
Família reunida no Parque da Cidade, Brasília — pesquisa indica que 68% dos brasilienses consideram a família a instituição mais confiável
A família brasiliense em números: divórcios caem 8%, natalidade sobe nas periferias e a fé resiste ao algoritmo
Levantamento de dados do IBGE e da Associação dos Registradores de Pessoas Naturais do DF mostra que os divórcios caíram 8% em 2025, a natalidade subiu 3,1% nas RAs periféricas e 74% dos brasilienses declaram frequência religiosa regular.
A família brasiliense em números: divórcios caem 8%, natalidade sobe nas periferias e a fé resiste ao algoritmo
Existe uma narrativa dominante que circula pelas universidades, pelas redações e pelas redes sociais: a família está acabando. O casamento é uma instituição falida.
A religião é coisa de gente atrasada. Os jovens não querem filhos.
O futuro é individual, autônomo, desvencilhado de qualquer laço que exija sacrifício.
Os dados do Distrito Federal dizem outra coisa.
Não dizem que está tudo perfeito. Dizem que a família brasileira — e a brasiliense em particular — não está em colapso.
Está se adaptando. E os números, quando lidos sem filtro ideológico, revelam uma resiliência que incomoda quem aposta na dissolução.
Vamos aos fatos.
Divórcios: a queda que ninguém comemora
Em 2025, os cartórios do Distrito Federal registraram 8.420 divórcios. Em 2024, foram 9.152. Queda de 8%.
O dado é da Associação dos Registradores de Pessoas Naturais do DF (ARPEN-DF), consolidado a partir dos registros dos 11 cartórios de registro civil do Distrito Federal.
| Ano | Divórcios registrados no DF | Variação anual | |-----|----------------------------|----------------| | 2021 | 10.340 | — | | 2022 | 9.880 | -4,4% | | 2023 | 9.610 | -2,7% | | 2024 | 9.152 | -4,8% | | 2025 | 8.420 | -8,0% |
Quatro anos consecutivos de queda. A redução acumulada desde 2021 é de 18,6%.
Parte da explicação é demográfica: menos casamentos formais significam menos divórcios formais. O número de casamentos civis no DF caiu 6% no período.
Mas a razão divórcio/casamento também caiu — de 0,61 em 2021 para 0,54 no exercício anterior. Ou seja, para cada 100 casamentos, 54 terminam em divórcio, contra 61 de quatro anos atrás.
A tendência contraria a projeção nacional. O Brasil como um todo registrou aumento de 2,1% nos divórcios no exercício anterior, puxado por São Paulo e Rio de Janeiro.
O DF vai na contramão.
Não dá para atribuir a queda a uma causa única. Mas é possível identificar três fatores convergentes: o encarecimento do processo de divórcio (custas cartorárias subiram 14% em dois anos), o aumento da mediação familiar nos fóruns do TJDFT e — menos mensurável mas não menos real — uma revalorização cultural do compromisso matrimonial em comunidades religiosas que crescem nas periferias.
Natalidade: as periferias decidem ter filhos
O DF registrou 43.200 nascidos vivos no exercício anterior, segundo o Sistema de Informações sobre Nascidos Vivos (SINASC). O número representa um aumento de 1,2% em relação a 2024 (42.680).
Pequeno no agregado. Significativo quando desagregado.
As regiões administrativas de maior renda — Plano Piloto, Lago Sul, Lago Norte, Park Way — registraram queda de 3,8% nos nascimentos. Tendência consistente com o padrão global de baixa fecundidade em populações de alta renda e escolaridade.
As RAs periféricas — Ceilândia, Samambaia, Recanto das Emas, Santa Maria, Estrutural — registraram aumento de 3,1%. Sol Nascente/Pôr do Sol, a RA mais jovem e de menor renda per capita, teve aumento de 5,4%.
| Região | Nascidos vivos 2024 | Nascidos vivos 2025 | Variação | |--------|--------------------|--------------------|----------| | Plano Piloto | 3.120 | 3.002 | -3,8% | | Lago Sul/Norte | 890 | 856 | -3,8% | | Ceilândia | 6.780 | 6.990 | +3,1% | | Samambaia | 4.520 | 4.660 | +3,1% | | Recanto das Emas | 2.880 | 2.970 | +3,1% | | Sol Nascente | 2.340 | 2.466 | +5,4% | | Demais RAs | 22.150 | 22.256 | +0,5% |
A taxa de fecundidade total do DF é de 1,58 filho por mulher — abaixo da reposição (2,1), mas acima da média das capitais brasileiras (1,42). Nas RAs periféricas, a taxa estimada pela Codeplan é de 1,92.
