
Canteiro abandonado do Hospital de Samambaia, paralisado desde 2022 com 62% de execução física
DF tem 47 obras paradas e R$1,2 bilhão em contratos travados, aponta TCDF
O levantamento mais recente do TCDF mostra que o problema não é falta de dinheiro — é gestão.
O concreto racha. O mato cresce entre as ferragens expostas. Os tapumes de zinco, corroídos pelo sol e pela chuva de três invernos, já não protegem nada — porque não há nada a proteger. O canteiro de obras do Hospital Regional de Samambaia, prometido desde 2014, é hoje um monumento à incompetência administrativa do Distrito Federal. E não está sozinho.
Quarenta e sete obras do Governo do Distrito Federal estão paralisadas. Os contratos somam R$ 1,2 bilhão. O Tribunal de Contas do DF publicou o diagnóstico em março de 2026. O GDF arrecadou R$ 42,7 bilhões em 2025 — recorde histórico. Brasília ostenta a maior renda per capita do país. Perceba o que isso significa: dinheiro existe de sobra. O que falta é a capacidade de transformar orçamento em parede, em teto, em asfalto.
A ruína não é acidente. É método.
O raio-x do abandono
Dona Tereza Gonçalves tem 67 anos e mora em Samambaia há trinta e dois. Aposentada do comércio, ela caminha toda manhã pelo mesmo trajeto — passa pela padaria da QR 302, contorna o terreno cercado de tapumes e segue até a Unidade de Pronto Atendimento onde, em fevereiro, esperou seis horas com dor no peito. O cheiro de concreto úmido e ferrugem do canteiro abandonado se mistura ao aroma de pão quente da padaria vizinha. "Toda eleição prometem o hospital", diz Tereza, ajeitando o xale sobre os ombros numa manhã fria de Brasília. "Eu já desisti de esperar. Se precisar de internação, vou morrer na fila."
O relatório do TCDF classificou as 47 obras em três categorias: paralisadas há mais de dois anos (19), paralisadas entre um e dois anos (15) e paralisadas há menos de um ano (13). O padrão se repete com precisão mecânica — licitação apressada, empresa sem capacidade técnica, aditivos que inflam o custo original e, no fim, o silêncio dos canteiros vazios.
| Situação | Quantidade | Valor dos contratos | |----------|-----------|-------------------| | Paralisadas há mais de 2 anos | 19 | R$ 580 milhões | | Paralisadas entre 1 e 2 anos | 15 | R$ 410 milhões | | Paralisadas há menos de 1 ano | 13 | R$ 210 milhões | | Total | 47 | R$ 1,2 bilhão |
Das 19 obras paralisadas há mais de dois anos, sete tiveram a empresa contratada declarada inidônea. O GDF precisou rescindir os contratos e iniciar novas licitações — um processo que, na média, leva 14 meses. Catorze meses para recomeçar o que nunca deveria ter parado.
O dado que deveria tirar o sono do governador
Em 34% dos casos — dezesseis obras —, a empresa vencedora da licitação não tinha capacidade técnica ou financeira para executar o contrato. O critério de menor preço, aplicado sem análise rigorosa, entrega a obra para quem cobra menos. E quem cobra menos frequentemente é quem não consegue entregar.
O TCDF mapeou as causas com a frieza de quem já viu o mesmo filme muitas vezes.
| Causa | Ocorrências | Percentual | |-------|------------|-----------| | Empresa sem capacidade técnica/financeira | 16 | 34% | | Projeto executivo com falhas graves | 12 | 26% | | Aditivos superiores a 25% do valor original | 9 | 19% | | Desapropriação não concluída antes da obra | 6 | 13% | | Outros (embargo ambiental, judicial) | 4 | 8% |
Doze obras pararam porque o projeto executivo continha erros. Terraplanagem incompatível com o terreno. Dimensionamento elétrico subdimensionado. Falta de estudo de impacto ambiental. A culpa, nesses casos, recai sobre a Companhia Urbanizadora da Nova Capital — a Novacap — responsável por fiscalizar projetos antes que uma pá toque o solo.
