
Câmara dos Deputados em Brasília: os oito representantes do DF gastaram R$ 647 mil em cota no primeiro trimestre de 2026, com 68% em empresas de publicidade.
Os 8 deputados federais do DF gastaram R$ 647 mil em cota no 1º tri — e 68% virou publicidade
R$ 439 mil do contribuinte brasiliense pagaram assessorias de imagem entre janeiro e março de 2026. Cada real gasto pelos oito deputados federais do DF em publicidade parlamentar custeia, na prática, a vitrine eleitoral de quem já tem o olho na urna de outubro.
Os 8 deputados federais do DF gastaram R$ 647 mil em cota no 1º tri — e 68% virou publicidade
Noventa e dois por cento. Essa é a fatia da cota parlamentar que Erika Kokay (PT-DF) destinou a uma única empresa de comunicação no primeiro trimestre de 2026. R$ 93.430 pagos à Atlantica Estratégia e Comunicação Ltda — em três meses.
Os outros sete representantes do DF na Câmara Federal não ficaram muito atrás. Juntos, a bancada gastou R$ 647.367 da CEAP entre janeiro e março. Desse total, R$ 439.529 — 68% — foram para empresas de divulgação sob a rubrica "Divulgação da Atividade Parlamentar".
As urnas de outubro estão a seis meses. O erário já começou a trabalhar.
A menor cota do país — usada como fundo de imagem
O Distrito Federal tem a Cota para o Exercício da Atividade Parlamentar mais baixa do Brasil: R$ 41.612,55 por mês. Faz sentido geográfico. Os deputados do DF já moram na capital e não precisam comprar passagem aérea toda segunda-feira para chegar ao trabalho. Um parlamentar de Roraima recebe R$ 58.474 por mês para cobrir o trajeto de Boa Vista a Brasília. Um deputado do Plano Piloto ou de Ceilândia já está a dez minutos da Câmara.
Três meses de cota valem R$ 124.837 por parlamentar. A bancada inteira tem direito a R$ 998.701 no trimestre. Os oito usaram R$ 647 mil — 64,8% do disponível. Mas a distribuição revela algo que o número agregado esconde.
Dois terços do dinheiro foram para publicidade.
Tabela 1 — CEAP dos deputados federais do DF, 1º trimestre de 2026
| Deputado | Partido | Total gasto (R$) | % da cota trimestral | Divulgação (R$) | % em divulgação | |---|---|---|---|---|---| | Prof. Reginaldo Veras | PV | 117.980,75 | 94,5% | 74.740,00 | 63,4% | | Erika Kokay | PT | 101.783,74 | 81,5% | 93.430,00 | 91,8% | | Alberto Fraga | PL | 98.045,17 | 78,5% | 85.500,00 | 87,2% | | Bia Kicis | PL | 90.997,36 | 72,9% | 50.000,00 | 55,0% | | Rafael Prudente | MDB | 76.903,56 | 61,6% | 14.000,00 | 18,2% | | Julio Cesar Ribeiro | Republicanos | 64.300,73 | 51,5% | 47.900,00 | 74,5% | | Rodrigo Rollemberg | PSB | 49.919,05 | 40,0% | 39.459,17 | 79,1% | | Fred Linhares | Republicanos | 47.436,66 | 38,0% | 34.500,00 | 72,7% | | Total | | 647.367,02 | 64,8% | 439.529,17 | 67,9% |
Fonte: Portal de Dados Abertos da Câmara dos Deputados. Período: janeiro a início de abril de 2026.
Erika Kokay e a empresa única
Abrir o extrato da CEAP de Erika Kokay para 2026 é simples. Fechar a planilha é perturbador.
Três notas fiscais. Um fornecedor. R$ 93.430.
A Atlantica Estratégia e Comunicação Ltda recebeu a quase totalidade da cota da deputada petista nos três primeiros meses do ano. R$ 50.000 em fevereiro. R$ 43.430 em março. A rubrica: "Divulgação da Atividade Parlamentar".
O que essa empresa entregou, exatamente? A CEAP não exige discriminação do produto contratado. O contribuinte sabe apenas que R$ 93 mil saíram do erário público e foram para uma assessoria de comunicação em ano eleitoral.
Kokay é deputada federal pelo DF desde 2003. Constrói a reeleição com histórico de militância no PT distrital. A cota, formalmente, serve ao mandato. Mas a fronteira entre mandato e campanha — a seis meses da eleição — ficou tão gasta quanto o asfalto da EPIA num agosto seco.
O topo do ranking: Reginaldo Veras
Prof. Reginaldo Veras (PV) encerrou o trimestre com R$ 117.981 gastos — o maior valor entre os oito parlamentares da capital. Em fevereiro, o pico: R$ 60.481 em um único mês, valor 45% acima do limite mensal da cota (R$ 41.612,55).
