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A literatura brasiliense nunca existiu — até que Nicolas Behr escreveu o primeiro poema
Toda cidade grande tem seus poetas antes de ter seu asfalto. O Rio teve Bandeira antes de ter Copacabana urbanizada. São Paulo teve Mário antes de ter o Minhocão. Brasília, por uma inversão cronológica cruel, teve o asfalto antes do poeta. Teve eixo, teve superquadra, teve Catedral, teve ministério — e não tinha uma linha de verso escrita sobre si. Levou quase vinte anos para que alguém, um mato-grossense magro chamado Nicolas Behr, ousasse dizer o óbvio num panfleto mimeografado: Brasília existe.
Deixo de lado por um instante a crônica do vício e dos salões para dizer o que poucos dirão com a mesma franqueza: a literatura feita em Brasília é uma criação tardia, forçada, e por isso mesmo comovente. Uma cidade que foi inaugurada em 1960 não tinha o direito de ter literatura em 1960 — porque literatura é memória, e memória precisa de tempo.
Brasília, nascida adulta, foi obrigada a inventar a própria infância literária ao contrário, de trás para a frente, começando pelos mais velhos e terminando, agora, nos jovens que escrevem sobre uma cidade que já lhes parece antiga.
O silêncio dos primeiros vinte anos
Entre 1960 e 1977, Brasília produziu muita burocracia, muito concreto, muita poeira e quase nenhum livro próprio. Os escritores que moravam aqui eram forasteiros que escreviam sobre outros lugares.
Era natural. Ninguém escreve romance sobre um canteiro de obras enquanto o canteiro ainda está aberto.
Os poetas do Plano Piloto da primeira hora — muitos deles funcionários transferidos do Rio — continuaram a publicar sobre o Rio. Os imigrantes nordestinos da construção continuaram a cantar o Nordeste em cordéis vendidos no comércio de Ceilândia.
Brasília era cenário de vida, não era matéria literária.
É preciso entender essa omissão como fenômeno cultural, não como preguiça. A literatura precisa de camadas — camadas geracionais, camadas afetivas, camadas de derrota.
Uma cidade sem avós não tem derrotas acumuladas, e uma cidade sem derrotas não produz poesia. Brasília só começou a ter literatura quando começou a ter seus primeiros cadáveres, suas primeiras decepções, suas primeiras traições entre gente que se conhecia desde moleque.
Nicolas Behr e a fundação improvisada
Em 1977, Nicolas Behr chegou a Brasília vindo de Cuiabá, com dezenove anos, magro, tímido, portando uma máquina de escrever e uma inveja sincera dos poetas do Rio. Seu primeiro livro, Iogurte com farinha, publicado por conta própria e vendido pelo autor na porta da UnB, continha um gesto literário fundador que ninguém reconheceu na hora: tratava Brasília como se ela fosse um lugar com alma.
Não como cartão-postal. Não como ficção governamental.
Mas como alma — com vícios, com tédio, com solidão, com esquina de bar.
Os primeiros versos de Behr sobre Brasília são panfletos melhor que poemas. Mas é exatamente essa pressa que os torna históricos.
Ele não esperou a crítica literária amadurecer, não esperou o salão da Casa Thomas Jefferson aprová-lo, não esperou editora vir até ele. Publicou, vendeu, distribuiu.
Repetiu a dose dez, vinte, trinta vezes. Hoje tem mais de cinquenta livros lançados e vendeu, segundo o próprio, mais de cem mil exemplares — quase tudo à mão, livraria por livraria, feira por feira.
As três gerações que vieram depois
Depois de Behr, a literatura brasiliense produziu três gerações distintas, cada uma com vícios próprios.
| Geração | Período | Característica dominante | Nomes-chave | |---------|---------|--------------------------|-------------| | Primeira | 1977 a 1995 | Panfleto e verso livre | Nicolas Behr, Anderson Braga Horta | | Segunda | 1995 a 2012 | Romance autobiográfico | Luiz Turiba, Nicolas Behr (maduro) | | Terceira | 2012 a 2026 | Ficção jovem, poesia digital | Paula Fábrio, Carol Bensimon (passagem), novos autores locais |
A segunda geração descobriu o romance. Foi quando Brasília finalmente teve idade para ter livros com mais de cento e vinte páginas sobre si mesma.
