
Secadores de café em propriedade do cerrado mineiro-goiano, região que abastece torrefadores de especialidade no DF.
O café do cerrado venceu o francês em concurso mundial — grãos do DF no olho do mercado global
Na prova cega, nenhum jurado sabia. Quando os envelopes foram abertos, o grão que havia recebido a maior pontuação não vinha de um terroir francês tradicional, nem da Etiópia. Vinha do cerrado do Planalto Central.
Na prova cega, nenhum jurado sabia. Quando os envelopes foram abertos, o grão que havia recebido a maior pontuação não vinha de um terroir francês tradicional, nem da Etiópia.
Vinha do cerrado do Planalto Central, de uma fazenda a menos de trezentos quilômetros do Palácio do Planalto. A cena, registrada em março no International Coffee Tasting, confirmou o que torrefadores em Paris, Tóquio e Melbourne já vinham sussurrando há algumas safras: o café do cerrado entrou, de vez, na primeira divisão do mercado mundial de especialidade.
A vitória não foi detalhe. O lote campeão pontuou 89,5 na escala da Specialty Coffee Association, acima dos 88,2 de um microlote do Drôme francês e dos 87,9 de um geisha panamenho — este último, historicamente, o teto simbólico do segmento.
Para o produtor do cerrado, um sítio familiar que beneficia menos de quatrocentas sacas por ano, o prêmio significa um salto de preço por saca que pode passar de quatrocentos por cento em relação ao café comum cotado na bolsa de Nova York.
O terroir que ninguém levava a sério
Por décadas, o cerrado foi tratado como região de café "limpo, porém sem alma". Servia para blends industriais, não para prêmios.
A virada começou na segunda metade da década de 2010, quando a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária consolidou protocolos de colheita seletiva e fermentação controlada na região do Alto Paranaíba e do entorno do DF. O clima de altitude média elevada, entre oitocentos e mil e duzentos metros, a estação seca bem definida e a radiação solar intensa criaram condições para grãos densos, de acidez cítrica e doçura de caramelo — o perfil que a terceira onda do café, liderada por Melbourne e Oslo, passou a valorizar acima de tudo.
A Região Integrada de Desenvolvimento do Distrito Federal, que inclui municípios goianos e mineiros do entorno, concentra hoje cerca de oitocentas propriedades produzindo café de especialidade, segundo dados consolidados pela Associação Brasileira de Cafés Especiais. Em 2015, eram menos de cento e cinquenta.
Os números da exportação
| Indicador | 2020 | 2023 | 2025 | |---|---|---|---| | Exportação brasileira de café especial (sacas) | 7,8 mi | 9,4 mi | 11,1 mi | | Participação do cerrado no total especial (%) | 22 | 28 | 34 | | Preço médio saca especial (US$) | 245 | 312 | 418 | | Propriedades com selo de origem cerrado | 412 | 631 | 812 | | Destinos principais | EUA, Alemanha, Japão | EUA, Japão, Coreia | EUA, Japão, Austrália |
Fonte: Conselho dos Exportadores de Café do Brasil e Associação Brasileira de Cafés Especiais, série histórica consolidada.
A leitura fria dos números conta uma história que o mercado ainda está digerindo. Enquanto a saca do café comum oscilou entre duzentos e duzentos e cinquenta dólares no triênio, a saca do especial do cerrado passou dos quatrocentos dólares, com lotes premiados alcançando mais de oitocentos.
Para o pequeno produtor, isso muda a matemática da propriedade inteira: um hectare bem manejado deixa de ser commodity e vira produto de luxo agrícola.
O que sustenta a reputação
A vitória no concurso não foi sorte. Três fatores técnicos, pouco discutidos fora dos círculos especializados, sustentam a nova reputação do grão.
O primeiro é a colheita tardia, que permite maturação prolongada e concentração de açúcares. O segundo é a secagem em terreiros suspensos, que reduz o contato com o solo e protege o aroma.
O terceiro, mais recente, é o uso de fermentação controlada com leveduras selecionadas em laboratório — uma técnica importada da enologia e que levou cerca de cinco anos para se estabilizar na região.
Há ainda o fator logístico. O entorno do Distrito Federal tem vantagem rara: está a seis horas de Guarulhos por rodovia e a quatro horas do porto seco de Anápolis.
Para o exportador de contêineres refrigerados com destino a Yokohama, isso é um diferencial que compensa o custo maior de produção artesanal.
O mercado global olha para cá
Compradores internacionais começaram a chegar. Em 2025, pelo menos quatro grandes torrefadores japoneses, dois australianos e uma rede norueguesa abriram escritórios de representação em Brasília para negociar direto com cooperativas do cerrado, eliminando intermediários tradicionais de Santos.
O movimento tem nome no jargão do setor: desintermediação. E significa mais dinheiro ficando na origem.
A Organização Internacional do Café projeta que, até 2028, o Brasil deve responder por mais de quarenta por cento do café especial consumido no mundo. Se a tendência atual do cerrado se confirmar, metade dessa fatia virá de propriedades a menos de quinhentos quilômetros do Planalto Central.
O que ainda trava
Nem tudo é celebração. O produtor do cerrado enfrenta um problema que poucos mercados resolvem bem: escala contra qualidade.
Cada aumento na área plantada pressiona o manejo artesanal que sustenta a pontuação. E existe o risco climático — a seca prolongada de 2024 derrubou a produção regional em quase quinze por cento e assustou compradores.
Há também a disputa por mão de obra qualificada. Colher seletivamente, grão por grão, exige gente treinada.
E o salário que o setor pode pagar ainda compete com a construção civil do Distrito Federal, que absorve trabalhador rural em ritmo acelerado.
O recado dos jurados
No encerramento do concurso, um dos jurados italianos resumiu o espírito do momento com uma frase que circulou nos grupos de torrefadores na semana seguinte. Disse que o cerrado brasileiro havia deixado de ser promessa e virado referência — e que, dali para frente, vencer um café do Planalto Central numa prova cega seria tarefa para poucos.
Para quem produz a menos de uma hora do DF, a frase vale mais do que qualquer troféu.
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