A Novacap tem quadro técnico defasado — 40% dos engenheiros têm mais de 55 anos e o último concurso foi em 2009. A Secretaria de Obras opera com 62% do quadro preenchido por comissionados sem formação em engenharia ou arquitetura. Considere o absurdo: quem gerencia bilhões em obras públicas não sabe ler uma planta.
As obras que mais doem
Três feridas abertas concentram a frustração de milhões de brasilienses. Três promessas transformadas em concreto nu, expostas ao tempo, expostas à vergonha.
O hospital que virou esqueleto
O Hospital Regional de Samambaia deveria atender 350 mil moradores. A obra atingiu 62% de execução física em 2022 e parou. A construtora alegou desequilíbrio financeiro. O GDF rescindiu e abriu nova licitação em setembro de 2025. Até abril de 2026, nenhuma empresa foi contratada.
Quem entra na UPA de Samambaia sente o peso da superlotação antes de ver — o ar abafado, o som das macas rangendo no corredor, o cheiro de álcool misturado ao desinfetante que não disfarça nada. Pacientes com fraturas expostas esperam até oito horas por atendimento. O hospital seria a solução. Virou um esqueleto de concreto cercado por mato onde crianças brincam entre as ferragens.
O BRT que ficou pelo caminho
O BRT Sul foi inaugurado parcialmente em 2014. O trecho que ligaria o Gama ao Park Way — 11,4 quilômetros — nunca saiu do papel. O contrato original era de R$ 287 milhões. Com aditivos, chegou a R$ 412 milhões antes da paralisação.
O TCDF identificou que o projeto executivo apresentava erros de terraplanagem que inviabilizavam a execução. A empresa vencedora da licitação subcontratou o serviço para uma firma sem registro no Conselho Regional de Engenharia. Fundações fora do prumo, drenagem subdimensionada, embargo do Ibram. O resultado: 31% de execução e trilhões de promessas evaporadas.
| Obra | Valor original | Valor atualizado | Execução física | Situação | |------|---------------|-----------------|----------------|----------| | Hospital Samambaia | R$ 189 mi | R$ 247 mi | 62% | Paralisada desde 2022 | | BRT Sul (Gama-Park Way) | R$ 287 mi | R$ 412 mi | 31% | Paralisada desde 2021 | | Creches Tipo B (lote 3) | R$ 44 mi | R$ 58 mi | 0-45% | 6 unidades paralisadas | | Viaduto Ayrton Senna | R$ 73 mi | R$ 91 mi | 78% | Paralisada desde 2023 |
As creches que as crianças nunca viram
O GDF anunciou em 2021 a construção de 22 creches Tipo B para zerar a fila de espera na educação infantil. Seis unidades do lote 3 — destinadas a Ceilândia, Recanto das Emas e Riacho Fundo II — estão paralisadas. Três sequer tiveram fundação concluída.
A fila de espera por vagas em creches públicas no DF ultrapassa 28 mil crianças. As seis creches do lote 3 atenderiam 1.440 delas. São 1.440 famílias que reorganizariam sua rotina, 1.440 mães que poderiam voltar ao mercado de trabalho, 1.440 crianças que teriam lugar seguro enquanto seus pais sobrevivem. Observe como a promessa não cumprida se multiplica em cascata.
O servidor que fiscaliza sem capacete
A Secretaria de Obras e Infraestrutura do DF opera com 247 servidores efetivos para fiscalizar um portfólio de mais de R$ 4 bilhões em contratos ativos. Desses, apenas 89 são engenheiros ou arquitetos concursados — os demais ocupam funções administrativas. O TCU recomenda, para contratos dessa magnitude, proporção mínima de um fiscal técnico para cada R$ 30 milhões em valor contratado. O DF opera com um para cada R$ 45 milhões. A sobrecarga não é abstrata: cada fiscal acumula entre quatro e seis obras simultâneas, espalhadas por regiões administrativas que distam até 60 quilômetros entre si. O deslocamento consome horas que deveriam ser dedicadas à medição, ao acompanhamento do cronograma e à verificação dos materiais aplicados.
O resultado da subfiscalização é previsível: empresas atrasam sem consequência, substituem insumos sem registro, inflam medições sem que ninguém confira no canteiro. Quando o fiscal finalmente visita a obra e constata irregularidades, o prejuízo já se consolidou. A notificação gera um processo administrativo que leva, em média, 18 meses para concluir. O tempo burocrático é o melhor amigo da empresa que não quer entregar.
