
Sementes de Hymenaea stigonocarpa (jatobá do cerrado) processadas no laboratório de Biotecnologia da Universidade de Brasília
A proteína do jatobá do cerrado virou suplemento: ciência da UnB patenteou e exportou
A vagem do jatobá do cerrado é dura como casca de coco. Por dentro, polpa amarelada e seca, sementes do tamanho de azeitonas. Por mais de um século, foi alimento de bicho — paca, cutia, queixada. Agora, dezesseis pesquisadores da Universidade de Brasília descobriram que cada semente carrega 38 por cento de proteína vegetal de alta qualidade. E a descoberta virou patente, virou produto, virou exportação.
O nome científico é Hymenaea stigonocarpa. O nome popular varia conforme o ponto do cerrado: jatobá do cerrado, jutaí, jataí, jatobá-da-mata.
A árvore atinge 15 metros, vive até 400 anos e produz vagens que caem ao chão entre setembro e novembro de cada ano. O fruto é tradicionalmente usado para fazer farinha, licor, doce e bebida fermentada em comunidades quilombolas e indígenas do bioma.
A descoberta acadêmica que mudou o destino comercial do jatobá começou em 2017, no Departamento de Biologia Celular do Instituto de Ciências Biológicas da Universidade de Brasília. O grupo coordenado pela professora Renata Carvalho de Oliveira analisou 142 amostras de sementes coletadas em sete localidades do cerrado central — cinco no Distrito Federal, duas em Goiás.
O resultado da análise química foi inesperado: as sementes apresentaram concentração média de 38,2 por cento de proteína bruta. Para comparação, a soja tem 36 por cento, a ervilha tem 25 por cento e o feijão preto tem 22 por cento.
O perfil de aminoácidos
A surpresa não foi apenas a quantidade. Foi o perfil.
As proteínas do jatobá do cerrado contêm os nove aminoácidos essenciais em proporções compatíveis com as necessidades humanas, segundo análise validada pela Organização Mundial da Saúde para suplementos vegetais. O escore PDCAAS (Protein Digestibility-Corrected Amino Acid Score) ficou em 0,91 — superior ao do feijão (0,68), próximo ao da soja (0,92) e abaixo apenas do ovo de galinha e do leite materno.
| Fonte | PDCAAS | Lisina (mg/g proteína) | Metionina (mg/g) | |---|---|---|---| | Leite materno | 1,00 | 73 | 24 | | Ovo | 1,00 | 70 | 32 | | Soja | 0,92 | 64 | 13 | | Jatobá do cerrado | 0,91 | 67 | 21 | | Ervilha | 0,89 | 71 | 11 | | Feijão preto | 0,68 | 65 | 8 |
A leitura técnica do quadro é desconfortável para a indústria de suplementos: existe na vegetação espontânea do cerrado brasileiro um insumo proteico de qualidade comparável aos melhores do mercado vegetal mundial — e ninguém estava extraindo.
A patente
O grupo da UnB depositou em outubro de 2018 o pedido de patente PI 2.018.073, junto ao Instituto Nacional da Propriedade Industrial. O título do documento é "Processo de extração de concentrado proteico a partir de sementes de Hymenaea stigonocarpa e produto resultante".
A patente foi concedida em junho de 2023, após cinco anos de análise técnica e respostas a exigências do INPI.
O processo descrito no documento envolve quatro etapas: descortiçamento mecânico das sementes, moagem em granulometria controlada, extração alcalina do concentrado proteico e secagem por atomização. O produto final é um pó branco-amarelado com 78 por cento de proteína, armazenável por 24 meses sem refrigeração.
O custo de produção, segundo o relatório técnico que acompanha a patente, é R$ 12,40 por quilo — contra R$ 28 do isolado proteico de soja importado e R$ 47 do concentrado de ervilha europeu.
As empresas licenciadas
A Universidade de Brasília licenciou o uso comercial da patente para três empresas em 2024. A primeira é a Cerratto Biotecnologia, empresa goiana sediada em Anápolis, que opera linha de extração desde maio de 2024 e produz hoje 480 toneladas de concentrado por mês.
