funcionária e levaram o caixa, três celulares em conserto e uma caixa de cartuchos de impressora. Valdeci estava no depósito. Ouviu o grito. Não viu os rostos. Encontrou a funcionária tremendo, com as mãos brancas apertando a borda do balcão.
Foi o terceiro assalto em 2026. Janeiro. Março. Abril.
Nessa mesma semana, o governador Ibaneis Rocha gravou vídeo comemorando a queda de 18% nos homicídios.
Dois números, duas cidades, uma mentira por omissão
Cento e quatro pessoas assassinadas no DF entre janeiro e março do ano anterior. No mesmo período de 2026: 85. Redução de 18,3% — a maior queda trimestral em homicídios dolosos desde 2019.
O secretário de Segurança, Sandro Avelar, concedeu coletiva com gráfico de barras azul e seta descendente. A bancada governista republicou em massa.
Do outro lado da sombra, os números que não apareceram na coletiva.
| Crime | Jan-Mar 2025 | Jan-Mar 2026 | Variação | |-------|-------------|-------------|----------| | Homicídio doloso | 104 | 85 | -18,3% | | Latrocínio | 11 | 7 | -36,4% | | Feminicídio | 9 | 6 | -33,3% | | Roubo a comércio | 1.287 | 1.827 | +42,0% | | Roubo de celular | 4.890 | 6.312 | +29,1% | | Furto em veículo | 3.456 | 4.102 | +18,7% | | Roubo a transeunte | 5.644 | 6.890 | +22,1% |
O governo selecionou a primeira metade da tabela para a propaganda. A segunda metade — a que atinge milhões de brasilienses no cotidiano — ficou enterrada num PDF de 48 páginas no site da SSP.
A queda nos homicídios é real. Mortes evitadas são mortes evitadas, e negar isso seria desonesto. A Polícia Civil e a PMDF fizeram trabalho relevante — a operação "Cerco Fechado", de fevereiro, resultou em 47 armas apreendidas e 23 prisões em Ceilândia e Sol Nascente.
A desonestidade não está nos números. Está na seleção.
O mapa de calor que deveria tirar o sono do secretário
A distribuição geográfica dos roubos a comércio segue um padrão que deveria alarmar qualquer gestor sério. Cinco regiões administrativas concentram 68% das ocorrências.
| Região Administrativa | Roubos a comércio (1º tri 2026) | % do total | |----------------------|-------------------------------|-----------| | Ceilândia | 389 | 21,3% | | Samambaia | 274 | 15,0% | | Recanto das Emas | 213 | 11,7% | | Taguatinga | 198 | 10,8% | | Sol Nascente/Pôr do Sol | 168 | 9,2% | | Demais RAs | 585 | 32,0% |
Ceilândia sozinha registrou mais roubos a comércio do que o Plano Piloto, Lago Sul, Lago Norte, Sudoeste e Noroeste juntos.
A conta é simples e reveladora: o Plano Piloto tem uma viatura da PMDF para cada 890 habitantes. Ceilândia opera com uma para cada 3.400, segundo levantamento do Metrópoles com dados da PMDF de dezembro do ano anterior.
A periferia concentra a população e os crimes. O policiamento, não. A sombra é mais densa onde a luz é mais fraca — e a decisão sobre onde apontar o holofote é, sempre, política.
O preço que Valdeci paga duas vezes
Roubo a comércio não é crime estatístico. Tem custo real que se multiplica na cadeia produtiva — som de vidro quebrando, textura de medo nas mãos de uma funcionária que não consegue soltar o balcão, cheiro de tinta de impressora misturado a adrenalina.
Levantamento da Fecomércio-DF de fevereiro de 2026: custo médio de um assalto a comércio de pequeno porte gira em torno de R$ 8.200 por ocorrência. Mercadoria perdida, dano ao estabelecimento, dias parados, segurança privada, e o custo que nenhuma planilha captura — a perda de clientes que deixam de frequentar o local.
