
Esplanada dos Ministérios em Brasília. A cidade que mais conhece o governo por dentro é também a que mais o reprova segundo o Datafolha.
A aprovação do governo federal no DF é de 28% — a menor entre todas as UFs
Na capital que hospeda o Palácio do Planalto, o Congresso, os ministérios e o Supremo, o governo federal é mais mal avaliado do que em qualquer outro ponto do país. O dado vem do Datafolha mais recente — e merece ser lido com calma.
Na capital que hospeda o Palácio do Planalto, o Congresso, os ministérios e o Supremo, o governo federal é mais mal avaliado do que em qualquer outro ponto do país. O dado vem do Datafolha mais recente — e merece ser lido com calma, porque guarda uma tese sobre como se forma, ou se esvai, a confiança política no Brasil.
A aprovação da administração federal no Distrito Federal está em vinte e oito por cento. Cai abaixo da média nacional em mais de dez pontos.
Fica abaixo de todas as vinte e sete unidades da federação, incluindo estados de oposição histórica ao atual governo e estados tradicionalmente governistas.
O número, por si só, merece exame. Mas o que o torna verdadeiramente interessante é o contexto.
Brasília é, por definição demográfica e econômica, uma cidade de servidores públicos. Segundo a Pesquisa Distrital por Amostra de Domicílios mais recente da Companhia de Planejamento do Distrito Federal, cerca de um em cada quatro trabalhadores formais do DF tem vínculo direto com o setor público — federal, distrital ou autárquico.
Se acrescentarmos os servidores aposentados, seus dependentes diretos e os funcionários terceirizados de empresas que prestam serviço ao governo, o contingente se aproxima de metade da população economicamente ativa da capital.
A cidade que olha o governo de perto
É aqui que a tese começa a ganhar corpo. O cidadão médio do interior de Minas ou de um bairro periférico do Recife forma sua opinião sobre o governo federal a partir de filtros mediados: telejornais, redes sociais, conversas de boteco, o efeito de políticas públicas que chegam à vida cotidiana com atraso.
O servidor público de Brasília, ao contrário, forma sua opinião a partir de contato direto. Ele assina processos.
Ele redige pareceres. Ele vê, em tempo real, como decisões são tomadas, adiadas, revertidas, pressionadas.
Ele conhece o governo por dentro.
E rejeita mais.
| Unidade da Federação | Aprovação (%) | Média de servidores federais/população | Ranking | |---|---|---|---| | Distrito Federal | 28 | 12,1% | 27º | | Rio Grande do Sul | 31 | 1,8% | 26º | | Santa Catarina | 33 | 1,6% | 25º | | Paraná | 36 | 1,9% | 24º | | São Paulo | 38 | 1,5% | 23º | | Média nacional | 40 | 1,9% | — | | Bahia | 47 | 2,1% | 5º | | Maranhão | 49 | 2,3% | 3º | | Piauí | 51 | 2,4% | 1º |
Fonte: Datafolha (rodada de aprovação presidencial mais recente), Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística e elaboração própria a partir de dados do Ministério da Gestão e Inovação em Serviços Públicos.
A correlação é visível. Quanto maior a proximidade institucional com a máquina federal, menor a aprovação.
Quanto maior a distância — geográfica, burocrática, cotidiana —, maior a aprovação. A hipótese, popularmente resumida, diz que ninguém aguenta o próprio patrão quando vê o patrão todos os dias.
A versão técnica da hipótese, já consolidada em estudos de sociologia política comparada, diz que exposição informacional alta reduz confiança em instituições.
Três hipóteses no guarda-chuva
A primeira hipótese — a da exposição informacional — sugere que, ao ver o governo funcionar por dentro, o servidor identifica contradições, desperdícios, decisões erráticas e pressões políticas que o cidadão médio não vê. Cada novo ato administrativo irracional é, para ele, uma confirmação diária de que o conjunto não opera bem.
A aprovação cai como consequência.
A segunda hipótese é a do choque entre expectativa e entrega. O servidor público federal, especialmente o de carreira técnica, entra no serviço com expectativa alta sobre o que o Estado pode realizar.
Confronta-se, rotineiramente, com a distância entre a promessa institucional e a execução concreta. A frustração cumulativa, ao longo dos anos, se converte em avaliação negativa do governo de plantão — qualquer que seja ele — porque o problema é estrutural e não conjuntural.
A terceira hipótese é a mais delicada. Ela diz que o servidor público do DF é demograficamente diferente da média nacional.
Tem escolaridade superior média mais alta, renda mais alta, acesso à informação mais amplo e, como consequência, menor propensão a avaliar governos pelo recorte exclusivamente afetivo. Trata-se de um eleitorado mais exigente por formação — e não apenas por posição.
A rejeição, nesse caso, não é ideológica. É analítica.
O que o dado não diz
Um dado isolado é perigoso. Vale lembrar que a aprovação presidencial no DF oscilou em várias administrações federais ao longo das últimas três décadas.
Governos de esquerda e de direita receberam notas ruins da capital. Brasília reprova presidentes com consistência que desconcerta analistas acostumados a ler o país pela clivagem partidária.
A variável não é o partido. É a cidade.
Vale também lembrar que o recorte amostral do Datafolha no DF, por razões técnicas, tem margem de erro maior do que a do levantamento nacional. Números próximos de trinta por cento devem ser lidos como faixa, não como ponto fixo.
A conclusão, porém, não muda: mesmo considerando a margem, o DF permanece como o pior desempenho do governo federal no país.
Consequências para o debate público
Há um ponto que analistas políticos raramente consideram. Se a proximidade com a máquina estatal produz rejeição, o que isso diz sobre a percepção geral da eficiência do governo?
A resposta honesta talvez seja desconfortável para as duas metades do espectro ideológico. Diz que o problema brasileiro não é, primariamente, escolha de governo — é desenho de Estado.
Diz que reformas administrativas sérias, capazes de alinhar expectativa e entrega, seriam mais populares entre quem conhece o sistema por dentro do que entre quem só o vê de longe.
E diz, por fim, que a capital federal — longe de ser um laboratório cativo do poder — pode ser o primeiro sinal de alarme quando as coisas começam a dar errado. Brasília não vota como o Brasil.
Brasília enxerga primeiro.
O sinal amarelo
Nenhuma democracia sobrevive bem ignorando o que seus próprios servidores pensam do governo que servem. Vinte e oito por cento de aprovação na cidade-sede é um sinal amarelo.
Não por ser baixo em termos absolutos — governos impopulares já tiveram números piores em séries históricas. É um sinal amarelo porque é o mais baixo entre todas as unidades da federação, ao mesmo tempo em que é, possivelmente, o mais bem informado.
Ignorar esse dado seria confundir sintoma com ruído. Quem o faz, paga caro no ano seguinte.
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