
Caderno de Rubem Braga em exposição na Academia Brasileira de Letras. Foto: ABL/Acervo.
A crônica brasileira morreu em 1985 — e ninguém foi ao enterro
A crônica brasileira morreu, segundo este cronista, no dia 19 de dezembro de 1990, com a morte de Rubem Braga. Mas a doença era anterior. Já estava lá quando, em 1985, o último jornal de circulação nacional decidiu publicar uma crônica diária na primeira página. Não houve velório. Nem flores. Apenas o silêncio educado das redações que substituíram o gênero por colunas de opinião e por aquilo que o leitor moderno chama, com piedade involuntária, de comentário.
Confesso que escrevo isto a contragosto. Cronistas, mesmo os mortos há mais de cem anos, têm pelo gênero uma espécie de vínculo familiar — somos todos primos distantes daquele mesmo tio excêntrico que se sentava à janela do bonde e descrevia as senhoras do Largo do Machado.
O que a presente nota pretende não é elegia. É inventário.
Quem leva o inventário sabe que primeiro precisa contar os objetos da casa, depois decidir o que fazer com eles. Façamos a contagem.
O que era a crônica
A crônica foi, durante cem anos, o gênero mais brasileiro de todas as letras nacionais. Diferente do conto, que pertence ao mundo, e da poesia, que pertence à eternidade, a crônica pertencia ao dia.
Nascia na primeira página do jornal, vivia o tempo de um café e desaparecia no fundo da gaveta de algum leitor sentimental. Era curta — entre quarenta e oitenta linhas.
Era leve — porque o jornal não suportava densidade. Era observadora — porque o cronista não tinha tese; tinha olho.
Tive eu próprio o privilégio de cultivá-la sob o nome de Lélio, Manassés, Eleazar e outros pseudônimos que me poupavam do constrangimento da fama. Escrevia para a Gazeta de Notícias, depois para a Semana.
Cobrava por linha. Não me arrependo do dinheiro nem do pseudônimo.
A geração que segurou a casa
O século vinte produziu uma plêiade de cronistas que, hoje, parece quase mitológica. Listo-os por geração e por jornal de origem, com a cautela de quem sabe que toda lista é injusta:
| Cronista | Período | Jornal | |---|---|---| | Rubem Braga | 1932-1990 | Diário de Notícias, Última Hora | | Carlos Drummond de Andrade | 1954-1984 | Correio da Manhã, JB | | Paulo Mendes Campos | 1945-1991 | Diário Carioca, Manchete | | Fernando Sabino | 1952-2004 | JB, Folha | | Stanislaw Ponte Preta | 1945-1968 | Última Hora | | Rachel de Queiroz | 1944-2003 | O Cruzeiro, Diário de Notícias | | Cecília Meireles | 1936-1964 | Diário de Notícias |
Esta tabela é incompleta, deliberadamente. Faltam Henrique Pongetti, Otto Lara Resende, Carlos Heitor Cony em sua fase áurea, Luís Martins, Antonio Maria.
Faltam, sobretudo, os que foram esquecidos pelo simples fato de que crônica é gênero perecível: dura o tempo do papel-jornal e da memória do leitor.
Como morreu
A morte da crônica não foi súbita. Foi por inanição.
Identifico quatro causas, das quais nenhuma é, isoladamente, responsável.
A primeira é o tamanho dos jornais. Em 1955, um jornal carioca tinha em média vinte páginas.
Em 1985, tinha sessenta. O cronista, que ocupava um espaço fixo na primeira ou segunda página, foi sendo empurrado para o caderno de variedades, depois para o suplemento literário de domingo, depois para a página dois do segundo caderno, depois para nada.
A segunda é a coluna de opinião. A coluna política, instalada em definitivo no jornalismo brasileiro durante a redemocratização, ofereceu ao leitor moderno aquilo que ele queria: tese, polêmica, identificação ideológica.
A crônica, que recusava tese por princípio, perdeu o terreno por não saber gritar.
A terceira é o cronista virar colunista. Fernando Sabino virou colunista.
Carlos Heitor Cony virou colunista. Luis Fernando Verissimo, que talvez tenha sido o último cronista de circulação nacional, virou colunista também — e a partir do momento em que a coluna passou a exigir posição diante dos fatos políticos, o tom de janela de bonde tornou-se inviável.
A quarta é o tempo do leitor. O leitor de jornal de 1955 lia o jornal por uma hora.
O leitor de 1985 lia por vinte minutos. O leitor de 2026 não lê mais jornal — lê pedaços de jornal, ricocheteados por algoritmos.
A crônica precisava do tempo solto entre o café e o segundo cigarro. Ninguém mais tem esse tempo.
Nem cigarro.
O que tomou o lugar
No espaço deixado pela crônica, instalaram-se outros gêneros. O comentário breve, que finge ser análise.
A coluna de opinião, que finge ser cronista. O texto de blog, que finge ser literário.
A newsletter, que finge ser carta. O fio de Twitter, que finge ser todas essas coisas ao mesmo tempo.
Nenhum deles é desprezível, mas nenhum deles tem o defeito principal da crônica — aquele defeito que era também sua maior virtude: a inutilidade absoluta.
A crônica não servia para nada. Não informava, porque o jornal já informava ao lado.
Não opinava, porque o editorial já opinava acima. Não denunciava, porque a denúncia ficava na página policial.
Era apenas um senhor olhando uma cena e contando-a com dois ou três adjetivos bem escolhidos. Era um exercício diário de inutilidade pública.
E justamente por isso, formava leitor.
Tentativas de ressurreição
Houve tentativas, registre-se. O Estado de S.
Paulo manteve crônicas dominicais de Ignácio de Loyola Brandão até 2012. A Folha publicou Antônio Prata até a virada da década.
A revista Piauí, fundada em 2006, deu hospedagem a textos longos que tinham parentesco oblíquo com o gênero. Os blogs literários dos anos 2000 — Trezentos, Ovelha Rosa, Sibila — tentaram um renascimento digital.
O Instagram, recentemente, viu cronistas amadores se aproximarem do tom rubembraguiano em legendas curtas.
Nada disso é crônica no sentido pleno. Falta a periodicidade diária, falta o jornal de papel, falta a página fixa, falta o leitor cativo que esperava aquele autor naquela hora daquela manhã.
A crônica era um pacto de dois — cronista e leitor — costurado pelo jornal. Quando o jornal ruiu, ruiu o pacto.
O que fica
Fica uma biblioteca enorme. Uma biblioteca que praticamente ninguém lê fora da universidade, e que dentro da universidade é tratada como literatura menor.
Fica também uma lição que talvez seja a única razão para esta crônica sobre a morte da crônica: gêneros morrem quando deixam de ser necessários, mas o leitor que eles formaram permanece. Algum cronista futuro, armado de tablet ou de coisa pior, talvez recupere o gesto.
Não a forma — essa morreu mesmo, e não há por que ressuscitá-la — mas o gesto. O gesto de olhar pela janela do bonde e contar o que viu.
Contar com poucos adjetivos. Contar sem tese.
Contar como quem não tem nada melhor a fazer naquele dia, e por isso mesmo está, finalmente, fazendo a coisa mais importante do dia: olhando.
Score Hipnótico-Editorial
Transparência radical do framework editorial
Avaliação determinística baseada em 12 dimensões científicas
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