A segunda é a Brasil Nature Foods, paulista com unidade industrial em Cabreúva, voltada ao mercado de suplementos esportivos. A terceira é a Yuca Agroindústria, de Brasília, que processa para o mercado vegano e plant-based.
As três empresas pagam royalty de 4,5 por cento sobre a receita líquida à UnB, conforme contrato de licenciamento assinado em fevereiro de 2024. Os recursos são divididos entre o Departamento de Biologia Celular, a Fundação de Apoio à Pesquisa do Distrito Federal e o grupo de pesquisadores conforme regulamento da Lei de Inovação.
A primeira exportação
O embarque inaugural saiu em agosto de 2025. Foram 18 toneladas de concentrado proteico de jatobá enviadas ao Canadá pela Cerratto Biotecnologia, para uma rede de lojas de produtos naturais com sede em Toronto.
O segundo embarque, em novembro, foi de 25 toneladas para a Alemanha, destinado a uma indústria de barras proteicas baseada em Munique. Em fevereiro de 2026, a Brasil Nature Foods enviou 12 toneladas aos Estados Unidos.
O preço internacional do concentrado de jatobá foi negociado em torno de US$ 9,80 por quilo na exportação canadense. A cotação ficou acima do isolado de soja (US$ 6,40) e abaixo do concentrado de ervilha (US$ 11,20).
A justificativa do diferencial está na combinação de qualidade proteica, origem rastreável e selo de produto da biodiversidade brasileira.
A cadeia que se forma
O extrativismo da semente é hoje a principal questão técnica em discussão. A produtividade natural do jatobá do cerrado é de 60 quilos de vagens por árvore adulta, o que rende cerca de 18 quilos de sementes secas.
O cerrado central abriga, segundo a Embrapa Cerrados, aproximadamente 14 milhões de árvores adultas em estado natural. O potencial teórico de coleta sustentável é de 250 mil toneladas de sementes por ano.
A coleta envolve hoje 680 famílias extrativistas, organizadas em sete cooperativas distribuídas pelo Distrito Federal, Goiás e norte de Minas Gerais. O preço pago pela semente subiu de R$ 1,20 por quilo em 2022 para R$ 4,80 em 2025 — alta de 300 por cento que reflete tanto a abertura do mercado quanto a chegada de compradores industriais.
A renda média de uma família extrativista durante a safra é de R$ 8.400, segundo levantamento da Cooperativa Central do Cerrado divulgado em janeiro.
O salto que pode vir
A pesquisa avançou para uma segunda geração. O grupo da UnB obteve em 2024 financiamento do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico para investigar o uso da proteína do jatobá em formulações específicas para nutrição enteral hospitalar e para alimentação infantil de crianças com alergia ao leite de vaca.
Os primeiros resultados, esperados para o segundo semestre de 2026, podem abrir mercado de muito maior valor agregado do que o suplemento esportivo atual.
A ciência fez sua parte. A patente foi concedida, o produto chegou às prateleiras, a exportação começou, a renda extrativista subiu.
O resto da história depende de cadeia logística, de extensão rural, de manejo sustentável e da capacidade de transformar uma árvore que sempre esteve ali em commodity de bioeconomia. O cerrado já tem o que é necessário.
Falta a velocidade de execução.
O recado dos números
Trinta e oito por cento de proteína em uma semente que sempre foi descartada. PDCAAS de 0,91 contra 0,68 do feijão.
Custo de produção de R$ 12,40 contra R$ 28 do concorrente importado. Renda familiar de R$ 8.400 por safra contra os R$ 1.800 anteriores.
Cada número desta reportagem foi extraído de documentação acadêmica revisada por pares, da patente concedida pelo INPI ou de relatórios da Embrapa Cerrados. A história do jatobá do cerrado mostra que a bioeconomia brasileira não precisa esperar tecnologia externa.
Precisa olhar com mais cuidado para o que cresce no quintal do bioma — e ter paciência para deixar a ciência fazer o trabalho de longo prazo que sempre foi sua função.
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