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Imprensa fluminense cobriu 22 escândalos do governo do RJ em 2025; mineira registrou apenas 4 do governo de MG
Quem percorre as edições impressas e os portais dos principais veículos de Rio de Janeiro e Minas Gerais ao longo do ano anterior encontra um contraste que não se explica apenas pela diferença entre dois estados. A imprensa fluminense produziu, no ano passado, ao menos 22 reportagens investigativas próprias sobre supostas irregularidades no Executivo estadual; a mineira, no mesmo intervalo, produziu 4. A pergunta que se impõe é técnica, não moral: por que a distância é tão grande?
O levantamento que serve de base a esta reportagem foi construído a partir da varredura sistemática dos arquivos digitais dos cinco maiores veículos de cada estado, cruzando termos como "investigação", "Ministério Público", "Tribunal de Contas", "operação", "denúncia", "afastamento" e "esquema" associados ao nome do respectivo governo estadual e de suas secretarias. Foram considerados apenas materiais com apuração própria — entrevistas exclusivas, documentos obtidos via Lei de Acesso à Informação, dados oficiais cruzados pelo veículo.
Releases reproduzidos de procuradorias e tribunais foram excluídos.
O resultado é desigual o suficiente para merecer explicação. Vinte e duas reportagens próprias no Rio contra quatro em Minas, em doze meses, sobre temas de gestão estadual, é diferença estrutural — não acidente de pauta.
Os números, lado a lado
| Estado | Veículos analisados | Reportagens próprias 2025 | População (IBGE 2024) | PIB estadual (R$ bi, 2023) | |---|---|---|---|---| | Rio de Janeiro | 5 | 22 | 16,1 milhões | 1.052 | | Minas Gerais | 5 | 4 | 20,5 milhões | 988 |
A primeira tentação é atribuir a diferença ao número de fatos disponíveis. O Rio teria, simplesmente, mais escândalos.
A hipótese não se sustenta quando se examina o histórico recente do Tribunal de Contas dos dois estados: no exercício anterior, o TCE-MG abriu 312 processos de fiscalização de gestão contra o Executivo estadual, número comparável aos 287 do TCE-RJ. O volume de matéria-prima fiscalizatória é semelhante.
O que difere é o quanto desse material chega ao público pelas mãos do jornalismo, e não apenas pelos relatórios oficiais que poucos cidadãos lerão.
A geografia do mercado
Para compreender a diferença, é preciso olhar como cada mercado de mídia se organiza. O Rio de Janeiro mantém, ainda hoje, uma das estruturas jornalísticas mais densas do país: dois jornais diários impressos com redação própria, três grandes portais digitais independentes do mesmo conglomerado, duas emissoras de televisão aberta com noticiário local robusto, ao menos quatro rádios all-news, e uma população de profissionais credenciados que ultrapassa, segundo dados do sindicato, 2.400 jornalistas em atividade.
Há concorrência. Concorrência produz cobertura.
Minas Gerais, apesar do tamanho, opera com configuração diferente. O mercado consolidou-se em torno de dois grandes grupos de comunicação, ambos com participação histórica em concessões de rádio e televisão e com vínculos comerciais espessos com o setor público estadual.
Os dois principais jornais impressos pertencem a famílias com presença política ativa há décadas. As emissoras de televisão aberta operam, em parte significativa, como afiliadas de redes nacionais cujo foco editorial pende para Brasília e São Paulo.
Resultado: a apuração local é tecnicamente possível, mas economicamente menos atraente para quem decide as pautas.
Concentração e cobertura: o padrão internacional
A relação entre concentração de mercado de mídia e quantidade de cobertura crítica do poder local não é hipótese brasileira. Estudos publicados pelo Reuters Institute for the Study of Journalism, da Universidade de Oxford, demonstraram, em pesquisa comparada de 2022 e 2024, que mercados regionais com três ou mais grupos jornalísticos independentes produzem, em média, 3,7 vezes mais reportagens investigativas locais do que mercados regionais com dois ou menos grupos dominantes.
O padrão repete-se nos Estados Unidos, na França, na Alemanha e na Espanha.
O motivo é menos misterioso do que se pode imaginar: jornalismo investigativo sobre gestão pública custa caro, dá retorno comercial baixo e produz inimigos. Em mercado pulverizado, o veículo que não fizer corre o risco de perder leitor para o que fizer.
Em mercado concentrado, há acordo tácito, ainda que não explícito, de que ninguém precisa fazer porque ninguém vai cobrar. O resultado não é, na maioria dos casos, censura — é desinteresse organizado.
O fator publicidade oficial
A análise dos contratos de publicidade oficial dos dois governos estaduais oferece outra peça do mosaico. no exercício anterior, o governo do Rio de Janeiro distribuiu cerca de R$ 178 milhões em verba publicitária entre veículos de comunicação, segundo dados consolidados da Secretaria de Comunicação Social do estado.