O preço da ferrugem
Obra parada não é obra congelada. É obra apodrecendo. O concreto exposto deteriora com as chuvas. Equipamentos já instalados são furtados — cabos de cobre, disjuntores, até vasos sanitários. Estruturas metálicas enferrujam e perdem capacidade estrutural. O som do vento batendo nos tapumes soltos é a trilha sonora da negligência.
O TCDF estima que a retomada das 47 obras custará entre 30% e 45% a mais que o valor original dos contratos. O contribuinte paga duas vezes — pela obra que não foi entregue e pelo custo adicional de retomá-la.
| Cenário de retomada | Custo estimado | Acréscimo | |--------------------|---------------|-----------| | Otimista (30% de sobrepreço) | R$ 1,56 bilhão | + R$ 360 milhões | | Realista (38% de sobrepreço) | R$ 1,66 bilhão | + R$ 456 milhões | | Pessimista (45% de sobrepreço) | R$ 1,74 bilhão | + R$ 540 milhões |
Traduzindo: R$ 1,2 bilhão em contratos travados se transformarão, na retomada, em algo entre R$ 1,56 bilhão e R$ 1,74 bilhão. A diferença — até R$ 540 milhões — pagaria todas as seis creches do lote 3, o hospital de Samambaia e ainda sobraria troco. O desperdício financia o desperdício.
O ciclo de Sísifo: quatro mandatos, a mesma pedra
O problema das obras paralisadas não é exclusividade do governo atual. O TCDF fez um levantamento histórico que revela o padrão com clareza perturbadora — cada mandato empurra a pedra morro acima, cada transição a deixa rolar de volta.
| Governo | Período | Obras paralisadas (pico) | Retomadas no mandato | |---------|---------|------------------------|---------------------| | Agnelo Queiroz (PT) | 2011-2014 | 38 | 14 | | Rodrigo Rollemberg (PSB) | 2015-2018 | 52 | 21 | | Ibaneis Rocha — 1º mandato (MDB) | 2019-2022 | 41 | 18 | | Ibaneis Rocha — 2º mandato (MDB) | 2023-2026 | 47 (atual) | 9 (até mar/2026) |
Governo novo herda obras paralisadas. Anuncia retomada com alarde midiático. Inicia novas obras para marcar a gestão — fitas, discursos, fotos com capacete. Abandona parte delas ao fim do mandato. O próximo governo recomeça o ritual. A descontinuidade administrativa é o motor, a ineficiência é o combustível, e o contribuinte é o tanque.
Rollemberg herdou 38 obras paradas de Agnelo e entregou 52 para Ibaneis. Ibaneis reduziu para 41 no primeiro mandato — mas iniciou 23 novas obras que engrossaram a lista no segundo. O saldo líquido de quatro governos é negativo: o DF termina cada gestão com mais ruínas do que começou.
A vergonha do Viaduto Ayrton Senna
O caso do Viaduto Ayrton Senna sintetiza a incompetência em escala reduzida. A obra atingiu 78% de execução física em 2023 — tão perto que dá para sentir o cheiro do asfalto fresco que nunca foi aplicado — e parou a menos de um quarto da conclusão.
O motivo: a empresa contratada alegou que o reajuste pelo Índice Nacional da Construção Civil não cobriu a inflação real dos insumos — aço e cimento subiram 34% entre 2022 e 2023. O GDF poderia ter negociado reequilíbrio econômico-financeiro em 60 dias. Optou por rescindir o contrato e licitar novamente. A nova licitação, publicada em agosto do ano passado, recebeu apenas duas propostas — ambas acima do orçamento estimado. O processo está suspenso.
Enquanto isso, o viaduto incompleto funciona como barreira no trânsito. Motoristas perdem em média 22 minutos por dia contornando a estrutura inacabada, segundo estimativa da Secretaria de Transporte e Mobilidade baseada em dados de GPS dos ônibus da região. Vinte e dois minutos por dia, multiplicados por milhares de motoristas, multiplicados por meses de inércia. O tempo perdido não aparece em nenhum relatório do GDF.
