
Corredor do Hospital de Base do DF — a maior unidade da rede pública opera a apenas 68,8% da capacidade cirúrgica instalada
Fila de cirurgias eletivas no SUS do DF passa de 48 mil pacientes: espera média é de 14 meses
Mais de 48 mil moradores do DF aguardam uma cirurgia que o SUS deveria ter feito há meses. A espera média ultrapassa um ano.
Fila de cirurgias eletivas no SUS do DF passa de 48 mil pacientes: espera média é de 14 meses
Dona Aparecida tem 63 anos, mora em Samambaia Sul e precisa trocar o joelho direito. O esquerdo já dói faz tempo, mas o direito é o que trava — aquela pontada surda que acorda junto com ela às quatro da manhã, antes do despertador, antes do galo do vizinho, antes de qualquer coisa que preste. O cheiro de cânfora do gel anti-inflamatório já impregnou o lençol. A textura pegajosa do adesivo de lidocaína virou segunda pele. A bengala que era provisória completou oito meses de uso.
Dona Aparecida entrou na fila do SUS em novembro de 2024. A previsão que recebeu na triagem: "uns dez meses, senhora." Já se passaram dezesseis. O joelho não espera. A fila, sim.
Quarenta e oito mil e trezentas pessoas. Esse é o número de moradores do Distrito Federal que, em março de 2026, aguardavam cirurgia eletiva na rede pública. A fila cresceu 23% em relação ao mesmo mês do ano anterior, quando eram 39.300.
O dado veio por meio da Lei de Acesso à Informação. A Secretaria de Saúde não publica a fila consolidada em nenhum portal aberto. Foi preciso pedir.
A espera média: 14 meses. Quem precisa de ortopedia espera 19. Quem precisa de catarata, 16.
Radiografia da espera
A composição da fila revela dois gargalos crônicos que o GDF não enfrenta há pelo menos quatro anos.
| Especialidade | Pacientes na fila | % do total | Espera média (meses) | |--------------|-------------------|-----------|---------------------| | Ortopedia | 15.456 | 32,0% | 19 | | Oftalmologia | 13.524 | 28,0% | 16 | | Urologia | 4.344 | 9,0% | 13 | | Ginecologia | 3.864 | 8,0% | 11 | | Cirurgia geral | 3.381 | 7,0% | 10 | | Otorrinolaringologia | 2.898 | 6,0% | 12 | | Demais especialidades | 4.833 | 10,0% | 9 | | Total | 48.300 | 100% | 14 |
Ortopedia e oftalmologia juntas: 60% da fila. Especialidades de alta demanda em populações que envelhecem — e o DF tem a segunda maior taxa de crescimento da população acima de 60 anos entre as unidades federativas, segundo projeção do IBGE para 2026.
O perfil típico: mulher, acima de 55 anos, moradora de Ceilândia, Samambaia ou Planaltina, renda domiciliar de até três salários mínimos. Precisa de cirurgia de joelho ou quadril. Entrou na fila em 2024. Continua esperando. A dor, não.
A espiral que cresce em silêncio
A fila não explodiu de uma vez. Cresceu sistematicamente, trimestre após trimestre, num ritmo que a Secretaria de Saúde teve tempo de sobra para reverter — e não reverteu.
| Período | Total na fila | Variação anual | |---------|--------------|----------------| | Mar/2024 | 34.100 | — | | Mar/2025 | 39.300 | +15,2% | | Mar/2026 | 48.300 | +22,9% |
Em dois anos, a fila saltou 41,6%. Quatorze mil pessoas adicionadas. Nenhum plano emergencial anunciado. Nenhuma meta de redução publicada. A Secretaria operou no piloto automático enquanto a espera engordava — e cada mês de espera é um mês de dor, de limitação, de vida que não acontece.
Salas vazias, filas cheias
A rede pública do DF tem 14 hospitais. A capacidade cirúrgica instalada não é o problema — o uso dela, sim.
| Hospital | Cirurgias eletivas (1º tri 2026) | Capacidade estimada | Taxa de uso | |----------|--------------------------------|--------------------|-----------:| | HB (Hospital de Base) | 2.890 | 4.200 | 68,8% | | HRAN (Asa Norte) | 1.456 | 2.100 | 69,3% | | HRT (Taguatinga) | 1.230 | 1.900 | 64,7% | | HRC (Ceilândia) | 987 | 1.600 | 61,7% | | HRS (Samambaia) | 654 | 1.200 | 54,5% | | HRSM (Santa Maria) | 512 | 1.000 | 51,2% |
Nenhum hospital opera acima de 70%. O Hospital de Base, referência de média e alta complexidade, funciona a 68,8%. O HRS de Samambaia — que atende a segunda maior RA do DF — usa pouco mais da metade do que poderia.
