
Estúdio caseiro de podcast no Noroeste durante gravação. Foto: Divulgação/Cedida.
A gravação de podcast que começou no Noroeste e virou audiência nacional: os novos influencers do DF
No quinto andar de um prédio residencial da Quadra 3 do Noroeste, atrás de uma porta que antes era um quarto de visitas, funciona um estúdio de podcast com tratamento acústico, três câmeras 4K, mesa de som Rodecaster Pro II e um sofá de couro onde já sentou, no último ano, ministro do STF, campeão olímpico e humorista de Globo. O programa se chama Brasília em Pauta, tem 180 mil ouvintes por episódio e começou em 2022 com dois amigos e um microfone USB.
No quinto andar de um prédio residencial da Quadra 3 do Noroeste, atrás de uma porta que antes era um quarto de visitas, funciona um estúdio de podcast com tratamento acústico profissional, três câmeras 4K, iluminação LED regulável, mesa de som Rodecaster Pro II e um sofá de couro onde sentaram, no último ano, um ministro do STF, um campeão olímpico de vôlei, um humorista contratado da Globo, dois senadores, um chef com estrela Michelin e uma modelo internacional. O programa se chama Brasília em Pauta, tem média de 180 mil ouvintes por episódio no Spotify e começou em 2022 com dois amigos, um microfone USB de R$ 400 e uma parede forrada com caixa de ovo.
Três anos depois, faturou mais de R$ 1,9 milhão em patrocínios em 2025, segundo os próprios donos.
Não é exceção. É um retrato da cena.
Brasília descobriu o microfone
Brasília virou, entre 2022 e 2025, uma das principais praças de podcast do Brasil. O Kantar Ibope Media, em seu estudo sobre consumo de podcast, mostrou que o DF tem hoje a terceira maior penetração proporcional do formato no país — 41% dos moradores entre 18 e 44 anos escutam pelo menos um podcast por semana, ficando atrás apenas de São Paulo e Florianópolis.
Não é só consumo. É produção.
Segundo levantamento da Codeplan sobre economia criativa, existem hoje pelo menos 86 podcasts ativos com base física de gravação no Distrito Federal. Desses, 22 faturam mais de R$ 30 mil por mês.
E ao menos dez entraram em 2025 no ranking dos 200 podcasts mais ouvidos do Brasil no Spotify Brasil — um salto enorme considerando que em 2022 nenhum programa com origem no DF figurava entre os cem primeiros.
A explicação tem vários eixos. O primeiro é o mais banal: Brasília tem, por natureza, acesso a fontes que outras cidades não têm.
Políticos, ministros, economistas, diplomatas, juristas, artistas em temporada oficial. Convidar alguém poderoso para uma gravação no DF custa um Uber.
Em São Paulo, custa uma passagem de avião e uma agenda de três semanas.
Os dez que viraram nacionais
A lista abaixo foi montada a partir das métricas públicas do Spotify for Podcasters, Apple Podcasts Charts e Podpesquisa 2025. Todos têm estúdio físico no Distrito Federal e equipe local.
| Podcast | Tema | Estúdio | Ouvintes médios/episódio | |---|---|---|---| | Brasília em Pauta | Entrevistas políticas e culturais | Noroeste | 180 mil | | Boteco do Cerrado | Humor e cultura candanga | Sudoeste | 152 mil | | Contraponto BSB | Economia e mercado | Lago Sul | 118 mil | | Rota 060 | Cerrado, natureza e turismo | Águas Claras | 97 mil | | Sala de Troféus | Esportes olímpicos | Asa Norte | 91 mil | | Mulheres na Mesa | Conversas femininas e carreira | Sudoeste | 88 mil | | Plano Piloto Podcast | Arquitetura, urbanismo e cidade | Asa Sul | 74 mil | | Fala, Jovem! | Empreendedorismo jovem | Águas Claras | 68 mil | | Território Central | Jurídico e Supremo | Lago Norte | 62 mil | | Noite Candanga | Música e lifestyle | Noroeste | 54 mil |
Os números são médias por episódio do último trimestre do ano anterior. Boteco do Cerrado, por exemplo, chegou a quase 400 mil num episódio de fevereiro de 2026 sobre o carnaval de rua de Brasília.
Contraponto BSB teve pico de 220 mil num episódio sobre a Selic. Sala de Troféus teve 310 mil durante a cobertura dos Jogos Olímpicos.
O estúdio do Noroeste visto por dentro
Na manhã da visita da reportagem, o Brasília em Pauta grava com um convidado: um ex-diretor da Anac. A mesa é redonda, de madeira clara, com quatro microfones Shure SM7B apontados em cruz.
As câmeras estão acopladas a braços mecânicos e controladas por um operador único que fica numa sala fechada ao lado, separada por vidro acústico. O ar-condicionado é silencioso — modelo de teto, cuidadosamente escolhido por decibelímetro.