Brasília e seus vizinhos: a comparação que constrange
O DF não está sozinho no problema. Mas sua posição relativa é vergonhosa quando se considera quanto dinheiro entra nos cofres.
| Estado | Obras paralisadas (2026) | Arrecadação per capita | Índice obras/arrecadação | |--------|------------------------|----------------------|------------------------| | DF | 47 | R$ 14.800 | 3,2 obras por R$ bilhão | | SP | 189 | R$ 7.200 | 1,8 obras por R$ bilhão | | MG | 134 | R$ 4.100 | 2,9 obras por R$ bilhão | | RJ | 98 | R$ 5.800 | 2,4 obras por R$ bilhão | | PR | 42 | R$ 5.500 | 1,6 obras por R$ bilhão |
O Paraná, com arrecadação per capita três vezes menor, tem menos obras paradas em números absolutos e proporcionais. A diferença não é orçamentária — é gerencial. Ponto final.
O custo social que não cabe na planilha
As 47 obras paralisadas não são apenas concreto abandonado — são serviços que não chegam a quem precisa. As seis creches do lote 3 atenderiam 1.440 crianças cujas mães, sem onde deixar os filhos, não conseguem aceitar emprego formal. O Hospital de Samambaia aliviaria a pressão sobre a UPA que opera a 140% da capacidade, onde pacientes com infarto dividem corredor com vítimas de acidente de trânsito. O BRT Sul reduziria em 40 minutos o trajeto diário de 22 mil moradores do Gama.
O TCDF calculou que cada ano de atraso na entrega do Hospital de Samambaia resulta em aproximadamente 1.200 internações que poderiam ter sido evitadas por diagnóstico precoce — pacientes que chegam à UPA em estágio avançado porque não tiveram acesso a consulta ambulatorial. O custo dessas internações evitáveis: R$ 38 milhões por ano. Em quatro anos de paralisação, o SUS gastou R$ 152 milhões tratando consequências de um hospital que custaria R$ 247 milhões para concluir. A conta do abandono é maior que a conta da obra.
As 14 recomendações e a resposta provável
O TCDF fez 14 recomendações ao GDF. As três mais relevantes:
Criar unidade de gestão de obras paralisadas — um escritório dedicado exclusivamente à retomada das 47 obras, com equipe técnica permanente e metas trimestrais.
Proibir licitação de obra nova sem conclusão das paralisadas — enquanto houver obra parada na mesma região administrativa, o GDF não deveria abrir nova licitação na mesma área.
Exigir seguro-garantia de 30% do valor do contrato — atualmente, o GDF exige apenas 5%, insuficiente para cobrir o custo de paralisação e retomada.
As recomendações do TCDF não têm força vinculante — são orientações que o GDF pode acatar ou ignorar. O histórico sugere a segunda opção: das 23 recomendações feitas pelo Tribunal em relatórios anteriores sobre obras paralisadas, apenas seis foram integralmente implementadas.
O governador Ibaneis Rocha tem até junho de 2026 para apresentar plano de ação. O prazo é apertado. A resposta mais provável é a de sempre: uma coletiva de imprensa prometendo "prioridade absoluta" seguida de meses de silêncio burocrático. Se o GDF mantiver o ritmo atual de retomada — três obras por trimestre —, as 47 levarian quatro anos para serem concluídas. O Hospital de Samambaia, pelo histórico de paralisações, dificilmente ficará pronto antes de 2029.
Dona Tereza continua passando pelo canteiro toda manhã. O mato já cobre os primeiros tijolos. Os tapumes pendem como cortinas rasgadas de um teatro que nunca estreou. Brasília — a cidade que arrecada R$ 42 bilhões por ano — não consegue entregar uma escola sem teto, um hospital sem parede, uma via expressa sem asfalto. O dinheiro existe. A vontade política para aplicá-lo é a única obra que nunca saiu da planta.
Dados extraídos do Relatório de Auditoria de Obras Paralisadas do TCDF (publicação março/2026), complementados com informações da Agência Brasília, Correio Braziliense e Metrópoles. Valores atualizados pelo IPCA até fevereiro/2026.
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