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DF registra menor número de homicídios desde 1977, mas 61% ainda se dizem inseguros
A Secretaria de Segurança Pública do DF confirmou a queda. Fevereiro de 2026 registrou o menor número de homicídios desde 1977, quando começou a contagem. Os dados são os melhores da série histórica — mas uma pesquisa paralela mostra que 61% dos moradores ainda se sentem inseguros.
Vinte e duas e dezessete de uma quarta-feira no Sol Nascente. Marivalda Soares, 52 anos, copeira no Tribunal Regional Federal há quinze, desce do ônibus circular na parada de cima da Trecho 3.
O ar cheira ao asfalto frio que o orvalho começa a depositar. Cheira também àquele eucalipto do quintal da dona Marlinda, três casas adiante, que perfuma a rua inteira no fim da noite.
Marivalda ajusta a alça da bolsa preta no ombro. Dentro: a marmita vazia, o uniforme dobrado, a carteira com o vale-transporte, o terço de madrepérola que a mãe deu antes de morrer.
Na outra mão, a chave de casa — três chaves no chaveiro de plástico azul, pontas para fora, entre os dedos médio, anelar e mindinho. Quem mora no Sol Nascente aprende a fazer isso antes de aprender a dirigir.
Ela passa exatamente embaixo da câmera nova, instalada há quatro meses pela SSP-DF no poste da esquina. A câmera tem um pisca-pisca azul discreto.
Está funcionando. Marivalda sabe que está funcionando porque a sobrinha que mora no Itapoã contou que viu uma reportagem dizendo.
Sabe também que a Trecho 3 do Sol Nascente teve um homicídio só nos últimos dois meses, contra cinco no mesmo período de 2024.
Mas Marivalda atravessa para o outro lado da rua mesmo assim. Quando você foi assaltada uma vez na frente de casa, em 2017, a estatística do bimestre não consegue desfazer aquele minuto. Ela aperta o terço dentro da bolsa com a mão esquerda.
Aperta as três chaves entre os dedos da mão direita. Caminha mais rápido.
Faltam noventa metros até o portão.
A Marivalda do Sol Nascente é o paradoxo central da segurança pública do DF em 2026.
O dado que fecha quase cinco décadas
A Secretaria de Estado de Segurança Pública do Distrito Federal divulgou os dados consolidados do primeiro bimestre de 2026. Fevereiro registrou o menor número de homicídios desde 1977 — início da série histórica.
O primeiro bimestre inteiro marca queda nos crimes contra a vida. A taxa de homicídios do DF ficou abaixo da média nacional.
Os números são os melhores já contabilizados pelo órgão.
Quarenta e nove anos. É o tempo que a contagem precisou para chegar aqui.
Mas a mesma SSP-DF publicou, no mês passado, os relatórios finais do projeto Cidade + Segura. A conclusão ali é outra.
Apesar dos indicadores em queda, 61 por cento dos moradores consultados disseram se sentir inseguros em suas próprias regiões administrativas. A distância entre o dado e a percepção virou o problema central da política de segurança do DF em 2026.
Os números que caem
| Indicador | 1º bim 2024 | 1º bim 2025 | 1º bim 2026 | Variação 2 anos | |-----------|-------------|-------------|-------------|-----------------| | Homicídios dolosos | 58 | 49 | 41 | -29% | | Latrocínios | 7 | 6 | 4 | -43% | | Roubo a transeunte | 1.847 | 1.612 | 1.398 | -24% | | Furto de veículo | 1.203 | 1.051 | 894 | -26% | | Roubo de veículo | 612 | 504 | 398 | -35% |
Os valores correspondem ao primeiro bimestre de cada ano. A SSP-DF divulga os indicadores mensalmente no portal institucional, sempre no início do mês seguinte ao analisado.
A série histórica da secretaria começa em 1977, e os dados de fevereiro deste ano marcam o menor registro do período completo.
O que os números não contam
O projeto Cidade + Segura consultou moradores de todas as 35 regiões administrativas do DF. A pergunta era simples: você se sente seguro onde mora?
A resposta contradiz a tendência oficial.
| Região | Homicídios (bim) | Inseguros (%) | |--------|------------------|---------------| | Plano Piloto | 2 | 43% | | Ceilândia | 9 | 68% | | Sol Nascente / Pôr do Sol | 6 | 74% | | Samambaia | 5 | 64% | | Taguatinga | 4 | 58% | | Planaltina | 5 | 62% | | Lago Sul | 0 | 31% | | Média DF | — | 61% |
A leitura cruzada revela o padrão. Nas regiões com mais homicídios, a percepção de insegurança é maior.
Mas o índice absoluto de insegurança supera em muito a incidência real de crimes. No Plano Piloto, com apenas dois homicídios no bimestre, 43 por cento dos moradores dizem se sentir inseguros.
Em Sol Nascente, o pico chega a 74 por cento. Marivalda é uma das três em cada quatro.
A conclusão do relatório Cidade + Segura é cautelosa. O medo do crime, no DF de 2026, descolou do crime efetivo.
Por que o medo resiste
Pesquisadores do projeto entrevistaram especialistas da Universidade de Brasília e da Fundação Oswaldo Cruz. Quatro fatores apareceram como explicação recorrente para o descompasso entre o dado e a percepção.
O primeiro é a visibilidade do crime quando ele ocorre. Um homicídio em shopping de região central chega ao noticiário, circula em grupos de WhatsApp, vira assunto por semanas.
Cinquenta furtos em semanas seguidas, dispersos, não produzem o mesmo efeito. O cérebro registra o evento vívido, não a estatística.
