
Viatura da PMDF em Ceilândia — a região administrativa com maior registro de ocorrências no Distrito Federal
Criminalidade cai 12% no DF — mas ninguém sabe se a queda chegou a Ceilândia
A SSP-DF anuncia a maior queda trimestral de criminalidade em cinco anos, mas se recusa a publicar os dados por região administrativa. Oitocentos mil moradores da periferia continuam sem saber se o número é realidade ou propaganda.
Criminalidade cai 12% no DF — mas ninguém sabe se a queda chegou a Ceilândia
Seu Geraldo fecha a porta de aço da mercearia às dezenove horas em ponto. Três cadeados — o de cima, o do meio, o de baixo. Nessa ordem, sempre. O barulho metálico ecoa pela QNM 17 de Ceilândia Norte como um ritual noturno que os vizinhos já conhecem de ouvido. O cheiro de alho frito do bar ao lado se mistura ao diesel dos ônibus que sobem a avenida. Geraldo confere o celular: nenhuma notificação da câmera de segurança que instalou depois do segundo assalto. Uma noite tranquila. Talvez.
Doze por cento. Na última semana, a Secretaria de Segurança Pública do Distrito Federal anunciou a maior queda trimestral de criminalidade em cinco anos. Roubos a transeunte, furtos em comércio, latrocínios — todos os indicadores apontam para baixo no consolidado de janeiro a março de 2026.
O governador comemorou. A bancada situacionista publicou cards. O secretário deu entrevista de quinze minutos no horário nobre.
Faltou um número: o recorte por região administrativa.
Geraldo não sabe se os 12% chegaram à QNM 17. Ninguém sabe.
O mapa que falta no boletim
O boletim trimestral da SSP-DF traz dados agregados do Distrito Federal inteiro. Soma o Lago Sul com Sol Nascente. Mistura o Sudoeste com Samambaia. Junta o Plano Piloto — onde a taxa de homicídios se compara à de capitais europeias — com Ceilândia, que sozinha concentrou 18% dos crimes violentos letais intencionais do DF em 2024, segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública.
Sem desagregação geográfica, 800 mil moradores de Ceilândia, Samambaia, Recanto das Emas e Sol Nascente ficam sem saber se a queda é realidade no quarteirão deles — ou privilégio do Plano Piloto.
A pergunta que a SSP não respondeu: onde, exatamente, a criminalidade caiu?
Sem endereço, o número é promessa sem chão. Vitrine sem loja. Fronteira desenhada no ar.
Os dados que existem — e que alguém decidiu não publicar
A SSP-DF possui, desde 2017, sistema de georreferenciamento que registra latitude e longitude de cada boletim de ocorrência. Os dados existem. O que não existe é publicação desagregada.
Recorrendo aos últimos dados disponíveis por região administrativa — compilados pela Codeplan na Pesquisa Distrital por Amostra de Domicílios e cruzados com registros policiais — o retrato é o seguinte:
Ceilândia registrou, em 2024, 8.420 ocorrências de roubo e furto — 22% do total do DF, numa população que representa 14%. Taxa de homicídios: 24,3 por 100 mil habitantes. Quase cinco vezes a do Plano Piloto (5,1 por 100 mil).
Samambaia acumulou 4.870 ocorrências. Taxa de homicídio de 19,7 por 100 mil — superior à média nacional de 2024, que foi de 17,2 segundo o Anuário do Fórum Brasileiro de Segurança Pública.
Recanto das Emas, com 150 mil habitantes, registrou letalidade violenta de 21,4 por 100 mil — patamar equivalente ao de Alagoas, estado mais violento do Brasil na série histórica.
Sol Nascente/Pôr do Sol, a RA mais jovem e de crescimento mais acelerado, sequer possui série histórica consolidada. Dados contabilizados ora junto a Ceilândia, ora separadamente — um buraco estatístico que esconde a realidade de 100 mil moradores.
Se a queda de 12% fosse distribuída uniformemente, todas essas RAs teriam melhora. Mas a experiência internacional mostra que reduções agregadas de criminalidade tendem a se concentrar nas áreas com policiamento mais denso — o que, no DF, significa Plano Piloto, Lago Sul e Águas Claras.
A fronteira entre segurança e insegurança não é geográfica. É política.
