
Coluna Jesus de Nazaré — A Parábola dos Dois Templos
A Parábola dos Dois Templos
A minha casa será chamada casa de oração, mas vós a tendes feito covil de ladrões.
Eu entrei em dois templos numa mesma semana. O que vi no primeiro me deu raiva. O que vi no segundo me fez chorar.
Deixem-me contar.
O Primeiro Templo
O primeiro ficava em Águas Claras, região administrativa do Distrito Federal com mais de 160 mil habitantes. Classe média em ascensão, prédios novos, academia em cada esquina, padaria artesanal no térreo.
O templo ocupava um terreno de 8 mil metros quadrados. Fachada de vidro fumê. Letreiro luminoso com o nome da igreja em letras douradas que piscavam à noite — visíveis da BR-060. Estacionamento com 400 vagas. Dois andares. Auditório principal para 5 mil pessoas sentadas.
Entrei.
O ar condicionado funcionava a 22 graus. O som era profissional — mesa de 64 canais, caixas line array, monitores de palco. Quatro telões de LED de alta definição. Câmeras em quatro ângulos para a transmissão ao vivo que alcançava 200 mil pessoas todo domingo.
No palco, o pastor. Terno branco. Sapatos de couro italiano. Microfone sem fio preso na orelha, como um cantor de pop. Relógio no pulso que eu não precisava ser onisciente para saber que custava mais que o carro da maioria dos fiéis sentados na plateia.
Ele pregava sobre prosperidade.
"Deus quer que você prospere! Deus não fez seus filhos para a pobreza! Declare a sua vitória financeira! Quem acredita levanta a mão!"
Mãos levantadas. Gritos. Choro. Emoção real — porque a dor das pessoas é real, mesmo quando a cura oferecida é falsa.
Depois da pregação, a oferta. Envelopes distribuídos com valores sugeridos: R$ 100, R$ 500, R$ 1.000, R$ 5.000. "Oferta de fé", chamavam. "Devolução do dízimo", diziam. "Investimento no Reino", justificavam.
A arrecadação mensal daquela única unidade: R$ 3,2 milhões. Eu conto em reais porque vocês contam em reais. No meu tempo, contávamos em denários, mas o pecado é o mesmo.
Eu Virei Mesas Uma Vez
Vocês conhecem a história. João registrou no capítulo 2, Mateus no 21, Marcos no 11. Não preciso repetir os detalhes.
Cheguei a Jerusalém para a Páscoa. O Templo — o lugar que deveria ser a casa do meu Pai — estava lotado de vendedores. Cambistas trocando moedas com ágio. Vendedores de pombas cobrando o triplo dos pobres que vinham de longe. Bois e ovelhas para sacrifício com preços inflacionados porque o sumo sacerdote tinha acordo com os fornecedores.
O Templo tinha virado shopping.
Eu fiz um chicote de cordas. Derrubei as mesas dos cambistas. Despejei as moedas no chão. Soltei os animais. E gritei: "Tirai daqui estas coisas! Não façais da casa de meu Pai casa de comércio!"
Eu geralmente sou paciente. Curei leprosos sem reclamar. Lavei os pés dos meus discípulos sem nojo. Perdoei a mulher adúltera sem julgamento. Mas aquilo — transformar a casa de oração em mercado — me tirou do sério.
Porque quando você usa Deus para enriquecer, não está apenas roubando dinheiro. Está roubando esperança. E esperança, para quem não tem mais nada, é a última moeda que resta.
O Segundo Templo
O segundo ficava no Recanto das Emas. Região administrativa com 148 mil habitantes. Renda domiciliar média de R$ 2.800 por mês. Um dos maiores índices de vulnerabilidade social do DF.
Não era um templo religioso. Era um CRAS — Centro de Referência de Assistência Social. O templo laico. O lugar onde o Estado deveria fazer o que a igreja promete: cuidar dos mais frágeis.
Entrei.
O ar condicionado estava quebrado. Julho, 14% de umidade, aquele calor seco de Brasília que racha os lábios e a paciência. Uma ventilador de chão circulava ar quente de um lado para o outro.
Sala de espera com 15 cadeiras de plástico. Todas ocupadas. Mais oito pessoas de pé. Uma mãe com um bebê no colo, abanando com um papel dobrado. Uma idosa com uma sacola de documentos amarrotados. Um homem jovem com a perna engessada, apoiado numa muleta.
Na parede, um cartaz: "Este CRAS oferece: acompanhamento familiar, orientação sobre benefícios, encaminhamento para serviços socioassistenciais, atividades socioeducativas."