A CEAP permite acumular saldo de mês para mês. Veras gastou R$ 26.592 em janeiro — cerca de R$ 15 mil abaixo do teto. O saldo acumulado não explica sozinho o salto de fevereiro. O excedente veio de créditos carregados de 2025.
O dado mais revelador: R$ 40.660 foram para publicidade em fevereiro, num único mês. Mais que a cota mensal inteira destinada a divulgação.
Veras chegou à Câmara em 2023, como professor universitário e nome de renovação política no DF. Em 2026, a renovação custa R$ 117 mil por trimestre ao contribuinte brasiliense — com 63% indo para comunicação.
O mais austero: Rafael Prudente
Nem todo parlamentar da bancada usou a cota como vitrine pré-eleitoral.
Rafael Prudente (MDB) gastou R$ 76.904 no trimestre — o quinto maior gasto absoluto. Mas sua rubrica de publicidade somou R$ 14.000, apenas 18,2% do total. O restante foi para manutenção de escritório (R$ 36.059) e combustíveis (R$ 10.794).
É o padrão mais defensável: manter estrutura de atendimento ao eleitor, pagar aluguel, cobrir deslocamentos. A CEAP foi pensada exatamente para isso.
A diferença entre Prudente e Kokay em gastos com divulgação: R$ 79.430. Esse valor paga 13 meses de salário de um servidor técnico do GDF.
Alberto Fraga e a concentração em dois meses
Alberto Fraga (PL) também chama atenção pelo padrão temporal. O deputado bolsonarista, policial civil aposentado e um dos nomes mais votados da direita no DF, concentrou quase toda a rubrica de publicidade em janeiro e fevereiro.
Foram R$ 36.000 em janeiro e R$ 49.500 em fevereiro — total de R$ 85.500 em dois meses. Em março, a divulgação caiu a zero. Fraga usou 87,2% de toda a cota trimestral em autopromoção, depois freou o gasto.
O padrão sugere contratos de comunicação de curta duração, pagos no início do ano. Não há nada de irregular nisso — é dentro da CEAP, com nota fiscal. Mas R$ 85,5 mil em publicidade entre janeiro e fevereiro de um ano eleitoral tem um nome mais honesto: aquecimento de campanha com recurso público.
A anatomia do gasto: onde foi cada real
A rubrica "Divulgação da Atividade Parlamentar" cobre anúncios em veículos de comunicação, produção de material gráfico, assessoria de imprensa, gestão de redes sociais e comunicação institucional. A Câmara não exige que o deputado prove que a publicidade serve ao mandato e não à candidatura. A distinção fica a cargo da honestidade individual de cada parlamentar.
Tabela 2 — Detalhamento dos gastos com divulgação, Q1 2026
| Deputado | Divulgação (R$) | Fornecedor principal identificado | |---|---|---| | Erika Kokay | 93.430,00 | Atlantica Estratégia e Comunicação Ltda | | Alberto Fraga | 85.500,00 | Múltiplos fornecedores (jan-fev) | | Prof. Reginaldo Veras | 74.740,00 | Múltiplos fornecedores | | Bia Kicis | 50.000,00 | Múltiplos fornecedores | | Julio Cesar Ribeiro | 47.900,00 | Realy Produções e Eventos Ltda ME | | Rodrigo Rollemberg | 39.459,17 | Múltiplos fornecedores | | Fred Linhares | 34.500,00 | Pagamentos mensais fixos | | Rafael Prudente | 14.000,00 | Pagamentos fixos jan-fev | | Total | 439.529,17 | |
O caso de Julio Cesar Ribeiro (Republicanos) acrescenta uma variante ao padrão: a Realy Produções e Eventos Ltda ME aparece com R$ 10.000 numa única nota. Empresas de produção de eventos em ano eleitoral operam em zona cinzenta entre mandato e campanha — especialmente quando o contrato cobre materiais gráficos e presença em eventos públicos.
Por que isso importa — e por que 2026 é diferente
A CEAP não é fundo eleitoral. O Fundo Especial de Financiamento de Campanha, que soma R$ 5 bilhões para as eleições de 2026, é uma gaveta separada — destinada a gastos a partir da janela eleitoral oficial. São regras distintas, fiscalização distinta, prestação de contas distinta.
A CEAP opera 12 meses por ano, o ano inteiro, sem janela. E é paga pelo contribuinte — não pelos partidos, não pelos doadores, não pelos próprios parlamentares.
