
Entregador de aplicativo na Asa Norte: 28 entregas por dia útil, 9 delas no mesmo prédio.
O brasiliense gasta R$ 680 por mês em delivery — duas vezes a média nacional
São oito da noite de uma terça-feira qualquer no edifício 207 norte. Em vinte e dois apartamentos do bloco, vinte e dois jantares chegam pela porta nas duas horas seguintes. Quase nenhum foi cozinhado em casa. Vieram em sacolas térmicas, com carimbos de iFood, de Rappi, de 99Food, de marketplaces de marmita e de cozinhas que funcionam só na nuvem. O brasiliense parou de cozinhar. E gasta com isso, em média, R$ 680 por mês.
São oito da noite de uma terça-feira qualquer no edifício 207 norte. Em vinte e dois apartamentos do bloco, vinte e dois jantares chegam pela porta nas duas horas seguintes.
Quase nenhum foi cozinhado em casa. Vieram em sacolas térmicas, com carimbos de iFood, de Rappi, de 99Food, de marketplaces de marmita e de cozinhas que funcionam só na nuvem.
O brasiliense parou de cozinhar. E gasta com isso, em média, R$ 680 por mês.
O número saiu de um cruzamento inédito feito pela Abrasel-DF em parceria com a Codeplan e divulgado em março de 2026. A entidade reuniu dados anonimizados de quatro grandes plataformas de delivery — iFood, Rappi, 99Food e Uber Eats — referentes a 1,9 milhão de usuários ativos no Distrito Federal entre janeiro de 2024 e dezembro de 2025.
Cruzou esses dados com a Pesquisa de Orçamentos Familiares do IBGE e com a Pesquisa Distrital por Amostra de Domicílios. O resultado é o retrato mais completo já feito do hábito alimentar urbano de uma capital brasileira.
O gasto médio mensal por usuário ativo de delivery no DF é de R$ 680. A média nacional, calculada pela Associação Brasileira da Indústria de Alimentação para o ano de 2025, é de R$ 348.
O brasiliense gasta praticamente o dobro. E a frequência também é dobrada: 18 pedidos por mês contra 9,4 da média nacional.
A escala do fenômeno
O DF tem hoje 1,9 milhão de usuários ativos de aplicativo de delivery — pessoas que pediram pelo menos uma vez nos últimos noventa dias. Para uma população adulta de aproximadamente 2,4 milhões, isso significa que quase 8 em cada 10 brasilienses adultos usam delivery com regularidade.
É a maior taxa de penetração de plataformas de entrega de comida do Brasil.
| Indicador de delivery | DF | Média Brasil | |---|---|---| | Usuários ativos sobre população adulta | 79% | 41% | | Pedidos por usuário/mês | 18 | 9,4 | | Gasto médio por pedido | R$ 38 | R$ 37 | | Gasto médio por usuário/mês | R$ 680 | R$ 348 | | % do orçamento alimentar via delivery | 38% | 17% | | Tempo médio de entrega | 32 min | 38 min |
O gasto médio por pedido é praticamente igual à média nacional. O que faz a diferença não é o ticket — é a frequência.
O brasiliense não pede mais caro. Pede mais vezes.
Trinta e oito por cento de todo o orçamento alimentar das famílias do DF passa hoje por aplicativo de entrega. Há dez anos, esse percentual era de 4%.
A virada aconteceu entre 2019 e 2022, durante a pandemia, e não voltou atrás. Famílias que aprenderam a pedir delivery três vezes por semana mantiveram o hábito mesmo depois que os restaurantes reabriram.
Quem pede e por que pede
A Codeplan adicionou ao questionário da PDAD 2024 um módulo específico sobre delivery. Foram entrevistadas 22 mil famílias.
Os dados desagregados por renda mostram que o uso é transversal — não é fenômeno só de classe alta — mas a intensidade muda muito.
Famílias com renda acima de 10 salários mínimos pedem em média 26 vezes por mês. Famílias entre 5 e 10 salários, 19 vezes.
Entre 2 e 5, 12 vezes. Abaixo de 2, ainda assim, 6 vezes por mês — o que é alto para esse extrato em qualquer lugar do Brasil.
O delivery deixou de ser luxo e virou linha de despesa fixa em todas as faixas de renda do Distrito Federal.
A Codeplan perguntou também o motivo principal de cada pedido. As respostas, agrupadas em sete categorias, expõem algo que vai além da praticidade.
| Por que você pediu delivery? | % das respostas | |---|---| | Não tive tempo de cozinhar | 28,4% | | Cansaço, sem energia para cozinhar | 22,1% | | Não sei cozinhar o que queria comer | 14,8% | | Estava sozinho(a) e não compensava cozinhar | 11,3% | | Vontade específica de algo | 10,7% | | Geladeira vazia, não tinha o que cozinhar | 8,2% | | Outros (visita, ocasião especial) | 4,5% |
Some os dois primeiros: 50,5% dos pedidos de delivery no DF acontecem por exaustão. Não por preguiça.
Não por gosto. Por exaustão.
A pessoa chegou em casa às 19h30, depois de 91 minutos no carro, depois de oito horas de trabalho, e não tem mais reserva mental para abrir a geladeira, planejar uma refeição, picar cebola.