O problema não é falta de sala cirúrgica. É falta de anestesista. Falta de equipe de enfermagem cirúrgica. Falta de material esterilizado. E, acima de tudo, falta de gestão de agenda.
Salas ociosas à tarde porque as equipes concentram procedimentos de manhã. Salas paradas às sextas porque falta retaguarda para o pós-operatório do fim de semana. O bisturi está lá. O paciente está lá. A sala está lá. O que não está é a decisão de juntar as três coisas no mesmo horário.
O Estado mais rico que opera pior
O Distrito Federal destinou 18,2% da receita corrente líquida para saúde no ano anterior. O mínimo constitucional é 12%. O DF gasta 50% acima do piso.
| UF | Orçamento saúde 2026 | População | Gasto per capita | |----|---------------------|-----------|---------------:| | DF | R$ 9,4 bi | 3,1 mi | R$ 3.032 | | SP | R$ 38,2 bi | 46,6 mi | R$ 820 | | RJ | R$ 14,1 bi | 17,5 mi | R$ 806 | | MG | R$ 16,8 bi | 21,4 mi | R$ 785 |
R$ 3.032 por habitante. São Paulo gasta R$ 820. A fila cirúrgica de São Paulo, proporcionalmente, é menor.
Cada real investido em saúde no DF produz menos resultado que em estados com orçamentos muito menores. O Ceará, com gasto per capita de R$ 612, mantém fila cirúrgica proporcionalmente 30% menor, segundo o DATASUS.
O dinheiro existe. A conversão de dinheiro em bisturi na sala de cirurgia, não.
O mutirão que não fecha a conta
O GDF anunciou em fevereiro "mutirão de cirurgias eletivas" — meta de 5 mil procedimentos em 60 dias. Resposta padrão do poder público quando a fila atinge proporções constrangedoras. Funciona como analgésico: alivia a dor aguda, não trata a causa crônica.
Em março, o mutirão havia realizado 2.340 cirurgias — 46,8% da meta. A fila, mesmo descontando os mutirões, continuou crescendo.
A aritmética é implacável. A rede realiza cerca de 2.800 cirurgias eletivas por mês em regime normal. Entram na fila 3.600 novos pacientes por mês. Déficit mensal: 800 procedimentos. Em 12 meses: 9.600 cirurgias acumuladas.
Nenhum mutirão de fim de semana fecha essa conta. A solução exige aumento permanente da produção — contratar anestesistas, reorganizar escalas, operar nos dois turnos, inclusive sábados. Mutirão é curativo. A ferida precisa de sutura.
O mapa da espera é o mapa da desigualdade
A fila não distribui sofrimento igualmente. Quem tem plano migra para a rede privada. Quem tem poupança paga do bolso. Quem não tem nenhum dos dois espera.
No DF, 34% da população possui plano de saúde privado — maior percentual do país, segundo a Agência Nacional de Saúde Suplementar. Os 66% restantes — 2,05 milhões de pessoas — dependem exclusivamente do SUS. São eles que engrossam os 48 mil.
| RA | Pacientes na fila | % da população local | Cobertura plano privado | |----|-------------------|---------------------|----------------------:| | Ceilândia | 10.626 | 2,5% | 12% | | Samambaia | 6.762 | 2,3% | 14% | | Planaltina | 5.313 | 2,6% | 9% | | Recanto das Emas | 3.864 | 2,4% | 11% | | Taguatinga | 3.381 | 1,6% | 31% | | Plano Piloto | 1.449 | 0,7% | 68% |
Correlação direta: quanto menor a cobertura privada, maior a dependência do SUS, maior a fila. O Estado cobra o mesmo imposto de todos e entrega saúde desigual. Dona Aparecida, em Samambaia, paga proporcionalmente o mesmo que o morador do Lago Sul que agenda a artroscopia para terça-feira na rede privada.
