
Corredores do Congresso Nacional em Brasília, onde circulam diariamente milhares de assessores parlamentares
O lobby invisível: 40 mil assessores parlamentares movem a economia de Brasília mais que qualquer indústria
Quarenta mil assessores parlamentares movimentam bilhões na economia do Distrito Federal todos os anos — e ninguém fala sobre isso. O verdadeiro motor de Brasília não usa paletó na tribuna: usa crachá no subsolo do Congresso.
O lobby invisível: 40 mil assessores parlamentares movem a economia de Brasília mais que qualquer indústria
Brasília tem uma indústria que não produz parafusos, não exporta soja e não aparece nos relatórios da Confederação Nacional da Indústria. Produz, contudo, algo mais valioso que qualquer commodity: influência.
E seus operários — quarenta mil assessores parlamentares — são o verdadeiro motor econômico desta capital que finge viver de outra coisa.
O deputado discursa. O senador vota. O assessor trabalha.
Eis a divisão do trabalho na República, tão antiga quanto a própria República. Mas ninguém a menciona nos manuais de economia regional.
O exército dos corredores
A Câmara dos Deputados emprega cerca de 12 mil assessores parlamentares entre efetivos e comissionados. O Senado, outros 5 mil.
Some os gabinetes de liderança, as consultorias legislativas, os órgãos de apoio, e o número ultrapassa 25 mil apenas no Legislativo federal. Acrescente os assessores da Câmara Legislativa do Distrito Federal, dos tribunais superiores, do Ministério Público, e o exército chega tranquilamente a 40 mil pessoas.
Quarenta mil pessoas que alugam apartamentos na Asa Norte. Que almoçam nos restaurantes do Setor Comercial Sul.
Que matriculam filhos em escolas particulares do Lago Sul. Que abastecem carros nos postos da W3.
Que frequentam academias, barbearias, dentistas e psicólogos espalhados pelo Plano Piloto.
Quarenta mil contracheques que caem na conta todo mês com a pontualidade que só o erário federal garante.
A economia que não se diz economia
O Produto Interno Bruto do Distrito Federal gira em torno de R$ 280 bilhões anuais, segundo a Codeplan. A administração pública responde por mais de 45% desse valor.
Os economistas chamam isso de "dependência do setor público" com o mesmo tom de reprovação que um médico usa ao falar de colesterol alto.
Mas a metáfora é imprecisa. O colesterol alto mata. A dependência do setor público, em Brasília, paga o aluguel.
Um assessor parlamentar de nível intermediário recebe entre R$ 8 mil e R$ 15 mil mensais. Um diretor de gabinete pode chegar a R$ 25 mil.
Multiplique por quarenta mil. Faça as contas.
O resultado é uma massa salarial mensal que rivaliza com o faturamento de redes varejistas inteiras.
E essa massa salarial não vai para a poupança. Vai para o comércio.
Para o setor de serviços. Para as imobiliárias que cobram R$ 4 mil por um dois-quartos na Asa Sul.
Para os restaurantes por quilo que servem 500 refeições por dia a R$ 45 o prato. Para as escolas que cobram R$ 3.500 de mensalidade e ainda têm fila de espera.
O poder real contra o poder aparente
Há uma ironia deliciosa — e Brasília é pródiga em ironias — no fato de que o deputado que discursa sobre redução do Estado depende, para redigir seu discurso, de três assessores que são Estado.
O parlamentar é o rosto. O assessor é o cérebro, o braço e, não raro, a voz que escreve o pronunciamento que o parlamentar lerá sem ter lido antes.
Os projetos de lei não brotam da inspiração legislativa como Atena da cabeça de Zeus. Brotam de reuniões em gabinetes sem janela, de noites em frente a computadores, de telefonemas com técnicos de ministérios.
O deputado aparece no Jornal Nacional. O assessor aparece no crachá da portaria.
E no entanto, retire os assessores de Brasília por um mês. Trinta dias sem assessores.
Nenhum projeto tramita. Nenhuma emenda é negociada.
Nenhuma audiência pública é organizada. O Congresso para.
Literalmente para.
Retire os deputados de Brasília por um mês e o que acontece? Os assessores continuam trabalhando.
Os projetos continuam tramitando. As emendas continuam sendo negociadas.
A máquina segue.
O mercado imobiliário sabe
Os corretores de imóveis do Plano Piloto conhecem essa verdade melhor que os cientistas políticos. A cada eleição, o mercado imobiliário treme.
Não porque teme o resultado — treme porque sabe que 30% da Câmara será renovada.
Deputados novos trazem assessores novos. Assessores novos alugam apartamentos novos.
É a maior operação de locação simultânea do país. Em fevereiro de cada ano ímpar, os classificados de imóveis em Brasília fervem como se fosse alta temporada em Florianópolis.
Os restaurantes do Setor de Clubes ajustam seus cardápios. As escolas abrem vagas extras.
As academias lançam promoções de adesão. Todo o ecossistema econômico do Plano Piloto se recalibra para acomodar a nova leva.
Não é gentrificação. Não é especulação imobiliária.
É simplesmente o mercado respondendo à maior força econômica de Brasília: o contracheque público.
A hipocrisia necessária
O assessor parlamentar vive uma existência curiosa. Exerce poder sem ter mandato.
Influencia decisões sem assinar nenhuma. Move bilhões sem aparecer em nenhuma estatística econômica como agente produtivo.
A Codeplan não publica relatórios sobre o impacto dos assessores na economia local. O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística não tem uma categoria específica para mensurar essa contribuição.
As câmaras de comércio do Distrito Federal preferem falar de tecnologia, agronegócio e turismo — setores que, juntos, movimentam uma fração do que os quarenta mil crachás do Congresso movimentam.
Há uma espécie de pudor institucional em admitir o óbvio. Brasília não vive de indústria, de comércio ou de inovação.
Brasília vive de assessores. E vive bem.
O governador que entender isso — e a governadora Celina Leão parece entender — governa melhor. Porque governa para a cidade real, não para a cidade que consta nos planos diretores.
O futuro do crachá
A inteligência artificial promete automatizar tarefas burocráticas. Algoritmos já redigem minutas, organizam pautas e compilam dados legislativos.
O assessor do futuro precisará ser menos copista e mais estrategista.
Mas nenhuma inteligência artificial aluga apartamento na Asa Norte. Nenhum algoritmo matricula filho em escola particular.
Nenhum robô almoça por quilo no Setor Comercial Sul.
A economia de Brasília continuará dependendo de gente de carne e osso carregando crachá no bolso. E enquanto houver Congresso, haverá assessores.
E enquanto houver assessores, haverá Brasília.
O resto é discurso de tribuna.
Joaquim Maria Machado de Assis (1839-1908), cronista e romancista brasileiro, observador implacável das vaidades e contradições da sociedade carioca — e, por extensão, da brasileira. Fundador da Academia Brasileira de Letras. Esta crônica foi composta em seu estilo por inteligência artificial, a serviço do Mirante News.
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