
Mirante News
Do senador que, de repente, descobriu a periferia
Há poucos dias li, num periódico da manhã, a notícia de que certo senador da República havia, enfim, descoberto a existência de Ceilândia. Confesso a minha surpresa: não pelo descobrimento em si — esses, no Brasil, fazem-se de quatro em quatro anos — mas pela franqueza com que os jornais lhe atribuíram a qualidade de novidade.
Há poucos dias li, num periódico da manhã, a notícia de que certo senador da República havia, enfim, descoberto a existência de Ceilândia.
Confesso a minha surpresa: não pelo descobrimento em si — esses, no Brasil, fazem-se de quatro em quatro anos — mas pela franqueza com que os jornais lhe atribuíram a qualidade de novidade.
Como se Ceilândia fosse, antes dos discursos de sua excelência, uma terra incógnita, aguardando apenas a vela da caravela do gabinete.
Ora, ora. O leitor amigo há de convir comigo que não há, em toda a história das repúblicas, ofício mais antigo do que o de descobrir, na véspera da urna, um bairro que se atravessava sem ver.
Esse ofício, a rigor, não é de hoje. Vem dos romanos, atravessou a monarquia, acompanhou o Império brasileiro de gabinete em gabinete, instalou-se na República com ares de novidade e chegou a Brasília em transferência confortável, como quem muda apenas o endereço sem mudar o hábito.
O nosso senador não descobriu coisa alguma. Apenas lembrou-se, no tempo certo, de que existia.
De como o detalhe faz a crônica
Dirá o leitor — e tem razão — que estou a ser injusto.
Talvez o homem tenha, de fato, entrado pela primeira vez num beco do P Sul e sentido, no peito, uma espécie de remorso tardio. Pode ser.
Não nego aos homens públicos o direito à emoção súbita. Nego-lhes apenas a pretensão de que a emoção súbita seja juízo político. Quem se comove em março e se esquece em junho não descobriu a periferia: descobriu a câmera.
É aí que a crônica — este gênero menor, a que me entreguei sem remorso — ganha, às vezes, utilidade.
Pois enquanto a reportagem registra o gesto, e o editorial lhe faz a louvação, o cronista apanha o pormenor.
E o pormenor, no episódio em questão, era este: o automóvel de sua excelência entrou na rua de terra com os vidros fechados.
Não o digo por maldade; digo-o porque assim saiu publicado numa nota a que poucos deram atenção.
Os vidros fechados, leitor, são um detalhe cheio de filosofia. Significam que o senhor senador estava disposto a ver, mas não a respirar. Disposto a olhar a paisagem, mas não a entrar nela.
Da pátria que viaja no porta-malas
Tenho para mim que a política brasileira se divide, a rigor, em duas espécies de homens.
Os que trazem a pátria dentro do peito — aqueles poucos — e os que a trazem dentro do porta-malas.
Estes últimos são maioria, e reconhecem-se facilmente. Viajam com ela fechada. Param o carro para abri-la apenas diante das câmeras. Distribuem o conteúdo em doses calculadas. Fazem a volta, fecham o porta-malas de novo e retornam a Brasília queixando-se da poeira.
A pátria, para eles, é uma bagagem. Carrega-se, abre-se, apresenta-se, guarda-se.
Não é, note bem, que lhes falte sinceridade. A sinceridade, em certos ofícios, é como a fé em certas igrejas: exige-se dela apenas que apareça na hora do rito.
O senador que desceu do automóvel em Ceilândia terá, possivelmente, sentido algo real — uma pontada, uma dúvida, um arrepio do fundo da consciência.
E terá, também com toda sinceridade, esquecido a pontada no mesmo dia, ao sentar-se à mesa do restaurante do Lago Sul onde costumeiramente se almoçam os grandes propósitos.
A sinceridade, nesses casos, é intermitente. Funciona como as lâmpadas antigas: dá um clarão, escurece, dá outro clarão.
Um parêntese que peço ao leitor não pular
Permita-me o leitor uma digressão, dessas que os manuais de boa prosa desaconselham e que eu, por teimosia de velho cronista, nunca soube evitar.
Há, na nova capital, uma categoria de intelectual — creio não ser o único a notá-lo — que escreve longos ensaios sobre a desigualdade, recheados de gráficos e de compaixão, e que atravessa a ponte do Lago Sul rumo ao Plano Piloto sem jamais desviar o olhar para o lado direito da janela.
Esse intelectual e aquele senador de que vos falo são primos em segundo grau.
O primeiro descobre a periferia no ensaio. O segundo, no comício.
Ambos a perdem de vista assim que termina o prazo.
Fim do parêntese — e volto.
Do ritual que se repete
O que me diverte, e ao mesmo tempo me entristece, é a regularidade astronômica do fenômeno.
Há um calendário, leitor, tão preciso quanto o da lua cheia: em março dos anos eleitorais, os gabinetes começam a enviar assessores às regiões administrativas.
Em abril, chegam os senadores. Em maio, os deputados federais. Em junho, os distritais. Em julho, os candidatos a todos os cargos inferiores e superiores.
Cada um traz consigo um cesto de promessas, uma equipe de fotografia e a mesma frase, repetida com pequenas variações: precisamos ouvir o povo.
E o povo, que de tanto ouvir aprendeu a falar pouco, ouve. Ouve de pé, ouve com paciência, ouve sem interromper — porque sabe que o ritual não admite interrupção.
O orador fala, o povo ouve, a fotografia se faz, o comboio parte.
E o bairro, esse mesmo bairro, volta à escuridão administrativa de onde foi temporariamente resgatado.
Do que fica, e do que não fica
Dirá o otimista que alguma coisa fica sempre. Um asfalto aqui, uma creche acolá, uma promessa cumprida por distração.
É verdade. Não sou tão desesperançoso quanto parece.
O que me inquieta é outra coisa: é que se habituou o povo a esperar a caravana em vez de exigir a obra.
Habituou-se a trocar a política pelo espetáculo da política — transação em que quem paga os impostos leva sempre a pior.
E aqui, leitor amigo, já me estendi mais do que a semana comporta.
Fecho, pois, com a única imagem que me ocorre, e que vi na própria nota do jornal que deu origem a estas mal traçadas linhas: ao sair do bairro, o automóvel de sua excelência deixou, numa poça seca, a marca de um pneu fundo e largo.
Os meninos do lugar, segundo o repórter, ficaram um bom tempo a olhá-la, como quem decifra um hieróglifo recém-escavado.
Talvez estivessem tentando entender o que significava aquela marca.
Ou talvez, quem sabe, estivessem apenas calculando, com a sabedoria precoce dos que crescem rápido, quantos meses faltavam para o próximo automóvel passar por ali.
A resposta não me pertence — e o espaço da coluna, tampouco.
Até a próxima semana, se o mundo e o jornal assim permitirem.
Score Hipnótico-Editorial
Transparência radical do framework editorial
Avaliação determinística baseada em 12 dimensões científicas
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