
Avenida principal do Itapoã com a iluminação de LED instalada no início de 2026.
O Itapoã que eu não conheci: 50 anos depois, a última fronteira urbana de Brasília ganha asfalto e iluminação
Imagino uma caminhada pelo Itapoã do ano de 2026, região administrativa nº 28 do Distrito Federal, e descrevo, da minha posição de quem desenhou a capital há 66 anos, o que esta última fronteira urbana de Brasília está deixando de ser e o que está começando a ser.
Eu não conheci o Itapoã. Quando minha caneta riscou o pacto de fundação de Brasília, em 1960, o lugar onde hoje vive uma das maiores populações do Distrito Federal era ainda chapada.
Cerrado de pé, arbusto retorcido, terra vermelha. A cidade que eu sonhei tinha duas asas, um lago, um eixo monumental e um cinturão de cidades-satélite que precisariam ser construídas a tempo, com calma, com método.
O Itapoã não estava no projeto. Apareceu depois.
Apareceu como muitas coisas neste país aparecem, sem licença, à força do necessário.
E hoje, em abril de 2026, este território de aproximadamente 67 mil habitantes segundo a PDAD da Codeplan tem ruas asfaltadas até o último beco, postes de LED em sequência e a primeira creche em concreto armado, com cobertura, refeitório e parque infantil. Eu, que escrevo desta posição estranha e privilegiada da memória, queria caminhar com o leitor por estas ruas.
Caminhar de olho aberto. Sem entusiasmo fácil, sem amargura.
A história curta de uma região nova
O Itapoã é jovem. A ocupação começou no fim dos anos 1990, em terras da Fazenda Paranoazinho, a oeste do Lago Paranoá.
Era assentamento informal. A primeira tentativa de regularização aconteceu em 2005, quando a área foi reconhecida como bairro sob o número 28 das regiões administrativas.
A regularização fundiária veio aos pedaços, conforme o Tribunal de Contas do Distrito Federal foi auditando. Algumas quadras foram tituladas em 2010, outras só em 2018, outras seguem em processo até hoje.
Em vinte e poucos anos, o que era ocupação virou cidade. E cidade não é só telhado em cima da cabeça.
Cidade é poste, é rua plana, é escola perto, é unidade de saúde com médico, é endereço que o correio entrega.
| Indicador | 2005 (regularização) | 2026 (atual) | |---|---|---| | População estimada | 38 mil | 67 mil | | Ruas asfaltadas | 12% | 94% | | Postes de iluminação pública | 1.200 | 4.800 | | Escolas públicas | 4 | 11 | | Unidades básicas de saúde | 1 | 4 |
Os números são da Codeplan e do balanço de obras divulgado pela Agência Brasília no início de março. Eu trago aqui sem grifo.
O leitor compara.
A caminhada pelo Itapoã de 2026
Caminho devagar. A primeira coisa que noto é o silêncio do asfalto novo.
Asfalto novo soa diferente. Pneu desliza, salto não tropeça, criança anda de bicicleta sem ricochetear no meio-fio quebrado.
Esse é um som que distingue uma cidade que recebeu cuidado de uma cidade que está esperando.
A segunda coisa é o poste. O Itapoã, há cinco anos, era um lugar escuro à noite.
Várias entrevistas em jornais locais, entre 2018 e 2022, registravam moradoras pedindo iluminação. A pesquisa de vitimização da Codeplan mostrou, em 2021, que 71% das mulheres do Itapoã evitavam sair de casa depois das oito da noite por medo do escuro.
Em 2026, com 4.800 postes em operação e mais 600 previstos para o segundo semestre, o que se vê de noite é outra coisa. Pessoas na calçada, criança brincando até oito da noite, comércio aberto até dez.
A terceira coisa é a creche. Eu que mandei construir Brasília em 41 meses tenho uma certa intimidade com o gesto de assinar uma obra.
