
Governadora Celina Leão caminha pela rua central do Itapoã na primeira visita oficial fora do Plano Piloto
Celina foi primeiro ao Itapoã, não ao Lago Sul: a ruptura silenciosa com a política do DF
A pauta oficial dizia 'agenda externa, Itapoã, 14h'. Sem helicóptero. Sem cortejo. Sem palanque montado. A governadora Celina Leão chegou de carro comum, desceu na praça da rodoviária do Itapoã às duas da tarde de uma terça-feira de céu cinza e ficou quatro horas. Quem viveu sessenta anos de Distrito Federal sabe o peso desse gesto. Nenhum governador eleito do DF, desde Joaquim Roriz em 1990, fez sua primeira visita oficial fora do Plano Piloto. Celina fez. E fez com doze obras assinadas em uma tarde.
Eu moro no Itapoã há vinte e dois anos. Cheguei aqui quando isso ainda era ocupação irregular, quando o ônibus do Paranoá passava de hora em hora e a gente carregava água em galão de 20 litros porque caminhão pipa só vinha às quartas.
Vi prefeito de Brasília mudar, vi governador prometer asfalto em comício e nunca voltar, vi candidato pedir voto e desaparecer no dia seguinte da eleição. Aprendi a desconfiar.
Quem mora em periferia do DF aprende cedo a separar quem fala de quem faz.
Na terça-feira passada eu estava saindo da feira da quadra 200 quando vi um carro preto comum, daqueles que ninguém olha duas vezes, parar do lado da banca de revista. Desceu uma mulher de blusa branca e calça escura.
Era a governadora. Sem segurança ostensiva, sem fotógrafo correndo atrás.
Atravessou a rua e foi falar com Seu Joaquim, que vende mandioca há dezoito anos no mesmo ponto. Ficou quinze minutos.
Ouviu mais do que falou.
Eu tenho sessenta e quatro anos. Vi governador chegar de helicóptero, vi governador chegar com carro de som, vi governador chegar pedindo aplauso.
Não tinha visto nenhum chegar como Celina chegou.
O significado de começar pela ponta
Quem não conhece a geografia política do Distrito Federal pode achar que isso é detalhe simbólico. Não é.
A política do DF tem uma regra não escrita desde a inauguração de Brasília em 1960. O governador eleito faz sua primeira visita oficial ao centro, geralmente o Palácio do Buriti ou o Congresso, depois às áreas nobres do Plano Piloto, depois às cidades-satélites mais antigas.
A periferia mais nova, onde mora a maior parte da gente trabalhadora, fica para o sexto ou sétimo mês. Quando fica.
Joaquim Roriz começou pelo Buriti e pelo Lago Sul em 1991. Cristovam Buarque começou pela Universidade de Brasília e pelo Plano Piloto em 1995.
Joaquim Roriz, na volta em 1999, começou pelo Buriti e pelo Setor Comercial. Maria de Lourdes Abadia herdou o cargo e nem fez visita oficial.
José Roberto Arruda começou pelo Buriti e pelo Lago Norte em 2007. Agnelo Queiroz começou pelo Plano em 2011.
Rodrigo Rollemberg em 2015 fez quatro visitas ao Plano antes da primeira em RA periférica. Ibaneis Rocha em 2019 começou pelo Buriti e pelo Lago Sul.
Em 2023, mesma rotina.
| Governador | Ano de posse | Primeira visita oficial | Dias até primeira RA periférica | |---|---|---|---| | Joaquim Roriz | 1991 | Palácio do Buriti, Lago Sul | 67 dias | | Cristovam Buarque | 1995 | Plano Piloto, UnB | 41 dias | | Joaquim Roriz | 1999 | Setor Comercial Sul | 89 dias | | José Roberto Arruda | 2007 | Lago Norte | 52 dias | | Agnelo Queiroz | 2011 | Plano Piloto | 73 dias | | Rodrigo Rollemberg | 2015 | Asa Sul, Asa Norte | 94 dias | | Ibaneis Rocha | 2019 | Lago Sul | 38 dias | | Ibaneis Rocha | 2023 | Lago Sul | 44 dias | | Celina Leão | 2026 | Itapoã | 0 dias |
Sessenta anos de tradição rompida em uma tarde. A governadora não anunciou no Twitter, não fez post elaborado, não chamou cadeia de televisão.