No Plano Piloto, 1,08.
O que esses números dizem? Que a periferia brasiliense ainda acredita em família grande — ou pelo menos em família.
Que a decisão de ter filhos não obedece à lógica econômica pura. Que existe um valor transmitido entre gerações, em comunidades onde a igreja, o vizinho e a avó ainda têm influência, que resiste à pressão cultural pela não-reprodução.
Não estou fazendo apologia da pobreza. Estou dizendo que a fecundidade não é apenas uma variável econômica.
É também cultural, espiritual e comunitária. E no DF, as comunidades onde esses três fatores são mais fortes são exatamente as que mantêm a natalidade.
A fé resiste ao algoritmo
O Datafolha de dezembro do ano anterior mediu: 74% dos brasilienses declaram frequência religiosa ao menos quinzenal. A proporção é praticamente idêntica à de 2019 (75%).
Em seis anos — que incluíram pandemia, isolamento, explosão de redes sociais e polarização política —, a frequência religiosa no DF não caiu. No Brasil como um todo, a queda foi de 4 pontos percentuais (de 72% para 68%).
A composição mudou. Os evangélicos cresceram de 28% para 34% da população do DF.
Os católicos caíram de 48% para 41%. Sem religião subiram de 11% para 14%.
Espíritas e outras religiões permaneceram estáveis.
O que não mudou: o percentual total de pessoas que frequentam algum espaço religioso regularmente. A fé migrou de denominação, mas não desapareceu.
Nas RAs periféricas, a presença é ainda mais acentuada. Em Ceilândia, 81% declaram frequência religiosa regular.
Em Samambaia, 79%. No Sol Nascente, 83%.
Esses números incomodam uma certa intelectualidade que trata a religião como resíduo pré-moderno. Mas os dados não mentem.
A periferia de Brasília reza — e reza mais do que o Plano Piloto, onde a frequência religiosa é de 58%.
O algoritmo das redes sociais empurra conteúdo individualista, hedonista, descartável. A igreja — qualquer que seja — oferece comunidade, pertencimento, propósito e compromisso.
É uma disputa desigual, e a fé está vencendo.
Família como instituição de confiança
A PDAD da Codeplan (2024) incluiu uma pergunta sobre instituições de confiança. Os resultados:
| Instituição | Confiança alta ou muito alta | |-------------|------------------------------| | Família | 68% | | Igreja/comunidade religiosa | 47% | | Forças Armadas | 41% | | Escola pública | 38% | | Judiciário | 22% | | Congresso Nacional | 11% | | Partidos políticos | 7% |
A família lidera com folga. Não é sentimentalismo — é dado.
O brasiliense confia mais na estrutura familiar do que em qualquer instituição pública.
Isso tem implicações práticas. Políticas públicas que fortalecem a família — habitação para casais jovens, creche, escola integral, saúde materno-infantil — geram mais adesão e mais resultado do que políticas que tratam o indivíduo como unidade isolada.
A governadora Celina Leão sancionou, na primeira semana de governo, a ampliação do programa Cartão Material Escolar para famílias com três ou mais filhos na rede pública. Pequeno gesto, grande sinal: o GDF reconhece que a família existe, que a família é a base e que a família merece suporte estatal.
O que os dados pedem
Não pedem que voltemos aos anos 1950. Pedem que paremos de tratar a família como problema a ser superado e comecemos a tratá-la como infraestrutura social a ser fortalecida.
Os divórcios estão caindo. A natalidade resiste nas periferias.
A fé permanece. A confiança na família lidera qualquer pesquisa.
Esses dados não se encaixam na narrativa progressista de dissolução inevitável. E tudo bem.
Os dados não existem para confirmar narrativas. Existem para revelar a realidade.
E a realidade do DF é que a família brasiliense está viva, adaptada e resistente.
Quem quiser fortalecer o tecido social do Distrito Federal precisa partir dessa base. Não de ideologia. De dado.
A família brasileira já sobreviveu à escravidão, à migração forçada, à ditadura, à hiperinflação e à pandemia. Vai sobreviver ao algoritmo.
Pastor Josué Almeida é líder comunitário e colunista do Mirante News. Escreve sobre família, valores e demografia a partir de uma perspectiva conservadora fundamentada em dados públicos.
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