Esta creche que visito imaginariamente, no quadrante norte do Itapoã, tem 240 vagas, cobertura, parque, refeitório com cozinha de aço inox, e foi inaugurada faz pouco. Foi parte do pacote anunciado pelo governo do Distrito Federal, sob a assinatura da governadora Celina Leão, no início do ano.
Eu menciono porque é o nome que está na placa. Mas a placa é apenas o que se vê.
O que importa é que a obra existe.
O que ainda falta
Eu não sou homem de elogio fácil. Já fui acusado de coisa pior na vida pública. Então digo o que falta também.
Falta saneamento completo. Cerca de 23% das residências do Itapoã ainda não estão ligadas à rede coletora de esgoto, segundo dados da Caesb de fevereiro de 2026.
A maior parte dos imóveis não conectados está nas franjas, nas áreas mais novas, ainda em regularização. É um número que caiu, sim, mas ainda é alto.
Falta transporte público com frequência razoável. As linhas de ônibus que servem a região têm intervalo médio de 35 minutos no horário de pico, contra 12 minutos no Plano Piloto.
Quem trabalha no centro acorda às quatro da manhã. Esse é um custo invisível que a planilha não mede e o corpo paga.
Falta uma faixa verde. O Itapoã, por ter nascido na pressa, tem pouca praça.
Cresceu sem reservar área de lazer. Hoje há iniciativas para abrir três pequenos parques lineares, mas a relação metro quadrado verde por habitante no Itapoã é uma das mais baixas do DF.
É um problema que vai exigir desapropriação, e desapropriação é coisa lenta.
| Carência | Estado em 2026 | |---|---| | Esgotamento sanitário completo | 77% das residências conectadas | | Frequência de ônibus no pico | 35 minutos (contra 12 no Plano Piloto) | | Metro quadrado verde por habitante | 2,1 (média do DF: 8,4) | | Equipamentos culturais | 1 biblioteca pública |
A cidade que vira cidade
Eu queria voltar à imagem do começo. Eu não conheci o Itapoã.
Mas conheço o tipo de coisa que ele está virando. É a passagem de assentamento para bairro.
É o momento em que a casa para de ser provisória e vira a casa onde a filha vai casar. É o momento em que o quarteirão para de ser ponto de referência e vira endereço.
Esse momento, quando acontece numa cidade, muda muita coisa que a estatística sozinha não vê.
Eu chamava a Brasília original de cidade-monumento. Era ambição minha, eu admito sem cerimônia.
Queria que o brasileiro se orgulhasse de uma capital nova, simétrica, ousada. Não sabia, naquele 1960, que a maior parte das pessoas que vieram construir essa capital iria morar nas suas bordas, nas cidades-satélite primeiro, nas ocupações depois, nos assentamentos formalizados em sequência.
O Itapoã é o último capítulo dessa história.
E é, talvez, o mais bem-acabado deles. Porque chegou em uma época em que o Estado brasileiro, no recorte do Distrito Federal, aprendeu a regularizar primeiro, asfaltar depois, iluminar a seguir, construir creche enfim.
Errou muito, demorou muito, mas chegou. Os números não mentem nesse ponto.
O recado de quem viu a cidade nascer
Eu deixo o leitor com uma observação simples. Cidade não é ato de fundação.
Cidade é repetição cuidadosa do gesto pequeno. A creche que abre, o poste que acende, a rua que ganha asfalto, a unidade de saúde que recebe um médico a mais.
Brasília se completou em 1960 no calendário oficial. Mas a Brasília de verdade, a que tem 67 mil habitantes em um lugar chamado Itapoã, está se completando agora, em 2026, com a discrição de um pacote de obras que não vai virar manchete em jornal nacional.
Eu sou suspeito para falar de obras. Já me chamaram de obreiro maior do que estadista.
Tudo bem. Aceito.
Mas insisto numa coisa que aprendi naqueles 41 meses. Uma obra entregue é melhor do que dez discursos sobre obras a entregar.
O Itapoã, em 2026, é exemplo disso. E não preciso assinar embaixo.
A placa já tem outro nome.
Eu só caminhei.
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