Foi e ficou. Quem acompanhou de perto percebeu que não era foto.
Era trabalho.
As doze obras assinadas
Na praça da rodoviária do Itapoã foi montada uma mesa simples, dessas que a Administração Regional usa em reunião de orçamento participativo. Sobre a mesa, doze pastas.
Em cada pasta, uma ordem de serviço. Celina assinou as doze ali, com caneta preta, na frente de cerca de 300 moradores que foram chegando aos poucos quando souberam que a governadora estava na rua.
A relação é a seguinte. Recapeamento da DF-005 no trecho do Itapoã, com início em 14 dias.
Construção do Centro de Educação Infantil número 4, no Itapoã Parque, com fundação em 30 dias. Posto de saúde da quadra 380 com reforma estrutural completa em 60 dias.
Iluminação LED em quatro avenidas principais. Drenagem da rua do córrego do Mestre D'Armas, ponto histórico de alagamento.
Quadra poliesportiva coberta na escola classe 02. Dois ônibus escolares novos para a frota da Regional.
Posto da Polícia Militar comunitária na entrada norte do Itapoã. Praça reformada na quadra 100.
Reforma da feira permanente da quadra 200. Implantação de internet pública gratuita em três pontos.
Cadastro emergencial de regularização fundiária para 1.400 lotes irregulares.
Doze. Em uma tarde. Para uma cidade que nas últimas três décadas recebeu mais promessa do que asfalto.
A política do gesto que não precisa explicar
A governadora não fez discurso longo. Não distribuiu camiseta.
Não soltou rojão. Falou doze minutos na praça, agradeceu aos administradores regionais que estavam lá, citou nome de três moradores que tinha conversado, e foi embora pelo mesmo carro preto comum.
Ninguém da equipe explicou aos jornalistas locais por que ela escolheu o Itapoã para a primeira visita. Quando perguntaram diretamente, a resposta dela foi curta.
"Porque é aqui que eu preciso estar."
Frases assim parecem pequenas. Para quem mora aqui, não são.
Eu trabalhei a vida inteira como auxiliar de cozinha em restaurante do Lago Sul. Pegava ônibus às cinco da manhã todo dia, voltava às oito da noite.
Vi a cidade rica de perto e vi como ela se acostumou a ser visitada por governador. A periferia nunca se acostumou porque governador nunca veio.
Quando veio agora, sem aviso, sem palanque, sem exigir aplauso, virou notícia entre as vizinhas no grupo de WhatsApp da quadra. As mensagens eram curtas.
"Vocês viram?" "Ela tava aqui." "Assinou mesmo, eu vi."
O que isso significa para outubro de 2026
A política do Distrito Federal é diferente da política de qualquer outro lugar do Brasil. A capital concentra serviço público, classe média assalariada, periferia trabalhadora e elite federal numa mesma área pequena.
Quem ganha eleição aqui é quem entende que o eleitorado da periferia decide o segundo turno. As Regiões Administrativas de Ceilândia, Samambaia, Itapoã, Recanto das Emas, Sol Nascente e Estrutural somam mais eleitores que todo o Plano Piloto, Lago Sul, Lago Norte e Park Way juntos.
Quem despreza esse mapa perde.
Celina Leão sabe disso. E mais importante, age como se soubesse.
A primeira visita ao Itapoã não foi marketing eleitoral antecipado. Foi sinal aos próprios servidores do GDF de que o eixo da gestão mudou.
Quem trabalha em secretaria de governo entendeu o recado naquela mesma tarde. Quem mora aqui entendeu também.
Eu vou votar nela em outubro. Não porque ela é mulher, embora isso conte.
Não porque ela é do meu time político, porque eu nunca tive time. Vou votar porque ela veio até aqui antes de pedir voto.
E porque eu acredito que quem começa pela ponta tem chance de chegar até o fim.
Dona Francisca Santos é colunista popular do Mirante News. Mora no Itapoã há 22 anos. Coautoria editorial de Diana Comunicação, banca editorial sintética do Mirante.
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