
Mapa eleitoral do Distrito Federal — 19 zonas, 896 candidatos, R$ 57 milhões em campanhas declaradas
O mapa secreto do poder no DF: onde o dinheiro manda, onde o voto protesta e quem são os 55 candidatos fantasma
Seis bases oficiais do Tribunal Superior Eleitoral, 896 candidatos, R$ 57 milhões em receitas declaradas e 19 zonas eleitorais. Os números de 2022 no Distrito Federal contam histórias que nenhum analista publicou — de cinturões ideológicos invisíveis a candidaturas que existem só no papel.
O mapa secreto do poder no DF: onde o dinheiro manda, onde o voto protesta e quem são os 55 candidatos fantasma
O Distrito Federal elegeu, no dia 2 de outubro de 2022, um governador, uma senadora, oito deputados federais e 24 distritais. Foram 2,19 milhões de eleitores aptos, 1,8 milhão de comparecimentos e dezenas de milhões de reais em campanhas. Os dados estão todos abertos no portal do Tribunal Superior Eleitoral. Mas quase ninguém os cruzou de verdade.
Esta reportagem fez isso. Carregou seis bases completas do TSE — candidatos, votação por zona, detalhamento de comparecimento, receitas, despesas e pesquisas registradas para 2026 — e passou um pente fino em cada número. O resultado é um retrato inédito da política brasiliense que vai além dos resultados oficiais.
O cinturão ideológico: DF dividido entre duas capitais
O Distrito Federal não é politicamente homogêneo. Os dados de votação por partido nas 19 zonas eleitorais revelam um padrão geográfico nítido.
A Zona 6 é a mais conservadora do DF: 61,1% dos votos válidos para deputado distrital foram para partidos de direita e centro-direita (PL, PP, Republicanos, União, PSD, entre outros). É a zona que cobre parte de Águas Claras e Taguatinga Norte — região de classe média alta, condomínios verticais e eleitores que priorizam segurança e gestão.
No extremo oposto, a Zona 14 concentra a maior proporção de votos em partidos de esquerda: 40,5% foram para PT, PSOL, PCdoB, PDT, PSB e aliados. É a zona que abrange a Asa Norte, Varjão e parte do Lago Norte — mistura de universidade, funcionalismo federal progressista e comunidades de baixa renda.
A Zona 17, que cobre Sobradinho e regiões periféricas do norte, ficou com 59,2% à direita — a segunda mais conservadora. Já a Zona 1 (Plano Piloto central, Asa Sul) foi a mais equilibrada: 48,1% direita contra 36,1% esquerda, com forte presença de partidos menores.
| Zona | % Direita | % Esquerda | Perfil predominante | |------|-----------|------------|---------------------| | 6 | 61,1% | 15,9% | A mais conservadora do DF | | 17 | 59,2% | 20,1% | Sobradinho e periferia norte | | 4 | 54,6% | 17,0% | Taguatinga e Ceilândia | | 14 | 44,3% | 40,5% | Asa Norte e Varjão — disputa acirrada | | 1 | 48,1% | 36,1% | Plano Piloto — mais equilibrada | | 18 | 43,5% | 23,2% | Samambaia | | 21 | 43,2% | 15,4% | Planaltina — menos ideológica |
O dado surpreende porque destrói a narrativa de que "Brasília é toda de esquerda por ser funcionalismo público". Não é. A capital administrativa é progressista no Plano Piloto, mas as cidades-satélite que cresceram nas últimas duas décadas — e que são a maioria do eleitorado — votam à direita com margem folgada.
Abstenção: o mito de que o eleitor desistiu
A abstenção no DF caiu de 2018 para 2022. Foram 18,7% de abstenção em 2018 contra 17,6% em 2022 — uma redução de 1,1 ponto percentual. Em números absolutos, 3.527 eleitores a menos deixaram de votar, mesmo com o eleitorado crescendo em 112 mil pessoas.
Os votos nulos despencaram: de 106.567 em 2018 para 47.561 em 2022, uma queda de 55%. Votos brancos ficaram praticamente estáveis (+901). A interpretação é direta: em 2022, o eleitor brasiliense estava mais politizado e menos disposto a anular o voto. A polarização entre Lula e Bolsonaro puxou gente para a urna que antes ficava em casa.
A abstenção, porém, não se distribui uniformemente:
| Indicador | Zona 2 (maior) | Zona 11 (menor) | |-----------|-----------------|------------------| | Taxa de abstenção | 19,6% | 15,3% | | Diferença | +4,3 pontos percentuais | — |
A Zona 2, que cobre Gama e Santa Maria, tem a maior taxa de abstenção do DF. A Zona 11, abrangendo parte de Taguatinga, tem a menor. A diferença de 4,3 pontos percentuais entre a zona mais engajada e a mais ausente pode parecer pequena, mas representa milhares de votos que mudariam resultados em eleições proporcionais apertadas.