A parede de fundo tem iluminação indireta âmbar e uma estante com livros jurídicos que funcionam só de cenário.
Os dois apresentadores são Lucas Andrade, 34 anos, ex-assessor parlamentar, e Rafael Queiroz, 31, jornalista formado pelo UniCeub. Os dois se conheceram num curso de extensão em 2019 e começaram o podcast em abril de 2022 gravando num apartamento alugado do Rafael, no Cruzeiro Velho.
O primeiro episódio teve 340 ouvidas. O centésimo, em dezembro de 2023, teve 89 mil.
A escalada veio com uma entrevista, em março de 2024, com um ministro do TSE durante o período eleitoral — a gravação viralizou no X e o episódio bateu 1,1 milhão de streams.
A equipe hoje é de sete pessoas: os dois apresentadores, um editor de vídeo, um de áudio, uma produtora de pauta, um gerente comercial e uma estagiária de comunicação da UnB. Todos em regime CLT.
O faturamento vem de três fontes: patrocínio fixo (cerca de 65% da receita), inserções pontuais (25%) e eventos presenciais com audiência (10%).
O custo invisível de começar
Quem entra na cena hoje, em 2026, já entra caro. Um estúdio caseiro profissional custa, por baixo, R$ 55 mil — microfones decentes (R$ 8 mil), mesa de som (R$ 6 mil), tratamento acústico da sala (R$ 12 mil), iluminação (R$ 9 mil), câmeras 4K (R$ 15 mil), computador de edição (R$ 7 mil).
Isso sem contar o aluguel da sala ou a marcenaria.
Mas a maior parte dos podcasters entrevistados começou muito mais barato. O Boteco do Cerrado, que hoje fatura cerca de R$ 140 mil por mês em patrocínios, começou em 2021 com dois microfones Samson Q2U de R$ 600 cada, um notebook e uma parede do quarto da filha de um dos apresentadores.
O Rota 060, voltado para cerrado e natureza, grava até hoje muitos episódios dentro de um carro estacionado em trilhas — o microfone lapela é o mesmo do primeiro episódio.
A produtora Ana Clara Lemos, do Mulheres na Mesa, resume o aprendizado da cena para esta reportagem: "Ninguém que começou com equipamento caro vingou. Quem vingou começou com o que tinha, errou muito nos dez primeiros episódios e ficou bom no vigésimo.
A cara do podcast é mais importante que o equipamento."
Como o dinheiro entra
A monetização é o assunto que mais mudou no exercício anterior. Até 2023, a maioria dos podcasts do DF vivia de patrocínio direto de empresas locais — construtoras, shoppings, hospitais, restaurantes.
A partir de 2024, entraram as redes nacionais. Hoje, quatro dos dez programas da lista têm anunciantes como Nubank, iFood, Mercado Livre, Claro, Vivo e Localiza.
O CPM médio (custo por mil impressões) dos podcasts de topo do DF no exercício anterior foi de R$ 85 — um pouco abaixo da média de SP e Rio, que ficou em R$ 110, mas bem acima da média nacional, que foi de R$ 42.
Os números do mercado nacional ajudam a entender o tamanho do bolo. O Kantar Ibope projetou o faturamento do setor de podcast no Brasil em R$ 860 milhões no exercício anterior — alta de 47% em relação a 2024.
O DF responde por cerca de 6% desse valor, segundo estimativas da Codeplan. É muito dinheiro para uma cena que cinco anos atrás não existia.
O que Brasília tem que ninguém tem
No fim de todas as entrevistas desta reportagem, a mesma pergunta: o que Brasília oferece que outras praças não oferecem? As respostas se repetem com pequenas variações.
Acesso a fontes. Cidade compacta.
Trânsito razoável. Aluguel mais barato do que São Paulo.
Universidades públicas fortes de onde sai mão de obra qualificada. Um público jovem, escolarizado, com tempo e renda.
E uma coisa que nenhum dos entrevistados soube nomear exatamente, mas que todos mencionaram: um ambiente cultural em que a conversa longa, pausada, bem feita, ainda importa. Brasília gosta de gente falando devagar e com cuidado.
É a cidade do Itamaraty, do Supremo, das bancas de doutorado, dos debates acadêmicos de três horas. Podcast é exatamente isso.
Nenhum dos dez programas citados acima existia em 2020. Em 2026, empregam juntos mais de 70 pessoas, geram mais de R$ 20 milhões em receita anual para o DF e colocam a cidade no mapa sonoro do país.
É uma indústria nova, barulhenta, ainda informal em muita coisa — e que está mudando o que Brasília exporta para o resto do Brasil.
Antes, exportava decisões. Agora, também exporta conversas.
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