Com 1.827 roubos no trimestre: R$ 14,9 milhões em prejuízo direto. Em um ano, mais de R$ 59 milhões — quase o orçamento de três Administrações Regionais.
O comerciante paga duas vezes. Paga o imposto que financia a segurança que não chega. Paga o prejuízo do assalto que a segurança não evitou.
Quem opera com margem de 8% a 12% — realidade do varejo de bairro — não absorve R$ 8.200 sem consequência. A Junta Comercial do DF registrou 1.340 baixas de CNPJ no primeiro trimestre, alta de 17%. A SSP não cruza dados de criminalidade com mortalidade empresarial. Deveria. Cada CNPJ fechado é um emprego perdido, uma vitrine apagada, um pedaço de calçada que escurece.
Valdeci pensa em fechar. Dezessete anos. Três assaltos em quatro meses. A esposa pediu. Os filhos pediram. A funcionária entregou o avental na sexta. A sombra vence pelo cansaço.
Setenta aparelhos por dia: a economia do celular roubado
Os 6.312 roubos de celular entre janeiro e março significam 70 aparelhos arrancados das mãos de brasilienses por dia. Dois por hora, sem contar subnotificação.
O celular de 2026 não é aparelho de comunicação. É carteira, banco, acesso ao trabalho. Cada roubo dispara cascata: bloqueio de contas, troca de senhas, perda de dados, dias sem aplicativo bancário, cancelamento de linha. A Anatel processou 4.890 pedidos de bloqueio de IMEI no DF no trimestre — número inferior ao de roubos, o que indica que parte das vítimas sequer aciona o bloqueio.
A região com maior incidência: Rodoviária do Plano Piloto e entorno. O terminal concentra 700 mil passageiros por dia, segundo a DFTrans. Nó que conecta periferia e centro. Ponto mais vulnerável da cidade — câmeras insuficientes, policiamento intermitente, massa humana adensada em corredores estreitos, o cheiro de diesel e suor, o som de passos apressados e mãos rápidas.
A estratégia do número bonito
O governo seleciona indicadores em queda, transforma em manchete, ignora os que sobem. Funciona com jornalismo passivo — e o DF tem bastante.
Segurança pública não se mede pelo número que o governo escolhe. Mede-se pela sensação de segurança do cidadão — e essa sensação se constrói na padaria assaltada duas vezes no mês, no celular arrancado na saída do metrô, na loja que fechou porque o dono desistiu.
Homicídio caiu. Roubo explodiu. As duas coisas são verdade. O governo só conta uma.
Vender queda nos homicídios como "segurança melhorou" enquanto comerciante instala a terceira grade na vitrine não é comunicação institucional. É propaganda por edição — e o que fica de fora da moldura define a foto tanto quanto o que está dentro.
O fantasma da subnotificação
Os números oficiais já alarmam. Os reais são piores. O Fórum Brasileiro de Segurança Pública estima que 40% a 50% dos crimes patrimoniais no Brasil não viram boletim. No DF, a subnotificação para roubos a comércio gira em torno de 35%, segundo pesquisa da Codeplan.
Os motivos: o comerciante não acredita que a polícia resolva. Registrar boletim consome horas que ele não tem. A experiência anterior mostrou que o registro não resultou em nada.
| Crime | Registrado | Subnotificação estimada | Total provável | |-------|-----------|------------------------|---------------| | Roubo a comércio | 1.827 | 35% | 2.811 | | Roubo de celular | 6.312 | 45% | 11.476 | | Furto em veículo | 4.102 | 50% | 8.204 | | Roubo a transeunte | 6.890 | 42% | 11.879 |
Total provável de crimes patrimoniais no trimestre: mais de 34 mil. Mais de 370 por dia. Um a cada quatro minutos.
O que funciona — e o DF não copiou
O Ceará reduziu roubos a comércio em 31% entre 2023 e o ano passado com videomonitoramento integrado: câmeras em corredores comerciais conectadas a centrais com resposta em até 8 minutos. Investimento de R$ 120 milhões — menos que o prejuízo anual estimado dos roubos no DF.
