
Mirante News
A cidade sem esquinas: a crônica do brasiliense que não sabe dar endereço
Uma crônica sobre a capital em que o endereço é um enigma cifrado — SQN 406, bloco C, apartamento 203 — e sobre o que essa geografia diz a respeito do brasiliense.
Confesso ao leitor que durante anos tentei decifrar o endereço dos meus correspondentes brasilienses sem sucesso apreciável. Dizia-me um deles, por carta, que residia na SQN 406, bloco C, apartamento 203.
Imaginei, na ocasião, que SQN fosse algum sobrenome francês — talvez Saint-Quentin, com a vogal final perdida pelo correio. Descobri depois, com alguma humilhação, que se tratava de Superquadra Norte.
E que o 406 não era número de rua, mas coordenada. E que, para o brasiliense, explicar endereço a forasteiro é exercício de paciência comparável ao de Sísifo.
Há cidades que se deixam andar. Brasília, não. Brasília se deixa decifrar.
O mapa que não cabe na cabeça
O visitante que chega ao Plano Piloto traz na bagagem a expectativa natural de encontrar ruas, avenidas, esquinas — aqueles objetos urbanísticos que a humanidade inventou para dar nome às coisas e endereço aos homens. Encontra, em troca, letras maiúsculas e números.
L2, W3, S1, N1. E mais: SHCS, SCLN, SCES, SGAN.
O brasiliense, que nasceu naquilo, recita essas siglas com a mesma naturalidade com que os romanos dizem Piazza Navona.
Para quem vem de fora, soa a código militar. Para quem mora, soa a lar.
Entre essas duas percepções, meio século de cidade.
Contam os manuais — e os manuais, como se sabe, mentem pouco quando falam de arquitetura — que Lúcio Costa projetou Brasília como um avião. Ou uma cruz.
Ou um pássaro. As metáforas variam conforme o biógrafo e o humor do arquiteto naquele instante.
O certo é que, sob qualquer dessas figuras, o resultado prático é uma cidade onde a lógica é cartesiana, mas a vivência é lírica.
O pedestre que se perde
Observe o leitor uma cena corriqueira: certo senhor de Goiânia, de visita à filha estudante da UnB, estaciona o automóvel na SQS 307 e pergunta a um transeunte onde fica a padaria da 308. O transeunte, brasiliense de quatro gerações, aponta o horizonte com a naturalidade de quem indica a casa do vizinho.
— É logo ali. Você atravessa o eixinho, passa pela entrequadra, entra pela lateral do comércio local. Não tem erro.
O senhor de Goiânia agradece, parte na direção indicada, e some. Reaparece quarenta minutos depois, suando, do lado contrário.
Descobriu que o eixinho é uma via, que a entrequadra é um jardim, e que o comércio local não é comércio nem local — é um bloco de lojas escondido atrás de árvores, acessível por escada que ninguém sinalizou. A padaria, ao final, encontrou-se.
Mas o senhor jurou, aos santos de sua devoção, jamais voltar ao Plano Piloto sem aplicativo de mapa.
O brasiliense sorri dessas histórias. Acha graça de ver o visitante perdido como quem acha graça de ver peixe fora d'água.
Esquece que ele próprio, se despachado a uma cidade com nomes de rua, pergunta onde fica a Rua 7 de Abril e parte em linha reta, como quem confia demais no número.
O endereço como genealogia
Há, no endereço brasiliense, uma coisa curiosa que poucos observadores perceberam: ele é genealógico. Diz mais da pessoa do que do lugar.
Quem mora na SQS 107 não mora apenas na Asa Sul — mora próximo ao eixo, em quadra arborizada, com comércio local estabelecido e escola pública razoável. Já o morador do SGAN 905 habita a Setor de Grandes Áreas Norte, zona de condomínios, prédios mais novos, clientela com perfil de renda diverso.
O leitor atento repara: não falo de geografia apenas. Falo de sociologia.
| Localização | Perfil predominante | Observação social | |-------------|---------------------|-------------------| | SQS 100–200 | Classe média estabelecida | Gerações antigas, comércio consolidado | | SQN 400–700 | Funcionários públicos federais | Proximidade do Setor Bancário Norte | | SHIS Lago Sul | Alta renda | Residencial unifamiliar, condomínios | | Park Way | Alta renda rural | Chácaras, distância do Plano | | Águas Claras | Classe média verticalizada | Cidade-dormitório do DF, metrô | | Ceilândia | Classe popular empreendedora | Maior concentração de MEIs do DF | | Sol Nascente | Periferia em expansão | Maior aglomerado subnormal do país |
O endereço, portanto, não localiza apenas. Declara. E é nisso que a cidade revela a sua alma.