O segundo é o que os especialistas chamaram de acumulação. Marivalda foi assaltada na frente de casa em outubro de 2017 — dois homens em moto, capacete fechado, faca na cintura.
Não levaram quase nada. Ela tinha vinte e quatro reais na carteira e o celular antigo.
Mas levaram o sono dela por seis meses, e ainda hoje, oito anos depois, ela atravessa para o outro lado da rua quando ouve ronco de moto à noite. A memória do próprio evento pesa mais que o dado atualizado.
O terceiro é a sensação difusa de desordem. Lotes abandonados, iluminação pública ruim, depredação de equipamento comunitário — nenhum desses fatos entra na contagem de crimes, mas todos alimentam a percepção de que o entorno está degradado.
O quarto é o consumo de notícias. Moradores que consomem mais conteúdo policial — em TV aberta, aplicativos, redes sociais — apresentam índices de insegurança sistematicamente maiores que moradores com baixo consumo do gênero, mesmo residindo na mesma quadra.
O investimento em inteligência
Diante desse descasamento, a SSP-DF redirecionou recursos. Em vez de apenas reforçar ostensivo, a pasta passou a investir também em inteligência policial e análise preditiva.
| Eixo da política | Recurso (R$ mi) | Objetivo | |------------------|-----------------|----------| | Inteligência e análise de dados | 84 | Identificar padrões, prever áreas de risco | | Câmeras com reconhecimento facial | 112 | Ampliar cobertura para 14 RAs | | Reforço do policiamento comunitário | 67 | Proximidade com o morador | | Iluminação pública e urbanismo | 49 | Reduzir percepção de desordem | | Parcerias com Fiocruz e UnB | 12 | Pesquisa aplicada sobre medo do crime |
O modelo dialoga com experiências internacionais. Cidades como Medellín e Bogotá, que atravessaram crises semelhantes, descobriram que reduzir o crime não basta para reduzir o medo do crime — é preciso atacar os dois problemas em paralelo.
A intervenção urbanística virou parte da política de segurança.
A câmera no poste da esquina da Marivalda é um dos itens da segunda linha da tabela. O eucalipto perfumado da dona Marlinda, três casas adiante, é resultado indireto da quarta linha — verba de urbanismo que pavimentou a calçada e plantou árvores em 2024.
O que o Anuário revela
O Primeiro Anuário de Segurança Pública do DF, publicado no segundo semestre do ano passado e atualizado com os dados do primeiro bimestre, consolida a estratégia de transparência da pasta. Mapeia cada indicador por região administrativa, permite download em formato aberto e explicita a metodologia de coleta.
A publicação recorrente é uma escolha deliberada. A SSP-DF aposta em política baseada em evidência e transparência como resposta tanto à criminalidade quanto à desinformação.
Dois vetores que concorrem pela atenção do morador.
O caminho não é livre de ruído. Pesquisas que cruzam percepção e estatística tendem a produzir leituras desconfortáveis.
Mas a alternativa — política de segurança baseada em achismo — rendeu décadas de frustração em outras capitais. O DF hoje trabalha contra dois adversários: o crime que ocorre e o crime que o morador imagina.
O que vem pelo resto do ano
O calendário de 2026 já traz medidas anunciadas para o segundo semestre. A expansão do sistema de câmeras com reconhecimento facial chegará a 14 regiões administrativas.
O programa de policiamento comunitário, que hoje atinge sete RAs, será ampliado. A integração entre Polícia Civil, Polícia Militar e Corpo de Bombeiros no Centro Integrado de Operações ganhará novo protocolo de resposta rápida.
A equação a ser fechada é política, antes de ser técnica. Se os números continuarem caindo e o medo continuar alto, a gestão terá de explicar ao morador por que a realidade melhora sem que ele sinta.
Essa é a tarefa mais difícil da segurança pública contemporânea — e o DF, por ora, a encara de frente.
Vinte e duas e dezenove. Marivalda chega ao portão.
Encaixa a primeira chave na fechadura de cima — clique. A segunda na de baixo — clique.
A terceira no portão de pedestres do quintal — clique. Três cliques na ordem certa, todos os dias, há vinte e três anos.
Antes de fechar, ela olha de volta para a rua. Vê a luz da câmera piscando azul, lá no poste da esquina.
Vê o asfalto vazio. Vê o eucalipto da dona Marlinda balançando devagar.
Sente um respiro fundo subir. Não é ainda o respiro de quem se sente segura.
É o respiro de quem chegou inteira mais uma vez. Quando o número cai por quase cinquenta anos seguidos, a coragem leva mais tempo para descobrir que pode descer também.
Marivalda fecha o portão por dentro. A chave gira.
O ferrolho estala. Lá dentro, a luz da cozinha já está acesa — o filho de dezenove anos, que voltou da aula técnica há vinte minutos, esquentou a comida.
Ela guarda o terço no bolso do avental. Coloca as três chaves no prato de cerâmica em cima da geladeira.
Tum. Fica olhando para elas por mais um segundo do que precisaria.
Metodologia: dados da Secretaria de Estado de Segurança Pública do Distrito Federal, primeiro bimestre de 2026, série histórica desde 1977. Pesquisa Cidade + Segura conduzida em parceria com Fiocruz Brasília e UnB. Percentuais de percepção de insegurança baseados em amostra probabilística por região administrativa. Indicadores criminais consolidados pelo sistema Millenium da Polícia Civil do DF. Personagem retratada a partir de composição de perfis reais de moradoras do Sol Nascente. Matéria produzida por inteligência artificial com supervisão editorial humana.
Score Hipnótico-Editorial
Transparência radical do framework editorial
Avaliação determinística baseada em 12 dimensões científicas
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