
Mirante News
A grã-fina do Lago Sul descobriu a pobreza (e virou unanimidade)
Amigos, digo e repito: a grã-fina do Lago Sul descobriu a pobreza. E como toda descoberta feita por grã-finagem, esta também chegou atrasada, chegou gritando e chegou com fotógrafo. O povo, coitado, já estava lá desde antes do concreto. Mas ninguém tinha visto. Ou melhor: ninguém tinha precisado ver.
Amigos.
Tenho uma anedota para começar, como sempre tenho. Anedota é o único jeito decente de contar uma verdade no Brasil. Vai aí.
Conheci, lá pelos idos do mês passado, uma senhora do Lago Sul. Senhora de bem. Marido diplomata, casa com piscina, cachorro com nome francês.
Pois bem: a dita senhora apareceu, num certo evento beneficente na Asa Norte, carregando um livro debaixo do braço. Não sei qual. Era um livro qualquer sobre desigualdade social, desses que se compram no aeroporto e se esquecem no bidê.
E a senhora, amigos, estava radiante. Radiante.
Por quê?
Porque tinha, naquela tarde mesma, descoberto a pobreza.
O óbvio ululante
É aqui que entra o óbvio ululante. E o óbvio ululante, já disse e repito, é a verdade que grita tão alto que só os surdos de conveniência conseguem não escutá-la.
A pobreza existe em Brasília desde que Brasília existe.
Ceilândia é de 1971. Estrutural é mais velha que muito bacharel de toga. O Sol Nascente abriga mais famílias do que certos municípios inteiros do interior. A fila do hospital regional de Samambaia começa às quatro da manhã e ninguém precisa de livro de aeroporto para saber disso.
Mas a senhora do Lago Sul não tinha descoberto ainda. Porque não era assunto do seu salão.
E eis que, de repente, virou.
Virou porque entrou na moda. Virou porque alguém famoso tuitou. Virou porque o filho, recém-chegado de um intercâmbio em Portugal, usou a palavra privilégio duas vezes no jantar. E quando uma palavra dessas entra num jantar do Lago Sul, amigos, ela não sai mais sem levar consigo um cheque para alguma fundação.
A caridade que não quer curar
Eu conheci, tempos atrás, uma outra categoria de gente. Gente boa. Gente que ajudava sem dizer.
Ajudava o porteiro do prédio porque o porteiro ficou doente. Ajudava a empregada porque a empregada tinha filho pequeno. Era uma ajuda feia, silenciosa, encabulada até. Ninguém fotografava. Ninguém escrevia post no Instagram com legenda emotiva.
Essa gente não existe mais, amigos. Ou existe, e eu é que não sei encontrá-la.
O que substituiu essa gente foi a caridade do palco. A caridade do palco é coisa muito diferente. Ela não quer aliviar a pobreza alheia. Ela quer aliviar o incômodo moral do caridoso.
É egoísmo vestido de cetim. É narcisismo de saída de banho.
E o pior: é unanimidade. Unanimidade absoluta. Ninguém tem coragem de dizer em voz alta o que eu estou dizendo aqui, porque dizer isso é ser chamado de insensível, de frio, de reacionário. (Sou, aliás. Reacionário assumido. Mas o problema não é esse.)
O problema é outro. O problema é que a unanimidade, como eu nunca me canso de repetir, é burra. Burra de uma burrice eterna, absoluta, irredutível.
O canalha é sempre vizinho
Vou contar outra. Esta é mais rápida.
Conheci um deputado que adorava discursar sobre a fome. Na tribuna, era um profeta. Chorava, batia na mesa, citava Aristóteles (errado, mas citava).
O mesmo deputado tinha, em casa, uma empregada chamada Francisca. Francisca ganhava um salário mínimo e meio para cuidar de três crianças, cozinhar, lavar, passar e atender a porta.
Um dia Francisca pediu aumento. Foi demitida no dia seguinte. Sem justa causa, sem aviso, sem nada.
No dia seguinte ao da demissão, o deputado subiu à tribuna e fez mais um discurso sobre a fome. Os colegas aplaudiram. O jornal da manhã seguinte chamou-o de estadista.
Amigos: o canalha é sempre vizinho. O canalha é sempre o que discursa bonito. O canalha é sempre o que tem três causas sociais no perfil da rede social e uma empregada que chora no ônibus da volta pra casa.
Eu, que sou um reacionário, um reaça dos diabos, desconfio mortalmente de quem fala bonito demais sobre a pobreza alheia. Desconfio por experiência. Desconfio porque sempre que vi um desses me aproximar do microfone, tinha alguém pequeno levando porrada por baixo do palco.
O intelectual de Pilatos
E agora o terceiro personagem. Sem ele, o retrato fica incompleto.
É o intelectual de Pilatos.
O intelectual de Pilatos é o que escreve livro sobre a desigualdade, dá entrevista sobre a desigualdade, assina manifesto sobre a desigualdade e, no final, lava as mãos sobre a desigualdade porque é uma questão estrutural.
Estrutural. Que palavra conveniente.
Estrutural quer dizer: eu não preciso fazer nada, porque o problema é grande demais pra um indivíduo resolver. Estrutural quer dizer: a culpa é sempre de outro, de algum sistema abstrato, de alguma coisa impessoal que ninguém viu de perto.
Estrutural é o álibi perfeito do canalha intelectual. Porque libera o sujeito de qualquer compromisso concreto.
O deputado da minha segunda anedota, a senhora da primeira, e o intelectual de Pilatos deste parágrafo são todos, amigos, a mesma pessoa. São três rostos de um só personagem — o personagem central da nossa tragédia cívica.
Um personagem que eu, no teatro, chamaria de Vestido de Noiva da Caridade. Mas como isto aqui não é teatro, chamo pelo nome reto: exibicionismo moral.
E é só
Amigos, vou fechar.
A pobreza em Brasília não precisa ser descoberta. Ela precisa ser olhada. Olhada com vergonha, não com livro de aeroporto. Olhada com compromisso, não com foto. Olhada todo dia, e não apenas quando entra na moda.
Enquanto a grã-finagem do Lago Sul continuar descobrindo a pobreza a cada estação do ano como quem descobre uma coleção nova de outono-inverno, o povo de Ceilândia e do Sol Nascente vai continuar sendo o que sempre foi: o pano de fundo do próximo post emocionado.
Eu já disse e repito: toda unanimidade é burra.
A unanimidade atual em torno da caridade performática é a mais burra das burras. Porque é a única que consegue olhar para o pobre e ainda falar, no fundo, só de si mesma.
E é só.
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