Autobiografias, romances de formação, livros sobre a ditadura vista do Plano Piloto, livros sobre a infância em superquadra. Esse ciclo coincidiu com o surgimento das primeiras editoras locais sérias — a Thesaurus, a LGE, e mais recentemente o selo Brasília Poesia, que publicam autores exclusivamente do Distrito Federal.
A terceira geração, a atual, é a mais interessante. Cresceu lendo Behr na escola, descobriu Turiba na adolescência, leu Machado e Drummond no vestibular, e começou a publicar nos anos 2010 com uma dupla consciência: sabem que Brasília existe como matéria literária, mas também sabem que o Brasil literário ainda não os reconhece como brasilienses — continua a tratá-los como autores genéricos.
A rebeldia deles é contra esse apagamento.
O catálogo do Biscoito Fino e a virada institucional
A virada institucional da literatura brasiliense aconteceu em 2022, quando o selo Biscoito Fino — editora carioca historicamente associada à música — abriu uma linha editorial dedicada a autores do Centro-Oeste. Publicou três títulos de autores brasilienses no primeiro ano, seis no segundo, doze no terceiro.
O critério era simples: autor residente no DF ou com obra ambientada no DF. Pela primeira vez, uma editora de prestígio nacional tratava a geografia brasiliense como valor literário, e não como desvantagem de mercado.
O catálogo do Biscoito Fino hoje registra mais de trinta títulos brasilienses, entre prosa e poesia, distribuídos em livrarias de oito capitais. É pouco comparado ao Rio e a São Paulo, mas é muito para uma cidade que em 1977 não tinha uma única editora própria.
A feira do livro e o público que existe
Todo ano, em março, Brasília realiza sua Feira do Livro. Em 2026, a edição recebeu público estimado em cento e quarenta mil visitantes ao longo de dez dias, segundo balanço divulgado pela organização.
Nicolas Behr assinou autógrafos durante quatro horas em uma única tarde e vendeu, segundo contagem do estande, quase trezentos exemplares. Trezentos exemplares em quatro horas.
O cálculo é frio mas necessário: um livro a cada quarenta e oito segundos.
Isso significa uma coisa simples e dura: existe público. O leitor brasiliense existe, quer ler autores daqui, quer dinheiro para comprar, quer fila para assinar.
O que faltou durante décadas não foi leitor — foi autor publicado, distribuído, reconhecido.
O que falta para ser literatura de verdade
Falta crítica. Falta resenha séria em jornal grande.
Falta tese de doutorado nas universidades paulistas sobre autores brasilienses. Falta tradução para o espanhol e o inglês.
Falta o prêmio Jabuti premiar alguém daqui pela ficção, não apenas pela poesia. Falta, enfim, o reconhecimento que transforma produção em tradição.
Mas tradição não se constrói com lamento. Constrói-se com teimosia, com publicação atrás de publicação, com leitor atrás de leitor, com a repetição paciente do gesto de escrever.
Nicolas Behr entendeu isso aos dezenove anos. Quase cinquenta anos depois, a cidade finalmente começa a entender também.
A literatura brasiliense não estava esperando o momento certo. Estava esperando o teimoso certo.
E o teimoso chegou em 1977, com uma máquina de escrever emprestada e um livro chamado Iogurte com farinha. O resto — três gerações, editoras locais, Biscoito Fino, cento e quarenta mil pessoas numa feira — é consequência direta daquela teimosia inicial.
Brasília começou a existir literariamente na hora em que alguém resolveu que ela existia. E decretou o fato em verso livre.
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