O conflito é estrutural. A Câmara Federal — que consumiu mais de R$ 1 bilhão só no primeiro trimestre de 2026 com salários, verbas e infraestrutura — não exige que o deputado comprove que a divulgação serve ao mandato e não ao candidato. Quando 68% de toda a CEAP gasta pelos representantes do DF foi para publicidade — e as eleições estão a seis meses — a pergunta que o contribuinte tem o direito de fazer é simples:
Quem está pagando a campanha de quem?
A projeção: quanto vai custar 2026 inteiro
Se o ritmo do primeiro trimestre se mantiver, os oito parlamentares do DF gastarão R$ 2,59 milhões em CEAP ao longo de 2026. Do total, R$ 1,76 milhão iriam para empresas de comunicação e publicidade.
O teto anual combinado da bancada é de R$ 3,99 milhões (8 x R$ 41.612,55 x 12 meses). A projeção consome 64,8% desse limite.
Tabela 3 — Projeção anual 2026 (base: ritmo do 1º trimestre)
| Deputado | Gasto Q1 (R$) | Projeção anual (R$) | Teto anual (R$) | % do teto | |---|---|---|---|---| | Prof. Reginaldo Veras | 117.980,75 | 471.923,00 | 499.350,60 | 94,5% | | Erika Kokay | 101.783,74 | 407.134,96 | 499.350,60 | 81,5% | | Alberto Fraga | 98.045,17 | 392.180,68 | 499.350,60 | 78,5% | | Bia Kicis | 90.997,36 | 363.989,44 | 499.350,60 | 72,9% | | Rafael Prudente | 76.903,56 | 307.614,24 | 499.350,60 | 61,6% | | Julio Cesar Ribeiro | 64.300,73 | 257.202,92 | 499.350,60 | 51,5% | | Rodrigo Rollemberg | 49.919,05 | 199.676,20 | 499.350,60 | 40,0% | | Fred Linhares | 47.436,66 | 189.746,64 | 499.350,60 | 38,0% | | Total | 647.367,02 | 2.589.468,08 | 3.994.804,80 | 64,8% |
Reginaldo Veras projeta usar 94,5% da cota anual. Erika Kokay, 81,5%. O DF tem o menor teto do Brasil — mas seus representantes consomem a verba de forma agressiva, especialmente em publicidade.
Isso não é irregularidade. É o sistema funcionando exatamente como foi desenhado.
Análise editorial
O uso da CEAP para publicidade parlamentar em ano eleitoral não é ilegal. É legal, fiscalizado pela própria Câmara e praticado por deputados de todos os partidos em todo o Brasil. Mas legalidade e razoabilidade são conceitos distintos.
O raio-X das eleições distritais de 2022 mostrou que R$ 12 milhões em campanhas elegeram 24 distritais — o gasto total de um pleito inteiro para a CLDF. Agora, oito deputados federais gastam R$ 647 mil em publicidade em 90 dias, fora da janela eleitoral, com dinheiro do contribuinte.
A questão não é de esquerda ou de direita. Alberto Fraga (PL) gastou R$ 85.500 em divulgação. Erika Kokay (PT) gastou R$ 93.430. O partido muda. O padrão não.
A CEAP foi criada para custear o exercício do mandato: escritório, passagens, combustível, manutenção. Quando 68% dela vai para autopromoção em ano eleitoral, a rubrica deixa de ser custeio operacional e vira vantagem incumbente. Quem disputa pela primeira vez paga do próprio bolso ou do fundo partidário. Quem está dentro usa o erário público.
Isso tem nome mais preciso que "uso irregular": é o Estado financiando a manutenção de quem já está no Estado. Diferente do voto comprado em comício de Taguatinga — mas com o mesmo efeito. O dinheiro público trabalha para manter o incumbente no cargo.
A reforma política que o Brasil discute há décadas nunca chega nesse ponto. O fundo eleitoral cresce a cada ciclo — como o Mirante já documentou ao analisar os R$ 5 bilhões destinados às eleições de 2026. A CEAP cresce embutida nos reajustes da Casa. E a publicidade parlamentar financiada pelo contribuinte continua sendo o ativo mais barato da política brasileira: custa R$ 41 mil por mês, não precisa de prestação de contas detalhada e rende presença de marca durante todo o ano.
Metodologia: dados extraídos da API pública da Câmara dos Deputados (dadosabertos.camara.leg.br) em 13 de abril de 2026. Foram consultadas as despesas de 2026 dos oito deputados federais em exercício pelo Distrito Federal (IDs: 73579, 204374, 160575, 220534, 204372, 220533, 220532, 141533). O período abrange lançamentos de janeiro a início de abril de 2026. O valor da CEAP mensal do DF (R$ 41.612,55) foi obtido no portal da Câmara dos Deputados. Projeções anuais são extrapolações lineares com base no ritmo do 1º trimestre, não previsões definitivas.
Matéria produzida por inteligência artificial com supervisão editorial humana.
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