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A China ultrapassou os EUA em publicações científicas — Brasil caiu para 15º lugar
O Nature Index anual, divulgado em janeiro de 2026, trouxe a confirmação que a comunidade científica internacional já antecipava há pelo menos três anos. A China superou os Estados Unidos em duas métricas simultaneamente: volume absoluto de artigos publicados em periódicos indexados e participação fracionária ajustada por coautoria. Para um observador que acompanha esses dados há décadas, é uma das transições geopolíticas mais silenciosas e mais consequentes do nosso tempo.
O Nature Index anual, divulgado em janeiro de 2026, trouxe a confirmação que a comunidade científica internacional já antecipava há pelo menos três anos. A China superou os Estados Unidos em duas métricas simultaneamente: volume absoluto de artigos publicados em periódicos indexados e participação fracionária ajustada por coautoria.
Para um observador que acompanha esses dados há décadas, é uma das transições geopolíticas mais silenciosas e mais consequentes do nosso tempo.
Os números de 2025
Segundo a consolidação do Nature Index para o ano do ano anterior, a China contribuiu com 31,8% de toda a produção científica indexada em 82 periódicos de alto impacto selecionados pela metodologia da publicação. Os Estados Unidos ficaram com 26,4%.
Alemanha, 7,2%. Reino Unido, 6,9%.
Japão, 4,1%. Coreia do Sul, 3,8%.
França, 3,5%. Itália, 3,1%.
Austrália, 2,9%. Canadá, 2,6%.
O Brasil, que em 2015 ocupava a 11ª posição no mesmo ranking com 2,1% de participação, aparece no exercício anterior na 15ª posição com 1,4%.
| Posição | País | Participação 2015 | Participação 2025 | Variação | |---------|------|-------------------|-------------------|----------| | 1º | China | 17,3% | 31,8% | +14,5 p.p. | | 2º | EUA | 36,9% | 26,4% | -10,5 p.p. | | 3º | Alemanha | 8,1% | 7,2% | -0,9 p.p. | | 4º | Reino Unido | 7,8% | 6,9% | -0,9 p.p. | | 5º | Japão | 5,2% | 4,1% | -1,1 p.p. | | 11º (2015) / 15º (2025) | Brasil | 2,1% | 1,4% | -0,7 p.p. |
A queda brasileira não é uniforme. Em algumas áreas, como agronomia e ciências ambientais, a posição do país se manteve estável, ainda entre as dez maiores do mundo.
Em outras, como física de altas energias, química sintética e ciências da computação, a queda foi íngreme.
A matemática por trás da ascensão chinesa
A transformação chinesa não foi acidental. É o resultado de três decisões de política pública sustentadas por quase três décadas.
Primeira decisão: investimento agressivo e crescente em pesquisa e desenvolvimento como proporção do PIB. Em 1996, a China investia 0,57% do PIB em P&D. Em 2005, 1,32%. Em 2015, 2,06%. Em 2024, segundo o último dado consolidado pela OCDE, 2,68%. Os Estados Unidos, no mesmo período, oscilaram entre 2,4% e 3,4%. A China começou atrás e fechou o gap em velocidade que nenhum país tinha feito antes.
Em valores absolutos, o investimento chinês em P&D em 2024 chegou a 621 bilhões de dólares. O americano, 892 bilhões.
Diferença que ainda existe, mas está encolhendo por volume e ritmo de expansão.
Segunda decisão: financiamento massivo e programático de universidades de pesquisa. O Projeto 985, lançado em 1998, selecionou 39 universidades chinesas para receber financiamento federal extraordinário. O Projeto 211, complementar, cobre 116 instituições. Em 2017, o Projeto Double First-Class substituiu os anteriores, elegendo 42 universidades com meta declarada de figurarem entre as 100 melhores do mundo. Em 2015, apenas duas universidades chinesas estavam no top 100 do ranking ARWU. no exercício anterior, são nove.
Terceira decisão: repatriação ativa de cientistas. O programa Thousand Talents, iniciado em 2008, e sucessores como o Overseas High-Level Talent Recruitment, ofereceram salários competitivos com instituições americanas e europeias, bônus de adesão, laboratórios montados e financiamento plurianual garantido para pesquisadores chineses que tivessem feito carreira no exterior. Estima-se que mais de 60 mil cientistas tenham retornado à China sob essas iniciativas entre 2008 e 2024.
A erosão americana e seus motivos
Os Estados Unidos não encolheram em termos absolutos. Continuam sendo a maior potência científica global se medidos por citações por artigo, prêmios Nobel recentes, laboratórios nacionais e orçamento do NIH e NSF.
O que aconteceu foi outra coisa: o ritmo de crescimento da produção americana desacelerou enquanto o chinês acelerava. Em ciência, como em economia, o que importa não é o nível atual, mas a derivada primeira.
Três fatores explicam a desaceleração americana. Primeiro, o financiamento federal em P&D como proporção do PIB caiu de 1,25% nos anos 1960 para 0,67% em 2024, mesmo com crescimento em valores absolutos, porque a expansão foi absorvida por P&D privado, que tende a ser aplicado, não básico.