A sigla como sotaque
Já observei, em longas conversas com brasilienses nascidos aqui, que a fluência nas siglas funciona como espécie de sotaque. Quem confunde SQN com SQS passa por forasteiro.
Quem chama Plano Piloto de centro é suspeito. Quem diz avenida em vez de eixo compromete a origem.
Há, nisso tudo, um orgulho discreto. O brasiliense sabe que mora numa cidade jovem — sessenta e seis anos apenas, ou seja, menos que a vida média do vinho do Porto —, e que, portanto, não herdou tradição profunda.
Em troca, inventou um vocabulário próprio. A cidade compensou a falta de séculos com um esperanto geográfico.
E é quase comovente ver como se apega a ele. Candango antigo entra em quadra nova e reconhece: pé-direito alto, piloti aberto, blocos rebocados, jardim com ipê.
Faz fotografia mental que nenhuma rua paulistana ou carioca faz.
O que a ausência de esquina explica
Mas há também o que a cidade nega. Brasília foi pensada para não ter esquinas — e uma cidade sem esquinas é uma cidade sem o encontro casual.
Na esquina se cruza o vizinho, se esbarra no antigo colega, se pergunta o preço do pão ao padeiro que conhece o nome da filha. Na superquadra, não.
Lá o encontro é deliberado: você vai buscar, você marca, você combina.
Esse é talvez o maior enigma sociológico da capital. O brasiliense mora perto de tudo e encontra ninguém.
A conveniência física não produz convivência urbana. O plano foi tão perfeito na separação de funções — morar aqui, trabalhar ali, comprar adiante, lazer acolá — que a vida ficou compartimentada por decreto.
Observei esse fenômeno e achei graça. Em cidades antigas, o homem reclama da falta de planejamento.
Aqui, reclama-se do planejamento em excesso. Lúcio Costa terá, com certeza, rido de si mesmo no além ao constatar que o sucesso da sua obra reside parcialmente no incômodo que ela produz.
O endereço como poema
O leitor dirá: e as invasões? O leitor dirá: e as regiões administrativas? O leitor dirá: e a periferia que não cabe no plano?
Cabe, sim. Essa é a reviravolta.
A Brasília que Lúcio Costa desenhou é hoje uma fração — talvez menos de dez por cento — do aglomerado urbano que leva seu nome. O resto — Ceilândia, Taguatinga, Samambaia, Gama, Planaltina, Sobradinho, Águas Claras, Sol Nascente, Itapoã — cresceu à margem do desenho, e aí, curiosamente, recuperou as ruas, as esquinas, os nomes.
Ceilândia tem avenidas com nomes de árvores. Sobradinho tem praças.
Taguatinga tem comércio de calçada.
É como se o brasiliense, depois de nascer numa cidade de siglas, tivesse voltado ao hábito antigo de chamar as coisas pelo nome. A periferia deu à capital o que o plano não previra: o cotidiano.
E é ali, nessas regiões que os livros de arquitetura quase não mencionam, que mora hoje a maior parte da população do Distrito Federal. Três milhões de pessoas com endereço compreensível.
Ou seja, a cidade real venceu a cidade desenhada — não por rebeldia, mas por necessidade.
A última metáfora
Encerro estas observações lembrando uma cena que vi, ainda recentemente, num almoço de família no Lago Sul. Um menino de dez anos, nascido no DF, tentava explicar à prima paulistana onde ficava sua escola.
Dizia ele: CEM 01 do Plano Piloto, entrada pela L2 Sul, paralela ao Eixão, perto da igrejinha. A prima arregalava os olhos, como quem assiste a alguém recitar sanscrito.
A avó, que assistia à conversa, interveio com a sabedoria dos que já atravessaram muitas décadas:
— Explica assim, menino: é perto do parquinho do elefante de pedra.
A prima entendeu na hora.
Eis o brasiliense de que falo: o habitante de uma cidade que, depois de inventar um vocabulário próprio para descrever a si mesma, ainda precisa, no fim das contas, recorrer ao elefante de pedra para se fazer entender. É dessas contradições que se fazem as cidades.
E é delas que se fazem as crônicas.
Coluna de opinião. Reflexão ensaística sobre a geografia simbólica de Brasília. As observações da persona histórica são ficcionais e não representam posições do Mirante News. Produzido por inteligência artificial com supervisão editorial.
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