
Sala de aula da rede pública do DF — R$ 45 milhões prometidos para inteligência artificial, zero transparência entregue
R$ 45 milhões para IA nas escolas do DF — e cinco perguntas que o governo não responde
Quarenta e cinco milhões de reais. Setecentas escolas. Nenhum contrato publicado, nenhum relatório de impacto à proteção de dados, nenhuma métrica de avaliação. O programa de inteligência artificial do GDF para a rede pública tem tudo — menos transparência.
R$ 45 milhões para IA nas escolas do DF — e cinco perguntas que o governo não responde
Lucas tem nove anos e estuda na Escola Classe 64 de Ceilândia. Toda manhã, a mãe — Raquel, auxiliar de limpeza, turno das seis às duas — o deixa no portão com a mochila azul desbotada, um beijo na testa e a certeza silenciosa de que a escola é o único elevador social que ela pode apertar. O caderno de Lucas cheira a lápis apontado e borracha nova. A sala cheira a giz, suor infantil e esperança comprimida entre paredes com infiltração.
É nessa sala que o governo quer instalar inteligência artificial.
Quarenta e cinco milhões de reais do contribuinte brasiliense vão financiar um programa de IA em 700 escolas públicas do Distrito Federal. O GDF anunciou parceria com a Universidade de Brasília e o Instituto Federal de Brasília — pompa, coletiva de imprensa, promessas de revolução pedagógica. Faltou o básico: dizer como o dinheiro será gasto.
O Mirante News protocolou pedido via Lei de Acesso à Informação em 21 de março de 2026. A LAI garante prazo de 20 dias para resposta, prorrogável por mais 10. Até o fechamento desta reportagem — 14 dias após o protocolo — nenhuma resposta, nenhum pedido de prorrogação, nenhum acuso de recebimento.
O silêncio é a primeira resposta. E já diz bastante.
Cinco perguntas, zero respostas
1. Quem vai fornecer a tecnologia?
O GDF mencionou UnB e IFB como parceiros acadêmicos. Parceiro acadêmico não fabrica software, não instala servidor, não dá suporte técnico. Alguma empresa privada vai operar o sistema — e o governo não disse qual.
R$ 45 milhões em tecnologia educacional sem licitação publicada, sem ata de registro de preço acessível, sem identificação do fornecedor. O contribuinte paga. Não sabe para quem.
2. O que acontece com os dados das crianças?
A Lei Geral de Proteção de Dados exige Relatório de Impacto à Proteção de Dados Pessoais para qualquer sistema que processe informações de menores. Crianças são titulares de dados sensíveis. O tratamento requer consentimento específico dos responsáveis legais, conforme o artigo 14 da LGPD.
O GDF não divulgou nenhum relatório de impacto. Não mencionou consentimento parental. Não explicou onde os dados serão armazenados, quem terá acesso, por quanto tempo ficarão retidos.
Setecentas escolas. Centenas de milhares de alunos. Crianças de 6 a 17 anos cujos dados comportamentais, de desempenho e de navegação serão alimentados a algoritmos. Seus pais não sabem exatamente o quê, para quem e por quê.
A mãe de Lucas assinou uma ficha de matrícula. Não assinou autorização para que o histórico escolar do filho alimente um modelo de aprendizado de máquina cujo dono ela desconhece.
A Autoridade Nacional de Proteção de Dados já multou órgãos públicos por falhas semelhantes. Em 2023, aplicou sanção à Secretaria de Saúde de Barueri por tratar dados sensíveis sem base legal adequada. O poder público não está imune — e deveria dar o exemplo.
3. Qual a formação dos professores?
Instalar tablet sem treinar professor é colecionar peso de papel caro. O Brasil já fez isso. Sabe como termina.
Em 2012, o governo federal distribuiu 600 mil tablets para professores da rede pública. A maioria encalhou em armários. Pesquisas do Centro Regional de Estudos para o Desenvolvimento da Sociedade da Informação mostraram que a ausência de formação docente foi o principal fator de fracasso.
O programa do GDF menciona "capacitação". Não diz quantas horas. Não diz se será presencial ou a distância. Não diz quem ministrará. Não diz se haverá acompanhamento posterior. "Capacitação" sem plano é palavra solta — som sem sentido, semente sem terra.
4. Como vão medir se funciona?
Nenhuma métrica publicada. Nenhum indicador de desempenho. Nenhuma linha de base. Nenhum grupo de controle.