O que o CRAS de fato tinha naquele dia: uma assistente social. Uma. Para 148 mil habitantes.
Sem psicólogo. O cargo estava vago havia 14 meses. Sem educador social. Sem advogado de plantão. O computador era de 2017 e levava 12 minutos para abrir o sistema do CadÚnico.
Uma assistente social. Uma mulher chamada Raquel (personagem ficcional baseada em dados reais) — coincidência ou providência, o nome é bíblico — que atendia 30 famílias por dia, seis dias por semana, ganhando R$ 4.200 por mês.
Raquel conhecia cada família pelo nome. Sabia qual criança estava fora da escola. Sabia qual idoso vivia sozinho. Sabia qual mãe estava apanhando do marido e não denunciava por medo de perder a casa.
Raquel fazia o trabalho de cinco pessoas. Não por vocação heróica. Por falta de concurso.
Os Números Que Doem
No Distrito Federal, existem 27 CRAS para atender uma população de 3,1 milhões de habitantes. Desses, 694 mil estão inscritos no CadÚnico — famílias em situação de pobreza ou extrema pobreza.
Façam a conta: 694 mil pessoas vulneráveis divididas por 27 CRAS. Dá 25.700 pessoas por unidade.
A tipificação do Sistema Único de Assistência Social determina que cada CRAS deve ter, no mínimo: um coordenador, dois técnicos de nível superior (assistente social e psicólogo), três técnicos de nível médio. No mínimo.
Na prática, 40% dos CRAS do DF operam com quadro incompleto. Sete deles não têm psicólogo. Três não têm nem coordenador fixo.
Enquanto isso, no raio de 5 quilômetros ao redor de cada CRAS deficitário, existem em média 12 igrejas evangélicas. Doze. Algumas em garagens. Outras em galpões. Três ou quatro em estruturas que custaram mais de R$ 5 milhões para construir.
Não estou dizendo que igrejas são o problema. Estou dizendo que quando uma igreja de R$ 40 milhões prospera ao lado de um CRAS sem psicólogo, algo está fundamentalmente errado com as prioridades de uma sociedade que se diz cristã.
A Teologia da Prosperidade e o Evangelho Real
Vou ser direto, porque sempre fui.
Eu nunca disse "Deus quer que você seja rico." Eu disse: "É mais fácil um camelo passar pelo fundo de uma agulha do que um rico entrar no Reino de Deus." Isso está em Mateus 19:24. Podem conferir.
Eu nunca disse "Declare sua vitória financeira." Eu disse: "Não ajunteis para vós tesouros na terra, onde a traça e a ferrugem consomem." Mateus 6:19. Podem conferir também.
Eu nunca disse "Sua oferta vai voltar multiplicada." Eu disse: "Vendei o que possuís e dai esmola. Fazei para vós bolsas que não envelheçam." Lucas 12:33.
A teologia da prosperidade não é minha teologia. É uma invenção humana que usa meu nome para justificar ganância. É o cambismo do Templo vestido de terno e gravata, com CNPJ e isenção fiscal.
E quando eu vejo um pastor de megaigreja declarando renda de R$ 800 mil por mês enquanto seus fiéis — os mesmos que enchem os envelopes de oferta — comem arroz com ovo no Recanto das Emas, a vontade de fazer chicote de cordas volta com tudo.
Dona Margarida e o Envelope
Dona Margarida (personagem ficcional baseada em dados reais) tem 57 anos. Mora no Recanto das Emas. Trabalha como cuidadora de idosos em Águas Claras — na mesma região onde fica a megaigreja. Ganha R$ 1.500 por mês, sem carteira. Pega dois ônibus para ir, dois para voltar. Quatro horas de transporte por dia.
Todo domingo, Dona Margarida vai à megaigreja. Coloca R$ 50 no envelope da oferta. R$ 50 que daria para comprar três quilos de carne ou pagar a conta de luz.
Mas o pastor disse que se ela não der, Deus não abençoa. E Dona Margarida tem medo. Medo de Deus? Não. Medo de ficar mais pobre do que já é. A oferta virou seguro contra a miséria — e a megaigreja, a seguradora.
Na segunda-feira, Dona Margarida vai ao CRAS pedir inclusão no CadÚnico. Espera três horas. Raquel, a assistente social, atende com dedicação mas explica que a fila de análise leva 45 dias. Quarenta e cinco dias para saber se uma mulher que ganha R$ 1.500 tem direito a R$ 681 do Bolsa Família.
No domingo, a megaigreja processou a oferta de R$ 50 de Dona Margarida em tempo real. Crédito na conta da igreja em 24 horas.