As três armadilhas escondidas nos números
Sazonalidade. O primeiro trimestre é historicamente mais brando. Carnaval reduz circulação noturna. Chuvas de fevereiro e março esvaziam ruas. Comparar janeiro-março com o trimestre anterior — outubro a dezembro, pico de furtos no comércio — infla qualquer queda. A comparação honesta é com o mesmo período do ano passado. A SSP fez isso, mas sem abrir por RA.
Subnotificação. O Fórum Brasileiro de Segurança Pública estima que apenas 30% dos furtos e 47% dos roubos viram boletim de ocorrência no Brasil. No DF, a Pesquisa Distrital da Codeplan mostrou que moradores de RAs de baixa renda registram menos — desconfiança na polícia, distância da delegacia, medo de retaliação. Queda nos boletins pode significar menos crime. Pode significar menos registro. As duas coisas são verdade em frequências diferentes.
Mudança metodológica. No ano passado, a SSP-DF alterou a classificação de "roubo a transeunte" e "roubo em transporte coletivo", unificando categorias antes contabilizadas separadamente. Qualquer mudança taxonômica produz descontinuidade na série histórica. Sem nota técnica explicando o impacto, comparações com anos anteriores são exercício de fé, não de análise.
Ceilândia: o termômetro que o governo se recusa a ler
Ceilândia tem 430 mil habitantes. Maior que a maioria das capitais estaduais. Renda domiciliar média de R$ 3.200, um terço da média do Plano Piloto.
Seu Geraldo mora ali há trinta e dois anos. Viu a avenida ser asfaltada, viu o asfalto rachar, viu remendarem, viu rachar de novo. Conhece pelo nome cada vizinho num raio de três quadras. Sabe quem foi assaltado na semana passada. Sabe quem não registrou.
No Atlas da Violência do IPEA, a taxa de homicídios nas regiões periféricas do DF oscilou entre 20 e 28 por 100 mil habitantes na última década — comparável ao Nordeste. No Plano Piloto, inferior a 5 por 100 mil.
Quando a SSP publica um número agregado de -12%, calcula a média entre dois mundos que não se comunicam. É como medir a temperatura média de um paciente com febre na cabeça e hipotermia nos pés: o termômetro marca normal, mas o paciente está morrendo.
A fronteira entre os dois DFs não é o córrego Vicente Pires. É a linha invisível onde o policiamento muda de frequência — e com ele, a sensação de que o Estado existe.
Quem já faz o que o DF se recusa a fazer
São Paulo publica, desde 2015, dados mensais por delegacia seccional — equivalente funcional da RA. O portal SP Dados Abertos mantém série histórica desde 2001, desagregada por tipo de crime e região.
Minas Gerais opera a plataforma "Onde Tem Tiroteio" integrada ao instituto estadual, com mapeamento em tempo real. O Ceará publica boletins semanais com recorte por Área Integrada de Segurança.
No plano internacional, a Metropolitan Police de Londres disponibiliza dados por rua — literalmente por quadra — atualizados mensalmente. O FBI mantém o programa Uniform Crime Reporting desde 1930.
O DF tem câmeras com reconhecimento facial, viaturas com GPS, sistema integrado de despacho. Toda essa infraestrutura gera dados. A decisão de não publicá-los é política, não técnica.
Até o Pará — orçamento de segurança sete vezes menor que o do DF — publica dados desagregados por município desde 2019. O Distrito Federal, com 35 regiões administrativas e infraestrutura de primeiro mundo, não consegue fazer o mesmo.
Ou melhor: não quer.
O crime que cruza a divisa e desaparece da estatística
Águas Lindas de Goiás. Valparaíso. Luziânia. Novo Gama. O Entorno abriga 1,2 milhão de pessoas que vivem em Goiás, trabalham em Brasília e transitam diariamente entre duas jurisdições que mal trocam dados.
A dinâmica é conhecida: endurecimento policial no DF empurra criminalidade para o Entorno. A queda de 12% pode ser, em parte, deslocamento — o crime não desapareceu, cruzou a fronteira.
