
Observatório Pico dos Dias, em Minas Gerais: telescópio de 1,6 metro e auxiliar de 60 centímetros abastecem grupo de exoplanetas da Universidade de Brasília
Telescópio da UnB descobre 14 exoplanetas: a astronomia brasileira que foge do radar
Enquanto o noticiário de ciência celebra, quase sempre, descobertas de telescópios milionários europeus ou americanos, um grupo pequeno de pesquisadores do Instituto de Física da Universidade de Brasília confirmou, nos últimos cinco anos, a existência de 14 planetas fora do sistema solar. Fizeram isso com equipamento modesto, em um observatório brasileiro quase desconhecido do grande público, e com orçamento que um laboratório americano de porte médio gastaria em um mês.
Enquanto o noticiário de ciência celebra, quase sempre, descobertas de telescópios milionários europeus ou americanos, um grupo pequeno de pesquisadores do Instituto de Física da Universidade de Brasília confirmou, nos últimos cinco anos, a existência de 14 planetas fora do sistema solar. Fizeram isso com equipamento modesto, em um observatório brasileiro quase desconhecido do grande público, e com orçamento que um laboratório americano de porte médio gastaria em um mês.
Os 14 exoplanetas estão catalogados no Exoplanet Archive da NASA, base internacional que concentra todas as confirmações aceitas pela comunidade científica. Cruzando o banco com a lista de coautores afiliados à Universidade de Brasília, o número é preciso: 14 confirmações entre janeiro de 2021 e dezembro de 2025, com participação direta do grupo do Instituto de Física.
Como se descobre um planeta a 200 anos-luz
A técnica usada pelo grupo é a dos trânsitos planetários. Quando um planeta cruza, do ponto de vista da Terra, a frente da estrela hospedeira, provoca uma queda minúscula no brilho — da ordem de 0,1% a 1%.
Telescópios sensíveis conseguem medir essa variação. Se a queda se repete em intervalos regulares, há forte indício de um planeta orbitando ali.
O trabalho prático raramente começa com o telescópio. A maior parte dos candidatos vem de missões espaciais, principalmente o satélite TESS, da NASA, que varre o céu inteiro identificando possíveis trânsitos.
Cada candidato precisa então ser confirmado por observação terrestre, com instrumentos capazes de descartar falsos positivos — estrelas duplas, manchas estelares, binários eclipsantes de fundo e outros fantasmas estatísticos.
É aqui que entra o Observatório Pico dos Dias, em Brasópolis, Minas Gerais, operado pelo Laboratório Nacional de Astrofísica. O telescópio principal, de 1,60 metro, e um auxiliar de 60 centímetros, dão conta de monitorar candidatos do hemisfério sul.
O grupo da Universidade de Brasília recebe, por edital, cotas anuais de tempo de observação — em 2025, foram cerca de 22 noites.
Quem são os pesquisadores
O núcleo duro do grupo é formado por três professores permanentes, quatro pós-doutorandos e cerca de nove estudantes de doutorado e mestrado. A coordenação científica está com uma pesquisadora formada pela Universidade de São Paulo com pós-doutorado no Observatoire de Genève, na Suíça, berço da caça a exoplanetas na Europa.
Os demais pesquisadores vieram de instituições como o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais e a Universidade Federal do Rio Grande do Norte.
O grupo publica, em média, seis artigos por ano em revistas indexadas — Astronomy & Astrophysics, Monthly Notices of the Royal Astronomical Society e The Astronomical Journal aparecem com mais frequência na lista de publicações. É produção competitiva para um grupo desse tamanho.
A título de comparação, uma equipe média de universidade europeia com recursos dez vezes maiores costuma publicar entre oito e doze artigos anuais na mesma fatia temática.
Os 14 planetas, em números
Os planetas confirmados formam um catálogo heterogêneo. A maioria são gigantes gasosos próximos da estrela hospedeira, o que torna o sinal de trânsito mais fácil de detectar.
Mas há também dois mini-Netunos e uma super-Terra, categoria mais interessante cientificamente porque pode abrigar condições análogas às do sistema solar interior.
| Característica | Quantidade | |----------------|-----------:| | Gigantes gasosos (tipo Júpiter quente) | 8 | | Neptunianos / mini-Netunos | 3 | | Super-Terras | 2 | | Não classificado | 1 | | Distância média do sistema solar | 380 anos-luz | | Artigos publicados em A&A | 6 | | Artigos publicados em MNRAS | 5 | | Artigos publicados em outras revistas Qualis A1 | 4 | | Citações acumuladas (até 03/2026) | 217 |
Nenhum dos planetas descobertos é candidato sério à habitabilidade. Mas isso é regra, não exceção: apenas cerca de 2% dos mais de 5.800 exoplanetas confirmados até hoje estão na chamada zona habitável.
A ciência do campo trabalha, por enquanto, com estatística e caracterização — e cada planeta novo acrescenta um ponto ao gráfico maior.
Por que a descoberta foge do radar do noticiário
A resposta é dupla. Primeiro, porque o grande público associa descobertas astronômicas a imagens espetaculares, e confirmações de exoplanetas raramente produzem imagem alguma.
O que se publica é uma curva de luz, um gráfico minimalista mostrando a queda e a retomada do brilho estelar. Visualmente, é pouco atraente.
Segundo, porque a comunicação científica no Brasil é subdimensionada. A Universidade de Brasília dispõe de assessoria de imprensa centralizada, mas não de equipe dedicada à divulgação de descobertas de física e astronomia.
Notícias como essas costumam chegar ao público via sites especializados estrangeiros — que, ironicamente, citam os autores brasileiros sem mencionar a instituição de origem com destaque.
O resultado é paradoxal. Um grupo de pesquisa que produz ciência internacionalmente relevante permanece invisível no próprio país.
Em 2024, uma pesquisa informal do portal ComCiência indicou que menos de 4% dos estudantes de ensino médio entrevistados em Brasília sabiam que a UnB tinha programa de astronomia.
O orçamento, que dói dizer
O grupo opera com recursos que somam, segundo informações do próprio Instituto de Física, cerca de R$ 1,8 milhão por ano — considerando bolsas de pós-graduação do CNPq, bolsa de produtividade da Capes, verba de edital Universal e pequenos contratos de pesquisa com a FAPDF. O valor é comparável ao orçamento anual de um único estudante de doutorado em Harvard, considerando salário, material e infraestrutura.
Com esse montante, os pesquisadores produzem ciência publicável em revistas que rejeitam 85% dos artigos submetidos. O custo por publicação, em termos brutos, fica abaixo de R$ 300 mil — métrica competitiva com qualquer grupo europeu.
A eficiência é alta; o que falta é escala.
O que virá
O grupo aguarda, para 2027, acesso a tempo de observação no Southern Astrophysical Research Telescope, o SOAR, telescópio de 4,1 metros no Chile operado em parceria com instituições brasileiras. Com sensibilidade maior, o grupo espera acelerar a taxa de confirmações e mirar planetas menores, mais próximos do tamanho da Terra.
Enquanto isso, continua trabalhando com o que tem. Uma cúpula metálica em Brasópolis, um espelho de 1,60 metro que já não é novo, noites frias com a chance de perder a observação por causa de uma nuvem inesperada.
E, apesar de tudo, catorze planetas no currículo.
A ciência brasileira que foge do radar nem sempre foge por omissão. Às vezes foge porque aprendeu a operar em silêncio.
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