A diferença: um tem R$ 15 mil para o procedimento particular. A outra tem a fila. E a bengala. E o cheiro de cânfora no lençol.
Três decisões que mudariam a conta
A fila de 48 mil não é problema técnico. É problema de prioridade.
Operar nos dois turnos. As salas cirúrgicas funcionam predominantemente das 7h às 13h. O turno da tarde é subutilizado por falta de equipe. Contratar anestesistas e instrumentadores para o segundo turno aumentaria a produção em até 60%, segundo estimativa do Conselho Regional de Medicina do DF. Sessenta por cento. Com as mesmas salas que já existem.
Fixar meta pública. A Secretaria não tem meta de redução publicada. Sem meta, sem cobrança. Sem cobrança, sem urgência. Zerar a fila em 24 meses exigiria 4.800 cirurgias mensais — 71% acima do patamar atual. Difícil. Possível. Se fosse prioridade.
Publicar a fila em tempo real. O cidadão que entra na fila não sabe sua posição, não sabe a previsão, não sabe se a fila anda. Curitiba implementou painel público com atualização semanal em 2024 — e já mostrou resultados. Transparência gera pressão. Pressão gera resultado.
O retrato de quem espera
O Distrito Federal gasta mais em saúde por habitante que qualquer estado. Tem o maior PIB per capita do país. Tem a maior proporção de servidores públicos. Tem tudo para ter o melhor SUS do Brasil.
Tem 48 mil pessoas esperando cirurgia.
O problema não é recurso. É conversão de recurso em atendimento. Cada real que entra no orçamento da saúde se perde em camadas de burocracia, contratos de gestão mal fiscalizados, escalas médicas que privilegiam a manhã e abandonam a tarde, equipamentos comprados e não instalados.
Dona Aparecida não entende de execução orçamentária. Não sabe o que é taxa de uso de capacidade instalada. Não lê relatório do DATASUS. Mas entende — com a clareza de quem sente a pontada toda madrugada — que o tempo é a moeda mais cruel que o Estado cobra de quem depende dele.
Quatorze meses. Dezenove, se for joelho. A espera corrói o corpo, corrói a dignidade, corrói a confiança de que alguém, em algum gabinete, se importa.
A fila é um relógio que conta ao contrário. Cada dia que passa não aproxima da cirurgia — afasta da vida que Dona Aparecida tinha antes do joelho travar. A vida em que subia a escada sem pensar, em que caminhava até a feira sem bengala, em que dormia sem cânfora. O SUS do DF não precisa de mais dinheiro. Precisa de gestão que transforme R$ 9,4 bilhões em bisturi na mesa — antes que a espera se torne a última coisa que o paciente aguarda.
Dados: Secretaria de Saúde do DF (resposta LAI nº 00393.000847/2026-12, março de 2026), DATASUS (produção hospitalar SIH/SUS, competência jan-mar/2026), IBGE (projeção populacional 2026), Agência Nacional de Saúde Suplementar (cobertura de planos privados, dez/2025), Conselho Nacional de Secretários de Saúde (CONASS, painel de filas cirúrgicas 2025), CODEPLAN (PDAD 2024). Valores orçamentários conforme LOA 2026 do DF e RREO publicados pelos respectivos estados. Estimativas de capacidade cirúrgica baseadas em infraestrutura física reportada ao CNES.
Receba o Mirante no seu email
As principais notícias do dia, curadas por inteligência artificial, direto na sua caixa de entrada.
Leia também

A Parábola da Fila do SUS às Quatro da Manhã
Às quatro da manhã, quando Brasília ainda dorme, centenas de pessoas já estão de pé na fila do Hospital Regional de Sobradinho. Jesus de Nazaré foi até lá e conta o que viu.

Vacina da dengue atinge apenas 12% de cobertura no Brasil após um ano de campanha
O Ministério da Saúde previa vacinar 20 milhões de pessoas até março de 2026, mas apenas 2,4 milhões completaram o esquema. A logística falhou onde a ciência funcionou.

DF tem 47 obras paradas e R$1,2 bilhão em contratos travados, aponta TCDF
Relatório do Tribunal de Contas do Distrito Federal revela que quase metade das grandes obras do GDF está paralisada. Escolas, hospitais e vias estruturantes acumulam anos de atraso.