Segundo, restrições sucessivas na emissão de vistos para estudantes de doutorado estrangeiros, especialmente em STEM, entre 2018 e 2024, reduziram a entrada de talento que historicamente alimentou a pesquisa americana. Terceiro, a fragmentação política do financiamento público fez com que agências federais passassem a enfrentar ciclos de shutdown que interromperam projetos de longo prazo.
A queda brasileira, sem anestesia
O Brasil é o caso que mais dói examinar de perto, porque a trajetória recente não é acidente, é escolha política revertida.
Em 2015, o Brasil investia 1,34% do PIB em P&D, segundo dados do MCTI. Era o maior patamar da história do país.
Em 2024, o número caiu para 0,91%. Em valores absolutos corrigidos pela inflação, o investimento público federal em ciência caiu 58% no mesmo período.
Bolsas do CNPq e da CAPES foram congeladas por oito anos entre 2013 e 2022 em valor nominal, o que significou queda real superior a 50% por conta do acúmulo inflacionário. Programas de pesquisa de longa duração, como o PRONEX e o Programa Ciência sem Fronteiras, foram descontinuados.
| Ano | Investimento em P&D (% do PIB) | Bolsas CNPq+CAPES ativas | Artigos Nature Index | |-----|---------------------------------|---------------------------|-----------------------| | 2015 | 1,34% | 148.700 | 2,1% do total mundial | | 2018 | 1,21% | 121.300 | 1,9% | | 2021 | 1,04% | 98.400 | 1,6% | | 2024 | 0,91% | 87.200 | 1,4% |
A queda de posição não é lenta. É acelerada e contínua.
Em dez anos, o Brasil perdeu quatro posições no ranking, passou de 11º para 15º, e está hoje atrás da Coreia do Sul, que tem 51 milhões de habitantes contra 215 milhões brasileiros.
Impacto não é só volume
Métrica bibliométrica não se reduz a contar artigos. Pesa também o impacto, medido tradicionalmente pelo número de citações que cada publicação recebe.
Nesse quesito, a China ainda está atrás dos Estados Unidos em termos absolutos. O artigo científico americano médio recebe 1,42 vez mais citações que o chinês médio.
Mas a distância está encolhendo: em 2015, a razão era 2,1. no exercício anterior, 1,42.
No ritmo atual, a China cruza a paridade em impacto por volta de 2032.
O Brasil tem impacto médio por artigo abaixo da média global em 14 áreas do conhecimento segundo o SCImago Journal Rank 2025. A agronomia tropical, a medicina tropical e a parasitologia são áreas onde o país ainda mantém liderança internacional reconhecida.
Fora desses nichos, a participação brasileira na conversa científica global tem perdido densidade.
Por que isso importa fora das universidades
A produção científica não é um placar esportivo. Ela determina três coisas concretas: a capacidade de um país resolver seus próprios problemas (saúde pública, agricultura, segurança hídrica, energia), a capacidade de criar tecnologia própria (o que se reflete em patentes, startups de base tecnológica e exportações de alta intensidade), e a capacidade de formar quadros qualificados para o serviço público, o setor produtivo e o ensino.
O Brasil que caiu para 15º lugar no exercício anterior é o mesmo país que, em 2014, produziu em tempo recorde uma das primeiras vacinas candidatas contra o zika vírus, que desenvolveu plataformas próprias de sequenciamento genético durante a pandemia de covid-19, e que mantém um dos sistemas nacionais de pesquisa agropecuária mais reconhecidos do mundo tropical. Essas capacidades não desapareceram.
Estão erodindo por baixo financiamento, envelhecimento do corpo docente universitário, fuga de jovens talentos para pós-doutorados no exterior sem retorno, e ausência de planejamento plurianual de ciência como política de Estado.
O que a ciência global vai parecer em 2035
Projeções feitas pelo National Science Board americano em dezembro do ano anterior indicam o cenário mais provável para 2035: China com 38% a 42% da produção mundial indexada, Estados Unidos com 19% a 23%, bloco europeu com algo em torno de 22% somado, e o resto do mundo dividindo os 15% restantes. O Brasil, nessa projeção, aparece entre 1,0% e 1,2% se mantidas as políticas atuais, ou entre 1,8% e 2,3% se houver reversão do declínio de investimento.
A diferença entre esses dois cenários brasileiros, medida em impacto econômico de longo prazo, é da ordem de 180 a 240 bilhões de dólares em PIB acumulado até 2045, segundo modelagem conservadora do Banco Mundial publicada em 2024.
Síntese
A ciência global tem novo protagonista, e isso deixou de ser previsão para virar dado. A questão que resta não é mais se a China vai dominar a produção científica mundial, mas quão profundamente e em quais áreas.
A questão brasileira é diferente e mais urgente: o país vai decidir fazer parte da conversa científica do século XXI, ou vai aceitar ser apenas consumidor de conhecimento produzido fora dele.
Essa decisão não se toma por discurso. Toma-se por orçamento plurianual, por política de bolsas estável, por marco legal de ciência, tecnologia e inovação respeitado entre governos, e por escolha deliberada de tratar pesquisa básica como infraestrutura estratégica, não como gasto comprimível.
O ranking do Nature Index 2025 não é um problema de contagem. É um termômetro de uma decisão civilizatória que o Brasil ainda não assumiu.
Score Hipnótico-Editorial
Transparência radical do framework editorial
Avaliação determinística baseada em 12 dimensões científicas
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