Águas Lindas: taxa de homicídios de 38,2 por 100 mil em 2024 — o dobro da média do DF. Luziânia: 31,7. Valparaíso: 22,4. Números que deveriam compor qualquer análise séria de segurança na capital federal, mas vivem num limbo jurisdicional: Goiás não presta contas ao DF, e o DF finge que o Entorno é problema de Goiás.
O morador de Ceilândia que trabalha no Plano Piloto e pega ônibus que passa por Águas Lindas sabe: a estatística não conhece a rota dele. A fronteira do mapa não coincide com a fronteira do medo.
O que separaria conquista legítima de propaganda
Para que os 12% signifiquem algo além de coletiva de imprensa, três condições precisam ser atendidas ao mesmo tempo:
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Desagregação. Dados por região administrativa — como Minas Gerais, São Paulo e Rio de Janeiro já fazem. Sem endereço, número é fumaça.
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Série comparável. A mudança metodológica de 2025 precisa de nota técnica com fator de correção. Sem ponte entre séries, a queda é incomparável.
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Integração com o Entorno. Enquanto o DF medir segurança como se fosse ilha, os números vão omitir deslocamento criminal. O Fórum Brasileiro de Segurança Pública recomendou, em 2023, indicador integrado para a RIDE. Nunca implementado.
R$ 5,8 bilhões: o preço da pergunta sem resposta
O DF gasta R$ 5,8 bilhões por ano com segurança pública — terceiro maior orçamento per capita do país. Cada ponto de queda justifica renovação de contratos, compra de viaturas, manutenção de efetivo.
Se a queda é real e distribuída, é conquista legítima que merece reconhecimento. Se é concentrada no Plano Piloto enquanto Ceilândia segue sangrando, é marketing com dinheiro público.
A SSP tem os dados. Tem os sistemas. Tem os georreferenciamentos. Publicar o recorte por RA não é favor — é obrigação prevista na Lei de Acesso à Informação. Prática que estados com menos recursos já adotam há anos.
O contribuinte que financia R$ 5,8 bilhões anuais tem direito de saber se o investimento protege todos os bairros ou apenas os que já são seguros.
O custo invisível da opacidade
A recusa em publicar dados desagregados não é só problema de transparência. É problema de eficiência. Sem saber onde a criminalidade caiu e onde subiu, a SSP aloca recursos no escuro.
Policiamento baseado em evidência é doutrina consolidada desde os anos 1990. O modelo CompStat, criado pelo Departamento de Polícia de Nova York em 1994, parte de princípio simples: dados granulares por bairro, atualizados semanalmente, orientam distribuição de viaturas, escalação de turnos e priorização de investigações. Nova York reduziu homicídios em 72% entre 1993 e 2001.
O DF possui infraestrutura compatível com qualquer capital de primeiro mundo. A decisão de não transformar dados em política pública transparente é incompatível com o orçamento de R$ 5,8 bilhões.
A opacidade impede também a sociedade civil de cobrar. Organizações como o Instituto Sou da Paz e o Fórum Brasileiro de Segurança Pública produzem análises de qualidade quando dados estão disponíveis. Sem desagregação, pesquisadores operam com estimativas — e estimativas não pressionam governo.
Seu Geraldo não lê relatório do Fórum de Segurança Pública. Não conhece o modelo CompStat. Mas sabe — com a sabedoria calada de quem tranca três cadeados toda noite — que a segurança do quarteirão dele não melhorou em 12%.
A fronteira entre proteção e abandono, no Distrito Federal, é traçada toda noite pelo barulho dos cadeados. Três no portão de Geraldo, em Ceilândia. Zero na porta corrediça do Lago Sul, onde a viatura passa a cada vinte minutos. Os 12% vivem num lado dessa fronteira. Os três cadeados, no outro. E enquanto a SSP celebrar números sem endereço, a periferia continuará medindo segurança não pelo boletim do governo — mas pelo peso do aço na mão, toda noite, às dezenove horas em ponto.
Dados: SSP-DF (boletim trimestral jan-mar/2026), CODEPLAN (PDAD 2021 e estimativas populacionais 2026), IPEA (Atlas da Violência), Fórum Brasileiro de Segurança Pública (Anuário), Anuário de Segurança Pública do Estado de Goiás (2024). Dados de Águas Lindas, Luziânia e Valparaíso obtidos via Secretaria de Segurança Pública de Goiás.
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