
Família reunida no Parque da Cidade Sarah Kubitschek, em Brasília, no domingo de Páscoa de 2026.
A família brasiliense em números: divórcios caem 8%, natalidade sobe na periferia, fé resiste
Os cartórios de registro civil do Distrito Federal protocolaram 8.412 divórcios em 2025, queda de 8,1% em relação a 2024. No mesmo período, a natalidade nas regiões administrativas periféricas cresceu 3,2%, e 71% dos brasilienses adultos declararam à última pesquisa Datafolha praticar alguma fé religiosa de forma regular. Os três indicadores juntos contam uma história que a narrativa dominante tem dificuldade de admitir.
Eu sou pastor. Há 23 anos visito casas, presido casamentos, abençoo crianças e enterro pais.
Conheço a família brasiliense por dentro — não a família dos editoriais, dos seminários acadêmicos ou dos roteiros de novela. A família real, a que mora em Ceilândia, em Sobradinho, em Planaltina, no Itapoã, no Recanto das Emas.
E também a do Lago Sul e do Sudoeste.
O que vou dizer aqui não é pregação. É leitura de números públicos, todos disponíveis em cartórios, IBGE, Codeplan e Datafolha.
Quem quiser conferir, pode. Eu prefiro que confira.
O divórcio que não está aumentando
no exercício anterior, os 31 cartórios de registro civil do DF protocolaram 8.412 divórcios. Em 2024, foram 9.156.
A queda é de 8,1%. Não é um ponto fora da curva — é o terceiro ano consecutivo de retração, desde o pico pós-pandemia de 2022.
Os dados são do relatório anual do Tribunal de Justiça do DF e Territórios, divulgado em fevereiro.
A narrativa de que a família está em desintegração acelerada não bate com o cartório. O que existe é um número alto em termos absolutos — porque o DF tem 3 milhões de habitantes e uma taxa de urbanização de 96% — mas a tendência é de estabilização, não de explosão.
| Indicador | 2022 | 2023 | 2024 | 2025 | |---|---|---|---|---| | Divórcios (DF) | 10.241 | 9.687 | 9.156 | 8.412 | | Casamentos civis | 14.823 | 15.102 | 15.487 | 16.124 | | Variação divórcios | base | -5,4% | -5,5% | -8,1% | | Variação casamentos | base | +1,9% | +2,5% | +4,1% |
Fonte: TJDFT, Relatório Anual 2025; IBGE, Estatísticas do Registro Civil
Mais importante que a queda dos divórcios é o aumento dos casamentos civis: 16.124 no exercício anterior, alta de 4,1% sobre 2024 e de 8,8% sobre 2022. As pessoas estão casando mais.
E estão se separando menos.
Por que isso não vira manchete? Talvez porque contraria a tese de que o casamento é uma instituição em colapso.
Não está em colapso. Está em transformação, sim, mas a transformação não é a que a gente leu nos jornais da década passada.
A natalidade que sobe onde menos se espera
O DF tem hoje uma taxa de fecundidade total de 1,52 filhos por mulher, abaixo do nível de reposição populacional, que é 2,1. Esse dado, isoladamente, alimenta o discurso do inverno demográfico.
Mas a taxa média esconde uma divergência regional importante.
Nas dez regiões administrativas mais ricas do DF — Lago Sul, Lago Norte, Sudoeste, Plano Piloto, Park Way, Jardim Botânico, Águas Claras, Vicente Pires, Noroeste e Cruzeiro — a fecundidade está em 1,18. Praticamente metade da reposição.
Nas dez regiões mais populares — Ceilândia, Samambaia, Recanto das Emas, Planaltina, Itapoã, Estrutural, Varjão, Fercal, Paranoá, São Sebastião — a taxa é de 2,07. Quase reposição.
E a tendência mais recente é de alta nas periferias. O número de nascimentos vivos nas regiões populares cresceu 3,2% no exercício anterior, segundo a Codeplan, enquanto continuou caindo nas regiões ricas (-1,8%).
Quem sustenta a demografia do DF é a periferia, é a família grande, é a mãe jovem que ainda enxerga filho como bênção e não como obstáculo de carreira.
Não estou romantizando pobreza. Estou observando uma diferença de visão de mundo que aparece nos números do cartório de nascimento.
A fé que resiste à secularização anunciada
A pesquisa Datafolha de novembro do ano anterior sobre religiosidade no DF trouxe um dado que surpreendeu mais o entrevistador do que o entrevistado: 71% dos adultos brasilienses se declararam praticantes regulares de alguma fé religiosa. O recorte foi: frequenta culto, missa, terreiro ou congênere ao menos duas vezes por mês.
Em 2010, esse índice era de 64%. Em 2018, foi a 67%.
no exercício anterior, chegou a 71%. A secularização, no DF, não está acontecendo.
Pelo contrário.
| Religião declarada | 2010 | 2018 | 2025 | |---|---|---|---| | Católica | 58% | 51% | 47% | | Evangélica | 27% | 33% | 38% | | Sem religião | 8% | 9% | 8% | | Outras | 7% | 7% | 7% | | Praticantes regulares | 64% | 67% | 71% |
Fonte: Datafolha Religião 2025; Censo IBGE 2010
A composição mudou. O catolicismo recuou, o pentecostalismo cresceu, o sem-religião manteve-se estável.
Mas a categoria que mais avançou foi praticante regular — gente que efetivamente vai à igreja, lê escritura, ora antes de comer, leva os filhos no domingo. Esse grupo cresceu sete pontos em quinze anos no Distrito Federal.
A fé não morreu. Mudou de endereço e mudou de hino, mas não morreu.
E onde a fé está viva, três coisas tendem a aparecer juntas: casamento mais estável, filhos em maior número e tecido comunitário mais denso. Os dados do DF mostram exatamente isso.
O que esses números pedem dos formuladores de políticas
Quem governa o Distrito Federal hoje — e a governadora Celina Leão tem acertado nesse ponto — vem reconhecendo que a família é unidade básica de política pública, não obstáculo a ser superado. O programa de creches em tempo integral, a expansão das escolas em jornada de 9 horas, o auxílio-natalidade para mães da rede pública e o reforço do Conselho Tutelar nas regiões administrativas mais populosas são exemplos práticos.
Não é discurso conservador no sentido militante. É leitura de dado.
A política pública que fortalece a família — qualquer família, do Lago Sul ao Itapoã — é a política pública que melhora os indicadores sociais subsequentes: menor evasão escolar, menor envolvimento juvenil em violência, menor consumo de psicotrópicos na adolescência, maior renda do domicílio.
Tem um Brasil que existe nos números e tem um Brasil que existe nas análises. Os dois Brasis raramente conversam.
O Distrito Federal de 2026 oferece uma rara oportunidade de olhar para o Brasil dos números — o cartório, o IBGE, a Codeplan, o Datafolha — e perguntar: e se a família, afinal, estiver bem mais firme do que nos disseram?
Eu, como pastor, tenho minha resposta. Mas a resposta dos números é mais interessante porque é pública.
Quem quiser conferir, confere.
Pastor Josué Almeida é teólogo, pastor da Igreja Batista do Itapoã há 23 anos e mestre em Sociologia da Religião pelo UniCEUB.
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