Some os 11,3% que pedem porque "estavam sozinhos e não compensava cozinhar" — esse é o brasiliense morador de quitinete, divorciado, viúvo, solteiro de carreira, que compõe 31% dos domicílios do DF segundo o IBGE 2022. Cozinhar para um é o tipo de tarefa que custa o mesmo esforço de cozinhar para quatro, mas rende uma fração do prazer.
O delivery resolve.
E some os 14,8% que pedem porque "não sabem cozinhar o que querem comer". Esse dado é silencioso e pesado.
A geração que entrou na vida adulta no DF entre 2010 e 2025 — hoje na faixa de 25 a 40 anos — é a primeira geração brasileira em que a maioria não aprendeu a cozinhar com a família. A PDAD pergunta isso: 61% dos brasilienses dessa faixa etária dizem saber cozinhar "menos de cinco pratos diferentes".
Nas mulheres, o número é 52%. Nos homens, 71%.
A cozinha encolheu
A consequência arquitetônica dessa mudança é visível. Os apartamentos novos lançados no Distrito Federal a partir de 2018 têm cozinha 34% menor, em média, do que os apartamentos lançados na década anterior.
O Sinduscon-DF mediu: a cozinha média de um apartamento de dois quartos lançado em 2008 tinha 9,8 metros quadrados. A mesma planta lançada em 2024 tem 6,5.
A geladeira encolheu junto. Os modelos mais vendidos no DF no exercício anterior, segundo a Brastemp, são de 350 a 410 litros — versões compactas.
Em 2010, os mais vendidos eram de 450 a 530 litros. Cozinha menor, geladeira menor, despensa quase inexistente.
O apartamento moderno do brasiliense não foi desenhado para guardar comida. Foi desenhado para receber comida.
Há um ciclo aí, e o ciclo se reforça. A cozinha pequena dificulta cozinhar com gosto.
A dificuldade aumenta o uso de delivery. O uso de delivery dispensa a cozinha.
A próxima planta lançada pelo arquiteto vem com cozinha ainda menor. O ciclo se fecha.
A economia da entrega
Os R$ 680 mensais por usuário, multiplicados por 1,9 milhão de usuários ativos, dão R$ 15,5 bilhões por ano. É o tamanho do mercado de delivery alimentar no Distrito Federal.
Para comparação, o setor de construção civil do DF movimenta R$ 14,2 bilhões por ano. O delivery alimentar é hoje maior que a construção civil em movimentação financeira.
Desse total, segundo a Abrasel, 64% ficam com os restaurantes, 22% com as plataformas (taxas e comissões), 12% com os entregadores (corrida) e 2% com gateways de pagamento e logística. O entregador de aplicativo do DF ganha em média R$ 2.840 por mês trabalhando jornadas de 9 a 11 horas diárias, seis dias por semana.
É um pouco acima do salário mínimo, sem direitos trabalhistas, sem previdência, sem férias.
A economia de delivery do DF gera diretamente cerca de 28 mil empregos de entregador e indiretamente sustenta outros 41 mil postos em restaurantes, cozinhas industriais e dark kitchens — cozinhas que produzem só para entrega, sem salão. Brasília tem hoje 312 dark kitchens registradas, número que era zero em 2018.
A dieta que vem com a entrega
Os pesquisadores da Codeplan e do Conselho Federal de Nutricionistas que assinam o cruzamento dos dados de delivery com a Pesquisa de Orçamentos Familiares chegaram a uma conclusão que não estava no escopo original: o brasiliense que usa delivery com alta frequência tem padrão alimentar mensurável e consistentemente pior do que quem não usa.
Na média, os usuários intensivos (mais de 20 pedidos/mês) consomem 31% menos vegetais, 24% menos fibras, 18% menos cálcio e 22% mais sódio do que os usuários leves (menos de 5 pedidos/mês), controlando por idade, renda e escolaridade. O consumo de ultraprocessados é 38% maior.
O gasto médio de calorias por refeição é 410 kcal acima.
O nutricionista coordenador do estudo, em entrevista ao Mirante, disse que o problema não é o delivery em si — é o tipo de comida que a plataforma otimiza. Os algoritmos das grandes plataformas privilegiam o que vende mais rápido, entrega mais barato e tem maior margem para o estabelecimento.
Isso favorece pizza, hambúrguer, fritura, açaí, sobremesa industrializada. Não favorece arroz, feijão, salada, peixe grelhado.
A engenharia da plataforma empurra o consumidor para o ultraprocessado.
A pergunta que sobra
O brasiliense gasta R$ 680 por mês em delivery. Multiplicado por doze meses, dá R$ 8.160 por ano.
Para uma família de duas pessoas, R$ 16.320. Para uma família de três, R$ 24.480.
É praticamente uma viagem de férias inteira. É a entrada de um carro popular.
É a reforma do banheiro adiada pelo terceiro ano consecutivo.
Em troca, a família ganha tempo. Cerca de uma hora por dia, multiplicada por 365 dias, dá 365 horas por ano por pessoa que cozinharia se não pedisse.
Se valorizar o tempo no salário-hora médio do DF, R$ 38, o ganho é de R$ 13.870 por ano por pessoa. Por essa conta, vale a pena.
Por outra conta, não. O dinheiro que sai todo mês não volta.
O tempo ganho raramente é convertido em descanso real, em hobby, em convivência familiar — ele é absorvido por mais trabalho, mais tela, mais cansaço, mais aplicativo. O brasiliense pede comida porque está exausto, e fica exausto, em parte, porque pede comida.
O ciclo, de novo, se fecha. E o entregador toca a campainha.
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