Programas-piloto em São Paulo e Minas Gerais registraram melhoria de até 18% em matemática em escolas com tutoria por IA. Dado promissor — mas veio de programas com avaliação rigorosa, grupos de controle, acompanhamento longitudinal. Sem isso, não existe evidência. Existe gasto.
| Aspecto | Programas com resultado | Programa do GDF | |---------|------------------------|-----------------| | Grupo de controle | Sim | Não divulgado | | Métrica de avaliação | IDEB, proficiência, evasão | Nenhuma anunciada | | Linha de base | Medida antes da implantação | Não mencionada | | Prazo de avaliação | 12 a 24 meses | Não definido | | Publicação de resultados | Periódica e aberta | Sem compromisso |
5. Quanto custa manter depois?
Os R$ 45 milhões cobrem implantação. Licenças de software, manutenção de hardware, atualização de modelos, suporte técnico permanente — tudo isso tem custo recorrente que o governo não divulgou.
Projetos de tecnologia educacional que não preveem manutenção morrem em dois a três anos. Padrão. Aconteceu com os tablets federais. Aconteceu com lousas digitais em Goiás. Aconteceu com laboratórios de informática na própria rede do DF.
A terra onde a semente cairia
A pesquisa TIC Educação do CETIC.br mostra que apenas 42% das escolas públicas brasileiras têm infraestrutura tecnológica adequada — internet acima de 50 Mbps, dispositivos suficientes, equipe de suporte.
O DF está acima da média nacional. Mas "acima da média" num país onde a média é 42% não é sinônimo de pronto para inteligência artificial.
| Indicador | Brasil | Distrito Federal | |-----------|--------|-------------------| | Escolas com internet adequada (50+ Mbps) | 42% | ~58% | | Computadores por aluno (rede pública) | 1 para 22 | 1 para 15 | | Escolas com equipe de suporte de TI | 31% | ~44% | | Professores com formação em tecnologia educacional | 28% | ~35% |
Fontes: CETIC.br TIC Educação 2024; Censo Escolar INEP 2024. Dados do DF estimados a partir de amostra regional.
As 700 escolas do programa representam a quase totalidade da rede. Implantar IA em escola sem internet estável é jogar semente em concreto — e depois culpar a semente por não ter germinado.
A Escola Classe 64 de Lucas, para registro, tem wifi que cai três vezes por manhã. A professora do terceiro ano usa o celular pessoal como hotspot quando precisa projetar um vídeo. É nessa infraestrutura que o GDF pretende rodar inteligência artificial.
O cemitério de tablets que o governo finge não existir
O Brasil já tentou resolver educação com tecnologia e pressa. O resultado está documentado — enterrado em relatórios que ninguém releu.
Em 2012, o Ministério da Educação comprou 600 mil tablets. R$ 180 milhões. Três anos depois, pesquisa do CETIC.br revelou que a maioria não era usada em sala. Internet inexistente. Treinamento zero. Software incompatível. Suporte técnico ausente.
O Tribunal de Contas da União auditou em 2015: sem impacto mensurável na qualidade do ensino. Seiscentos mil tablets. R$ 180 milhões. Zero resultado comprovado.
O padrão se repetiu em escala estadual, com a regularidade monótona de um erro que ninguém se dá ao trabalho de evitar.
| Programa | Investimento | Resultado documentado | |----------|-------------|----------------------| | Tablets MEC (2012) | R$ 180M | TCU: sem impacto mensurável | | Lousas digitais Goiás (2014) | R$ 42M | Funcionaram 2 anos, pararam | | Notebooks SP (2013) | R$ 95M | Software proprietário expirou | | Laboratórios DF (2018) | R$ 28M | Máquinas defasadas em 2023 |
A pergunta que o GDF precisa responder não é se IA pode melhorar a educação. Pode. A pergunta é: o que este programa faz de diferente de todos os que falharam antes?
Sem resposta, R$ 45 milhões são aposta — e Raquel, que paga imposto sobre cada produto de limpeza que compra para trabalhar, não deveria ser obrigada a apostar na educação do filho.
O roteiro conhecido: anúncio grandioso, execução invisível
O programa segue um script que qualquer observador da gestão pública brasileira reconhece de olhos fechados:
Governo anuncia investimento bilionário em tecnologia. Imprensa repercute. Oposição aplaude porque ninguém é contra educação. Meses depois, a execução emperra. Contratos são questionados. Equipamentos envelhecem sem uso. Ninguém mede resultado porque ninguém definiu o que medir.
