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O luto ecumênico em Brasília: como 5 religiões velaram juntas as vítimas de uma tragédia
Escrevo estas linhas com o coração ainda ferido pelos acontecimentos da semana passada. Sete pessoas perderam a vida no acidente da rodovia federal 040, no trecho entre Brasília e Luziânia, no dia 27 de março. Duas famílias inteiras. Um jovem casal que voltava do interior de Goiás. Um senhor aposentado que visitava a filha. Entre os sete, havia católicos, evangélicos, espíritas, uma família umbandista de Santa Maria e um rapaz muçulmano nascido no Líbano e criado em Taguatinga. O velório coletivo que reuniu essas cinco tradições religiosas, realizado no ginásio de esportes do Gama na noite seguinte, é o assunto que me obriga hoje a tomar a caneta.
Quem nunca esteve diante de um caixão fechado, senhor leitor, não conhece o silêncio mais pesado que existe sobre a face da terra. É um silêncio que não se enche com palavra nenhuma, nem mesmo com oração.
É o silêncio em que a fé, qualquer fé, precisa provar-se diante de si mesma. Naquela noite de 28 de março, no ginásio do Gama, havia sete caixões fechados lado a lado.
E havia mais silêncio do que pregação. Foi dentro desse silêncio que cinco tradições religiosas, que em dias normais disputam almas e interpretações, descobriram-se capazes de velar juntas.
Como nasceu o velório coletivo
O acidente aconteceu na madrugada do dia 27, um caminhão de carga perdeu os freios na descida. O resgate foi rápido, mas não o suficiente.
Cinco veículos colidiram, sete pessoas não sobreviveram, outras quinze foram hospitalizadas. O Distrito Federal acordou com a notícia, e a notícia, como sempre acontece nessas horas, pesou sobre uma cidade inteira como se fosse luto particular.
O que eu não esperava — e confesso que, como pastor há vinte e seis anos na mesma igreja em Taguatinga, achei que já não me surpreendia mais — foi a iniciativa que partiu da família de uma das vítimas. Dona Marlene, mãe de Leandro, rapaz de vinte e três anos que morreu sentado no banco do carona, pediu às outras seis famílias que considerassem realizar um velório conjunto.
Suas palavras, que me foram repetidas depois pelo pároco da Santa Maria Goretti, são singelas e difíceis de esquecer: "Eles morreram juntos, vamos velar eles juntos. Deus entende cada um no seu jeito, mas a dor é igual para todos."
As famílias concordaram. As diferentes lideranças religiosas foram procuradas.
Todas — sem exceção — aceitaram. E assim se organizou, em menos de trinta e seis horas, um velório ecumênico como poucos já vi na minha cidade.
Os cinco sacerdócios reunidos
Cheguei ao ginásio do Gama por volta das dezenove horas. A fila para entrar dobrava a quadra.
Dentro, os sete caixões estavam dispostos em semicírculo, cada um com o símbolo religioso da respectiva família. A organização do espaço é o primeiro detalhe que merece ser lembrado, porque revela a delicadeza com que as famílias e as lideranças trataram a diferença.
| Tradição | Representante | Papel na cerimônia | |----------|---------------|--------------------| | Católica | Padre Clemente, paróquia Santa Maria Goretti | Celebração inicial, oração de louvor | | Evangélica pentecostal | Pastor Edson, Assembleia de Deus do Gama | Pregação breve sobre consolação | | Espírita | Médium Elza, Casa Espírita Bezerra de Menezes | Leitura de passagem evangélica segundo Allan Kardec | | Umbandista | Mãe Olívia, Terreiro Pai Joaquim de Aruanda | Ponto cantado de despedida, sem incorporação | | Muçulmana | Sheik Ibrahim, Sociedade Beneficente Muçulmana | Recitação em árabe do capítulo 36 do Alcorão |
Cada representante recebeu quinze minutos. A ordem foi definida por sorteio, não por hierarquia nem por tempo de tradição.
Entre cada intervenção, um minuto de silêncio coletivo. Nenhum representante criticou, aludiu ou se comparou aos outros.
Nenhum tentou converter ninguém. Foi combinado previamente — e respeitado integralmente — que cada um falaria da sua dor na própria linguagem, e que as famílias escolheriam o que guardar de cada fala.
Eu fui convidado para acompanhar, não para oficiar. Nessa condição de observador pastoral, tomei nota do que vi.
