
Centro de inovação no eixo Tel Aviv–Herzliya, onde se concentra a maior parte das empresas de tecnologia israelenses. Foto: arquivo Mirante.
Israel investe 6,4% do PIB em pesquisa e desenvolvimento — o maior percentual do mundo e por quê
Israel manteve em 2025, pelo quinto ano consecutivo, o posto de país com maior investimento em pesquisa e desenvolvimento como proporção do produto interno bruto. Os dados consolidados pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico apontam 6,4% do PIB destinados a P&D, número que isola o país no topo do ranking global e abre quase um ponto percentual de vantagem sobre a Coreia do Sul, segunda colocada.
A liderança israelense em investimento em pesquisa e desenvolvimento não é nova, mas ganhou nova marca em 2025. Os dados consolidados pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico, divulgados no fim de março, indicam que o país atingiu 6,4% do PIB destinados a P&D, ante 5,7% em 2020 e 4,9% em 2015.
O salto colocou Israel ainda mais à frente da Coreia do Sul, que aparece em segundo lugar com 5,5%, seguida por Taiwan e Suécia.
A liderança não se explica por um fator único. Resulta da combinação entre uma indústria de capital de risco extraordinariamente ativa, um ecossistema militar que historicamente alimenta o setor civil com tecnologia dual, programas governamentais de incentivo desenhados desde a década de 1990 e uma cultura empresarial que trata o fracasso como etapa natural do ciclo de inovação.
A composição do investimento
Diferentemente do que ocorre em economias menores, a maior parte do gasto israelense em P&D vem do setor privado. A tabela abaixo apresenta a composição comparativa entre Israel, Coreia do Sul e a média da OCDE.
| Origem do gasto em P&D | Israel | Coreia do Sul | Média OCDE | |------------------------|--------|---------------|-------------| | Empresas privadas | 88% | 79% | 70% | | Governo | 8% | 14% | 20% | | Universidades | 3% | 6% | 8% | | Organizações sem fins lucrativos | 1% | 1% | 2% |
A predominância do setor privado é resultado direto da concentração de centros de pesquisa de multinacionais em território israelense. Mais de 400 empresas estrangeiras mantêm centros de desenvolvimento no país, com destaque para gigantes do setor de semicondutores, software, defesa e biotecnologia.
Esses centros respondem por parcela importante do gasto consolidado em P&D e funcionam, na prática, como âncoras de demanda para o ecossistema local de talentos.
O papel do complexo militar
Nenhuma análise honesta sobre o ecossistema de inovação israelense pode ignorar o peso do complexo militar. O serviço militar obrigatório, especialmente em unidades de inteligência e tecnologia, funciona como pipeline informal de formação técnica avançada.
Egressos dessas unidades costumam migrar para o setor privado com experiência prática em criptografia, ciência de dados, processamento de sinais e segurança de redes.
Esse fluxo não é acidental. É reconhecido pelo próprio governo israelense como vetor estratégico de competitividade econômica.
Programas específicos asseguram que parte do conhecimento gerado em projetos militares possa ser transferida para uso civil, dentro de critérios de segurança nacional. O resultado é uma simbiose pouco comum entre defesa e mercado, replicada de forma incompleta em poucos países do mundo.
A Innovation Authority
O braço civil do esforço de inovação israelense é a Israel Innovation Authority, agência criada nos anos 1990 com a missão de financiar projetos privados de risco. A lógica é simples: o governo participa com capital subordinado em projetos de P&D, sem exigir retorno em caso de fracasso e cobrando royalties em caso de sucesso.
A regra reduz o custo de capital para o empreendedor e cria mecanismo de recuperação parcial para o erário quando o projeto vinga.
A agência opera hoje dezenas de programas distintos, divididos por estágio do projeto, setor e perfil do empreendedor. Há linhas específicas para startups em estágio inicial, para empresas em fase de internacionalização, para projetos acadêmicos com potencial comercial e para iniciativas em áreas consideradas estratégicas, como inteligência artificial e clima.
Capital de risco e cultura
A terceira perna do tripé é o ecossistema de capital de risco. Israel mantém, em proporção ao PIB, um dos maiores volumes de investimento de venture capital do mundo.
A presença de investidores estrangeiros, especialmente americanos, é determinante. Mas o ecossistema também desenvolveu uma classe própria de fundos, gestores e aceleradoras que conhecem o tecido local e acompanham as empresas em ciclos longos.
A cultura empresarial é menos quantificável, mas igualmente relevante. O fracasso de uma startup não estigmatiza o empreendedor.
A circulação rápida de pessoas entre empresas, a baixa hierarquia no ambiente de trabalho e a tolerância ao risco compõem um conjunto de práticas informais que reduzem o custo psicológico e profissional de tentar um projeto novo.
Os limites do modelo
A liderança israelense convive com limitações. A primeira é a concentração geográfica: praticamente todo o ecossistema de inovação se distribui no eixo Tel Aviv–Herzliya–Haifa, com pouca capilaridade para o restante do país.
A segunda é a dependência de talento estrangeiro e de fluxo migratório, que oscila com a conjuntura política e de segurança. A terceira é a exposição a choques geopolíticos, capazes de afetar tanto o investimento estrangeiro quanto a operação dos centros internacionais de P&D instalados no país.
Há ainda o desafio de transformar invenção em produção em escala. Israel é forte em pesquisa aplicada e desenvolvimento de protótipos.
É mais fraco em manufatura de larga escala, etapa que costuma migrar para outros países depois que a tecnologia amadurece. O resultado é que parte do valor gerado pela P&D local é capturada por empresas e países estrangeiros que assumem a produção em série.
Lições comparativas
O modelo israelense não é facilmente replicável. Combina elementos históricos, demográficos e geopolíticos que não se reproduzem por decreto.
Mas há lições isoladas que costumam aparecer em estudos comparativos. A principal é que volume de gasto em P&D depende mais de instrumentos de incentivo bem desenhados do que de retórica oficial.
A segunda é que a relação entre setor público, universidade e empresa precisa ser mediada por agências técnicas com autonomia operacional. A terceira é que tolerância ao fracasso é variável cultural que precisa ser construída por décadas, não por planos de governo.
Ao manter 6,4% do PIB em investimento em P&D, Israel consolidou no exercício anterior um posto que ocupa há anos. Os próximos relatórios da OCDE dirão se o número se estabiliza, recua ou continua subindo.
Por enquanto, o país segue isolado no topo do ranking, com um modelo difícil de copiar e impossível de ignorar.
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