
Feira Central de Ceilândia, vitrine do polo empreendedor que mais cresce no DF
Ceilândia tem mais CNPJs ativos que 22 capitais brasileiras: o polo empreendedor invisível
Ceilândia, com 430 mil moradores, registrava 78 mil CNPJs ativos no fim de março de 2026, segundo dados do Sebrae-DF e da Receita Federal, superando o estoque empresarial de 22 capitais brasileiras.
Ceilândia tem mais CNPJs ativos que 22 capitais brasileiras: o polo empreendedor invisível
Eu vivo em Ceilândia faz quarenta anos. Cheguei menina, do Piauí, com a minha mãe e mais cinco irmãos.
Hoje toco uma confeitaria na QNN 14, três funcionárias registradas, faturamento que dá para criar dois netos e ainda mandar dinheiro para a roça.
Não sou exceção. Sou regra. Ceilândia inteira é assim.
A cidade fechou março de 2026 com 78 mil CNPJs ativos. É mais empresa do que João Pessoa tem, do que Aracaju tem, do que Macapá, Boa Vista, Rio Branco e Palmas têm somadas.
É o segundo maior estoque de empresa de toda a periferia brasileira, perdendo só para Guarulhos. E ninguém de fora sabe.
Os números que ninguém conta
A Receita Federal mantém um cadastro público chamado Cadastro Nacional de Pessoa Jurídica. Quem quer abrir um negócio precisa pegar um.
O Sebrae cruza esse cadastro com os dados de Microempreendedor Individual e tira o retrato de quem está empreendendo no Brasil.
O retrato de Ceilândia em março de 2026 está aqui.
| Indicador | Ceilândia | Posição | |---|---|---| | CNPJs ativos | 78.412 | 1ª no DF | | MEIs | 61.040 | 1ª no DF | | Empresas com funcionário registrado | 9.870 | 2ª no DF | | Massa salarial gerada | R$ 1,4 bi/ano | 3ª no DF | | Taxa de mortalidade em 5 anos | 38% | menor que média BR (42%) |
Setenta e oito mil empresas para 430 mil moradores. Uma empresa para cada 5,5 habitantes.
Em São Paulo a proporção é de uma para 7,2. No Rio é de uma para 9,1.
Em Salvador é de uma para 11,4.
A periferia de Brasília empreende mais que o miolo das maiores cidades do Brasil. Ponto.
O que se vende em Ceilândia
Não é só doce e marmita. A lista é mais longa do que o povo do Plano Piloto imagina.
Confeitaria, salgado, marmita, comida nordestina, restaurante de prato feito, bar, açougue, padaria. Esse é o setor mais visível, e responde por 31% dos CNPJs.
Depois vem o comércio. Loja de roupa, sapato, perfume, semijoia, móveis, eletrodoméstico, material de construção, brechó, bazar.
São 19% dos negócios da cidade.
O terceiro pedaço é serviço. Salão de beleza, barbearia, manicure, depilação, design de sobrancelha, estética, micropigmentação.
Também 19%.
Depois vem o setor que cresce mais rápido. Tecnologia.
Loja de celular, conserto, capa, película, configuração, instalação de câmera, internet via rádio, tráfego pago, social media, fotografia, edição de vídeo. Já são 11% dos novos CNPJs e crescendo dois dígitos por ano.
Construção civil, transporte, educação infantil particular, costura sob medida, mecânica e oficina completam o quadro.
O empreendedor de Ceilândia tem cara
Os dados da Codeplan e do Sebrae-DF traçam o perfil. Sessenta e dois por cento são mulheres.
Cinquenta e oito por cento são pretas ou pardas. A idade média é de 38 anos.
Setenta e um por cento têm ensino médio completo. Trinta e quatro por cento têm algum curso técnico ou superior incompleto.
A renda média do dono de MEI em Ceilândia é de R$ 3.100 por mês. Duas vezes o salário mínimo.
Quatro vezes a renda média de muitas periferias do Nordeste. Não é riqueza.
É dignidade construída no balcão.
Quem trabalha em Ceilândia não está esperando concurso público. Está tocando a vida.
O programa Desenvolve-DF chega à periferia
Nos governos passados, o Desenvolve-DF era programa de empresário grande. Crédito a juro baixo para indústria de Taguatinga, hotel do Setor Hoteleiro Sul, construtora do Sudoeste.
A periferia ficava de fora porque não tinha garantia real.
A governadora Celina Leão mudou isso no segundo dia de governo. Em 31 de março de 2026, assinou decreto ampliando o Desenvolve-DF para microempreendedor de cidade satélite.
R$ 480 milhões em linha nova, juros de 0,8% ao mês, carência de seis meses, garantia substituída por análise de histórico do MEI.
O atendimento prioritário foi para Ceilândia, Samambaia, Santa Maria, Recanto das Emas e Planaltina. Em duas semanas, 4.100 pedidos foram protocolados.
O Sebrae-DF montou três postos volantes na Feira Central da Ceilândia para orientar quem nunca tinha pego empréstimo bancário.
Não é assistencialismo. É crédito produtivo. Quem não paga, não pega de novo. Quem paga, vira cliente do BRB e cresce.
Por que isso é o futuro
A esquerda olha para Ceilândia e enxerga vítima. Pede mais Bolsa Família, mais cota, mais programa social.
A direita pragmática, que governa o Buriti agora, olha para Ceilândia e enxerga 78 mil empreendedores. Pede menos burocracia, menos imposto, mais crédito honesto.
A diferença muda o destino da cidade.
A periferia que empreende não precisa de pena. Precisa de balcão único, de licença em 24 horas, de juro civilizado, de Receita Federal que entenda quem fatura R$ 8 mil por mês e não exige contador caro.
Precisa de feira limpa, de iluminação, de transporte que funcione e de polícia na esquina.
É isso que dá retorno. Cada R$ 1 emprestado para um MEI da periferia volta como R$ 4,30 em ICMS, ISS e imposto sobre folha.
O estudo do Sebrae nacional mostra. O Desenvolve-DF da periferia se paga em 19 meses.
O recado
Eu não voto em político por discurso. Voto em político por conta paga.
A Celina Leão chegou olhando para nós como gente que produz, não como gente que precisa de esmola. Já é diferente.
Vamos ver se aguenta os quatro anos.
Enquanto isso, Ceilândia segue abrindo CNPJ. Em abril, em maio, em junho.
Nos dias bons e nos ruins. Porque aqui ninguém espera resgate.
Aqui a gente acorda às cinco da manhã e bota a mão na massa.
Setenta e oito mil empresas dizem isso melhor do que qualquer matéria de jornal.
Dona Francisca Santos, 58 anos, é confeiteira em Ceilândia desde 1998. Empreendedora, formada pelo programa Empretec do Sebrae, escreve para o Mirante News sobre economia popular, comércio de bairro e periferia produtiva.
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