O Tribunal de Contas do Distrito Federal tem obrigação de auditar esses R$ 45 milhões. Não apenas a legalidade dos contratos — a efetividade do gasto. Cada real em tecnologia educacional é um real que não foi para salário de professor, reforma de escola, merenda. A escolha pode ser correta — mas precisa ser justificada com dados, não com coletiva.
O que o Mirante exige — e qualquer cidadão deveria
Cinco perguntas. Todas respondíveis em uma semana por qualquer secretaria minimamente organizada:
- Publique a lista de empresas fornecedoras, com CNPJ, valores e objeto contratual.
- Publique o Relatório de Impacto à Proteção de Dados Pessoais, conforme exige a LGPD.
- Publique o plano de formação docente, com carga horária, cronograma e responsáveis.
- Defina e publique as métricas de avaliação, a linha de base e o prazo de aferição.
- Apresente a estimativa de custo anual de manutenção e a fonte orçamentária.
Enquanto o GDF não responder, R$ 45 milhões em dinheiro público estão sendo aplicados num programa que o contribuinte não consegue fiscalizar. Isso tem nome: opacidade. E opacidade com dinheiro de imposto não tem lado — é inaceitável venha de esquerda, de direita ou de centro.
O prazo venceu. O silêncio continua.
O Mirante News continuará acompanhando a execução deste programa. Se o GDF responder ao pedido de LAI, publicaremos a íntegra e atualizaremos esta reportagem. Se não responder dentro do prazo legal de 20 dias — que vence em 10 de abril de 2026 — protocolaremos recurso à Controladoria-Geral do DF e reportaremos o descumprimento.
Se necessário, recorreremos ao Poder Judiciário. Cinco perguntas simples sobre dinheiro público não deveriam exigir batalha judicial. Mas no Brasil que normalizou a opacidade como método de gestão, exigir transparência é, muitas vezes, ato de resistência cívica.
Os pais das crianças matriculadas nas 700 escolas merecem saber quem terá acesso aos dados de seus filhos, como esses dados serão protegidos e o que acontece quando a empresa contratada deixar de operar. Essas não são perguntas de advogado. São perguntas de mãe. Perguntas de pai. Perguntas de quem deixa o filho no portão da escola toda manhã e precisa confiar que o Estado cuida do que não pode vigiar.
Lucas voltou da escola ontem com um desenho: ele, a professora e um robô azul sorrindo. "Mãe, vai ter robô na escola", disse. Raquel sorriu sem entender. A semente está plantada na imaginação de uma criança. A pergunta é se o governo vai regá-la com competência — ou deixá-la secar no concreto da burocracia, como fez com todas as que vieram antes.
Reportagem baseada em dados da Secretaria de Educação do DF, Agência Brasília, CETIC.br (TIC Educação 2024), ANPD e TCDF. Pedido via LAI protocolado em 21/03/2026. Até 04/04/2026, sem resposta. O Mirante atualizará esta matéria quando a resposta chegar.
Receba o Mirante no seu email
As principais notícias do dia, curadas por inteligência artificial, direto na sua caixa de entrada.
Leia também

ENEM 2025: escolas públicas do DF ficam 147 pontos atrás das particulares — maior gap do Centro-Oeste
A diferença média entre alunos de escolas públicas e privadas no Distrito Federal atingiu 147 pontos no ENEM 2025, a maior disparidade da região Centro-Oeste. O DF gasta mais por aluno que qualquer estado, mas os resultados não acompanham.

Brasília tem 448 startups e R$ 5 mi em IA pública — mas a burocracia trava
O DF é a 4ª cidade em startups no Brasil, o CIIA recebeu R$ 5 milhões para IA no governo e a Peptidus foi finalista em Harvard. Mas o PBIA de R$ 23 bilhões destina apenas 0,4% para regulação — e o Marco Legal da IA segue parado na Câmara.

R$ 1,8 bilhão, nenhum centro de IA e os auditores chegaram antes dos reguladores
Brasília abriga todos os órgãos que deveriam liderar a revolução da IA no Brasil. O Centro Nacional prometido para o ano passado não tem nem cronograma. O TCU já está auditando.