São Paulo implementou o "Muralha Paulista": câmeras de reconhecimento de placas, drones e viaturas com GPS em tempo real. Taxa de resolução de roubos a comércio subiu de 8% para 23% em dois anos.
O DF tem orçamento para qualquer um desses programas. A Secretaria de Segurança executou apenas 67% do orçamento de investimento no ano anterior. Sobraram R$ 148 milhões que poderiam ter financiado câmeras, viaturas ou efetivo — e voltaram para o caixa do Tesouro.
Dinheiro devolvido. Comércio assaltado. A equação não fecha. A sombra se alonga.
Sete em cada dez já passaram pelo sistema — e voltaram
A Polícia Civil traçou o perfil dos autores de roubos a comércio presos no trimestre. O dado mais revelador: 72% eram reincidentes.
| Característica | Percentual | |---------------|-----------| | Reincidente | 72% | | Idade entre 18 e 29 anos | 64% | | Uso de arma branca | 58% | | Uso de arma de fogo | 27% | | Atuação em dupla ou grupo | 61% | | Horário entre 18h e 22h | 47% |
Sete em cada dez assaltantes já passaram pelo sistema criminal e voltaram. O problema não é apenas policial — é da cadeia inteira: investigação, Judiciário, sistema prisional, reinserção. A porta giratória do sistema penal brasileiro gira mais rápido no DF do que em qualquer outra unidade da federação, proporcionalmente.
Prender e soltar. Soltar e prender. O ciclo alimenta a sombra que cresce sobre o comércio da periferia — e cada vez que a porta gira, um Valdeci tranca o caixa mais cedo, uma funcionária pede demissão, uma vitrine escurece.
O que os dados exigem — não pedem, exigem
Redistribuir efetivo. A PMDF tem 14.200 policiais na ativa. Distribuição privilegia Plano Piloto e entorno do Buriti. Ceilândia opera com efetivo de cidade do interior. Redistribuição não exige concurso — exige decisão.
Policiamento ostensivo no comércio periférico. Operações de saturação se concentram na Esplanada, W3, Setor Comercial Sul. O comércio de Samambaia, Recanto e Sol Nascente opera sem cobertura permanente. Rondas preventivas em horário comercial — 8h às 20h — nos corredores de comércio das RAs periféricas reduziriam oportunidade. Crime patrimonial é crime de oportunidade. Onde a luz chega, a sombra recua.
Transparência desagregada. Boletins mensais por RA. Sem isso, análise é adivinhação e política pública é chute no escuro.
A escolha que define o trimestre
O DF tem a maior renda per capita do país e a terceira maior força policial proporcional. Não falta dinheiro. Não falta efetivo. Falta a decisão de onde apontá-los.
O primeiro trimestre de 2026 não é história de sucesso. É história de escolha. O governo escolheu quais números contar — e ao escolher, revelou quais vidas considera dignas de proteção.
Valdeci olha para as três câmeras na parede, para o vidro novo, para o botão de pânico que demora vinte e sete minutos. Pensa nos dezessete anos. Nos clientes que conhece pelo nome. No cheiro de papel novo que é o cheiro do seu trabalho.
A sombra avança quando o Estado recua. E na periferia do DF, a sombra tem horário fixo — dezoito horas, quando o sol desce atrás dos prédios de Samambaia e as vitrines ficam sozinhas, iluminadas por dentro, desprotegidas por fora, esperando o barulho que Valdeci já conhece de cor: capacete, porta, faca, grito, silêncio.
Dados: Secretaria de Segurança Pública do DF (boletim trimestral jan-mar 2026), Fórum Brasileiro de Segurança Pública (Anuário 2025), Fecomércio-DF (pesquisa fev/2026), CODEPLAN (PDAD 2024). Valores de roubos a comércio estimados com base na metodologia da Fecomércio-DF. Efetivo PMDF conforme relatório de janeiro de 2026. Dados de roubo de celular incluem apenas ocorrências registradas em delegacia — subnotificação estimada em 40-50% pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública.
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