O que aprendi naquela noite
Aprendi, primeiro, que o luto é a mais ecumênica das experiências humanas. Não há teologia que elimine a dor da morte, e não há ateísmo que a torne mais suportável.
Diante do caixão fechado, a mãe católica e a mãe muçulmana choram com a mesma profundidade, e ambas precisam de alguém que lhes tome a mão. Nesse gesto de tomar a mão, a teologia não é obstáculo.
É, muitas vezes, apenas um vocabulário diferente para a mesma ternura.
Aprendi, segundo, que a pregação mais poderosa é aquela que se contém. O pastor Edson, meu colega de tantas reuniões de ministério evangélico, poderia ter se alongado.
Tinha público vasto, microfone aberto, atenção unânime. Escolheu ler os dois primeiros versículos do Salmo 23 e chorar.
Chorou no púlpito durante quase um minuto antes de conseguir continuar. Essa espera silenciosa disse mais sobre o Deus em quem ele crê do que qualquer sermão elaborado teria dito.
Eu o abracei ao fim. Ele me disse: "Irmão, hoje eu não tinha nada a ensinar.
Só o que fazer junto."
Aprendi, terceiro, que as diferenças religiosas não desaparecem em momentos como esse — elas simplesmente se tornam irrelevantes para a tarefa imediata. A oração que Sheik Ibrahim fez em árabe não foi entendida pela maioria, mas foi sentida por todos.
O ponto cantado da Mãe Olívia soou estranho aos ouvidos acostumados apenas a hinário protestante, mas fez a família umbandista chorar livremente, sem constrangimento, dentro de um ambiente que a acolheu. A médium Elza leu uma passagem do Novo Testamento com interpretação kardecista, e ninguém se ofendeu.
O padre Clemente celebrou o louvor inicial em tom baixo, sem alvoroço litúrgico, e manteve a liturgia católica contida dentro do que era possível no espaço e no tempo.
A cidade que ninguém vê
Brasília é, segundo levantamento da Companhia de Planejamento do Distrito Federal, a capital com maior diversidade religiosa proporcional do Brasil. Aqui convivem católicos, evangélicos das mais diversas denominações, espíritas, umbandistas, candomblecistas, muçulmanos, judeus, budistas, bahá'ís, adeptos do santo-daime e — em número crescente — pessoas que se declaram sem religião.
Essa convivência é tratada, na maior parte do tempo, como dado estatístico. Raramente é tratada como riqueza concreta.
Naquela noite no Gama, a diversidade deixou de ser estatística e virou gesto. Cinco tradições ergueram suas vozes no mesmo espaço, sem que nenhuma perdesse identidade nem nenhuma dominasse as outras.
Foi ecumenismo prático — e ecumenismo prático, em minha experiência pastoral, é coisa que só acontece quando a dor é maior que o orgulho.
Uma palavra final ao leitor
Escrevo estas linhas ciente de que alguns irmãos de caminhada evangélica podem estranhar meu tom. Dirão, talvez, que a fé verdadeira não mistura símbolos, que o ecumenismo enfraquece a pregação, que a separação é bíblica.
Respondo com humildade: a separação é, sim, bíblica em muitas passagens. Mas o amor ao próximo é mandamento maior, e o próximo, no dia 28 de março, era cada uma daquelas sete famílias.
Servir ao próximo enlutado não exige que eu concorde com a teologia do irmão umbandista. Exige apenas que eu esteja presente, de coração aberto, para sustentar sua dor junto com a minha.
O velório acabou perto da meia-noite. Eu saí do ginásio abalado, mas também consolado.
Consolado porque presenciei uma cidade que, pelo menos por algumas horas, escolheu ser maior que suas diferenças. Abalado porque sei que essa escolha precisa ser renovada todos os dias, em cada conflito menor, em cada piada desrespeitosa, em cada ofensa gratuita dirigida ao que é estranho.
Brasília tem muitos templos. Naquela noite, durante algumas horas, o ginásio do Gama foi o maior deles.
E a pregação mais bonita que ouvi em décadas foi um silêncio partilhado entre cinco sacerdotes que nunca antes haviam rezado juntos e que, terminada a cerimônia, apertaram as mãos uns dos outros como se fossem velhos amigos. A paz de Deus, que ultrapassa todo entendimento, esteve lá.
E nós estivemos com ela.
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