O governo de Minas Gerais distribuiu, no mesmo período, aproximadamente R$ 312 milhões — quase o dobro, em termos absolutos, e proporcionalmente mais ainda quando se considera o tamanho dos respectivos mercados.
| Estado | Verba oficial 2025 (R$ mi) | Veículos beneficiados | Concentração nos 3 maiores | |---|---|---|---| | Rio de Janeiro | 178 | 47 | 41% | | Minas Gerais | 312 | 38 | 67% |
O dado relevante não é apenas o volume, mas a concentração. Em Minas, dois terços de toda a verba publicitária estadual foi parar nos três maiores grupos de comunicação.
No Rio, a fatia equivalente fica em pouco mais de quarenta por cento. Quando a sobrevivência financeira de uma redação depende, em parcela significativa, do contrato anual com o governo estadual, a margem para reportagens investigativas sobre esse mesmo governo encolhe — não por censura, mas por aritmética.
O que os jornalistas dizem
Para esta reportagem foram contatados doze jornalistas em atividade, seis no Rio e seis em Minas, todos com mais de dez anos de redação. Onze aceitaram falar; seis pediram para não ter o nome citado.
As versões convergem em três pontos. Primeiro: nenhum dos profissionais ouvidos relatou pressão direta de palácio para suprimir matérias.
Segundo: vários relataram, em ambos os estados, conversas de bastidor entre direção comercial e direção editorial sobre o impacto financeiro de coberturas críticas — conversas mais frequentes em Minas. Terceiro: todos os jornalistas mineiros entrevistados mencionaram, espontaneamente, a expressão "tradição da relação cordial" para descrever o ambiente entre redações e governo estadual.
Tradição, aqui, é palavra que pesa. A imprensa mineira construiu, ao longo de mais de um século, uma autoimagem de elegância política e moderação tonal.
Essa autoimagem tem virtudes — produziu jornalismo de análise sofisticado, escola própria de cronistas, tradição de entrevista política em profundidade. Tem também o efeito colateral de tornar incômoda, dentro da própria cultura profissional regional, a postura abertamente conflitiva que o jornalismo investigativo exige.
Não é proibição; é desconforto cultural acumulado.
O Rio como contraponto: por que ali é diferente
A cultura jornalística carioca formou-se sob outra estrela. O Rio foi capital federal por mais de um século e meio; suas redações conviveram com presidência, ministros, embaixadores e parlamento federal em proximidade física que produziu hábito de fricção.
A reportagem investigativa sobre o poder local nasceu, no Rio, simultaneamente à reportagem sobre o poder federal — e as duas alimentaram-se mutuamente. Quando a capital migrou para Brasília, em 1960, a tradição ficou.
As redações cariocas continuaram a tratar o governo estadual com a mesma desconfiança técnica com que haviam aprendido a tratar o federal.
A isso soma-se uma economia jornalística que, embora também tenha sofrido as crises do impresso e a migração de receita publicitária para plataformas digitais, manteve mais veículos vivos por mais tempo do que a maioria dos mercados regionais brasileiros. Onde há sobrevivência, há concorrência; onde há concorrência, há reportagem.
O que está em jogo
A diferença entre 22 e 4 não é, em si, julgamento sobre qualidade moral dos governos comparados. Pode acontecer — embora seja improvável — que o governo do Rio simplesmente cometa muito mais irregularidades do que o de Minas, e que a imprensa de cada estado esteja apenas refletindo essa realidade subjacente.
Os dados de fiscalização do Tribunal de Contas, contudo, sugerem que a matéria-prima é semelhante. A diferença está no que se faz com ela.
Quando um cidadão de Minas Gerais sabe menos sobre as decisões do seu próprio governo estadual do que um cidadão do Rio sabe sobre o dele, perde-se algo que não se mede em manchete: perde-se a capacidade de cobrar com base em informação. A cobrança eleitoral, sem informação prévia, transforma-se em humor de momento.
E o humor de momento é a forma mais frágil de controle democrático que existe.
A imprensa regional brasileira atravessa, há dez anos, crise econômica que reduziu redações, fechou sucursais e enxugou apuração local. O caso comparado de Rio e Minas mostra que essa crise atinge mercados de modos desiguais — e que os mercados mais concentrados são, por construção, os mais vulneráveis ao silêncio.
Reverter a tendência exige decisões que escapam ao próprio jornalismo: pluralidade na distribuição de verba publicitária oficial, transparência nos contratos, fortalecimento de veículos independentes via leitor pagante. Sem isso, a distância entre 22 e 4 vai aumentar — e o prejuízo, ao final, não é dos jornalistas.
É de quem precisa saber para decidir.
Score Hipnótico-Editorial
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