Na segunda, o Estado levou 45 dias para sequer analisar se ela era pobre o suficiente.
Entendem por que eu virei as mesas?
A Casa de Oração
Meu Pai construiu o Templo para ser casa de oração. Não casa de espetáculo. Não casa de arrecadação. Não casa de enriquecimento pastoral.
Casa de oração. Um lugar onde o aflito encontra conforto. Onde o perdido encontra direção. Onde o pobre encontra dignidade. Onde o solitário encontra comunidade.
E o CRAS? O CRAS deveria ser a casa de oração laica. O lugar onde o Estado faz o que o Estado deve fazer: proteger os vulneráveis. Não com discurso, não com promessa, não com oferta de fé. Com serviço. Com gente. Com psicólogo presente, assistente social em número suficiente, computador que funcione, ar condicionado que refrigere.
Mas o CRAS virou uma sala quente com uma pessoa sobrecarregada. E a megaigreja virou um palácio refrigerado com cinco mil pessoas aplaudindo.
Os dois templos estão quebrados. Um por excesso. O outro por abandono.
O Que Eu Faria
Se eu entrasse na megaigreja de Águas Claras num domingo, faria diferente do que fiz em Jerusalém. Não faria chicote. Não viraria mesas. Já tentei isso e, dois mil anos depois, os cambistas voltaram.
Eu subiria ao palco. Pegaria o microfone do pastor. E diria:
"Vocês têm R$ 40 milhões investidos neste prédio. A cinco quilômetros daqui, no Recanto das Emas, tem um CRAS sem psicólogo. A assistente social se chama Raquel. Atende 30 famílias por dia. Sozinha. Ganha R$ 4.200 por mês. O ar condicionado está quebrado desde março."
"Vocês arrecadam R$ 3,2 milhões por mês. Dona Margarida, que está sentada na fileira 23, dá R$ 50 por domingo que ela não tem. Vocês sabem que ela não tem. E pedem mesmo assim."
"A minha casa será chamada casa de oração. Mas eu olho para esta casa e vejo uma empresa. Imunidade tributária, CNPJ, conselho fiscal, departamento de mídia, loja de produtos, editora, gravadora, agência de turismo para 'caravanas à Terra Santa'."
"Onde está a oração? Onde está o pobre? Onde está a viúva? Onde está o órfão?"
Depois, eu desceria do palco, atravessaria a porta de vidro fumê, caminharia cinco quilômetros até o CRAS, entraria na sala quente e sentaria ao lado de Raquel.
E ficaria lá.
Porque Deus não mora no templo de R$ 40 milhões. Deus mora onde duas ou três pessoas se reúnem em nome da justiça, da misericórdia e da verdade.
E no Recanto das Emas, Raquel faz isso todo dia. Sem telão, sem microfone sem fio, sem ofertas em envelopes.
Sozinha.
Aos Que Têm Ouvidos
Eu não sou contra a igreja. Eu sou a pedra angular da Igreja. Mas a igreja que eu fundei não tinha paredes de vidro fumê nem estacionamento para 400 carros. Tinha doze homens comuns, pés descalços, uma mesa com pão e vinho, e a disposição de morrer pelo próximo.
Se você frequenta uma megaigreja: continue. Ore. Cante. Busque Deus. Mas pergunte ao seu pastor quanto a igreja gasta com assistência social direta — não com "missões" que são turismo religioso, não com "ação social" que é distribuir cesta básica na Páscoa para tirar foto. Assistência real. Todo dia. Com gente formada, presente, dedicada.
Se a resposta for menos de 10% da arrecadação, vocês estão financiando uma empresa, não uma igreja.
E se você trabalha num CRAS: obrigado. Eu sei que ninguém agradece. Eu sei que o salário não paga as contas. Eu sei que você chora no banheiro entre um atendimento e outro. Eu sei.
Eu vi. Eu sempre vejo.
Quem tem ouvidos para ouvir, ouça.
Coluna produzida por inteligência artificial na persona de Jesus de Nazaré, sob supervisão editorial humana. Os dados sobre CRAS e CadÚnico são do Ministério do Desenvolvimento Social (SAGI). Os dados populacionais são da Codeplan-DF e IBGE. As referências bíblicas são de João 2:13-22, Mateus 21:12-13 e Mateus 19:24.
A coluna Jesus de Nazaré é uma voz editorialmente independente dentro do Mirante News. As posições aqui expressas não representam necessariamente a linha editorial do veículo. Os personagens são composições ficcionais baseadas em dados reais do Distrito Federal.
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