Dado intrigante: a Zona 21 (Planaltina e região) foi onde os votos nulos e brancos mais caíram entre 2018 e 2022: queda de 40,6%. É como se o eleitor planaltinense, que antes protestava anulando o voto, tivesse decidido escolher um lado.
Os 55 candidatos fantasma
De 578 candidatos a deputado distrital com votos registrados, 55 receberam menos de 100 votos — 9,5% do total. São candidaturas que mal existem: nem a família inteira votaria em números tão baixos.
O universo se amplia quando consideramos a faixa de até 500 votos: 234 candidatos (40,5%) não passaram dessa marca. Quatro em cada dez candidatos a distrital tiveram menos votos que uma seção eleitoral inteira.
Os partidos que mais concentram essas candidaturas ínfimas:
| Partido | Candidatos com < 100 votos | Total de candidatos | Percentual | |---------|---------------------------|---------------------|-----------| | PCO | 3 | 4 | 75% | | PMB | 10 | 23 | 43% | | Solidariedade | 9 | 22 | 41% | | DC | 8 | 20 | 40% | | Cidadania | 3 | 16 | 19% | | PTB | 4 | 24 | 17% | | PROS | 4 | 25 | 16% |
O PCO é caso à parte — partido de nicho com quatro candidatos, três dos quais ficaram abaixo de 100 votos. Mas PMB, Solidariedade e DC chamam atenção: são partidos que lançaram 20+ candidatos e tiveram 40% deles com votação irrelevante. Esses números levantam a questão recorrente sobre candidaturas de fachada, usadas para inflar o tempo de propaganda ou cumprir cotas de gênero sem real intenção de competir.
O preço de cada voto: de R$ 5,50 a R$ 73,80
Os 24 distritais eleitos gastaram, somados, mais de R$ 11 milhões em receitas declaradas. Mas a eficiência de cada real variou de forma brutal.
Paula Belmonte (Cidadania) gastou R$ 73,80 por cada voto que recebeu — foram R$ 1.270.000 de receita para 17.208 votos. No outro extremo, Max Maciel (PSB) conseguiu 35.758 votos com apenas R$ 196.775, o que dá R$ 5,50 por voto. A diferença: Paula pagou 13,4 vezes mais por cada voto que Max.
Os cinco mais caros e os cinco mais baratos:
| Posição | Nome | Votos | Receita | R$/voto | |---------|------|-------|---------|---------| | 1º mais caro | Paula Belmonte | 17.208 | R$ 1.270.000 | R$ 73,80 | | 2º mais caro | Joaquim Roriz Neto | 21.057 | R$ 1.139.100 | R$ 54,10 | | 3º mais caro | Jaqueline Silva | 26.452 | R$ 1.277.000 | R$ 48,28 | | 4º mais caro | Eduardo Pedrosa | 22.489 | R$ 871.973 | R$ 38,77 | | 5º mais caro | Roosevelt Vilela | 20.223 | R$ 635.100 | R$ 31,40 | | ... | ... | ... | ... | ... | | 5º mais barato | Jorge Vianna | 30.640 | R$ 180.647 | R$ 5,90 | | 4º mais barato | Thiago Manzoni | 25.554 | R$ 150.793 | R$ 5,90 | | 3º mais barato | Rogério Morro da Cruz | 18.207 | R$ 154.200 | R$ 8,47 | | 2º mais barato | Iolando | 20.757 | R$ 175.798 | R$ 8,47 | | 1º mais barato | Max Maciel | 35.758 | R$ 196.775 | R$ 5,50 |
O padrão é revelador: os candidatos mais baratos por voto são, em geral, aqueles com bases comunitárias consolidadas — movimentos sociais, igrejas, sindicatos. O dinheiro substitui o que o candidato não tem em rede de contatos.
Entre os deputados federais, o padrão se repete com números ainda mais extremos. Gilvan Máximo gastou R$ 68,90 por voto (R$ 1,44 milhão para 20.923 votos), enquanto Fred Linhares precisou de apenas R$ 3,66 por voto (R$ 604.470 para 165.358 votos). Bia Kicis, a mais votada com 214.733 votos, gastou R$ 9,91 por voto.
Mulheres: candidatas, sim; financiadas, nem tanto
Em 2022, 34,8% dos candidatos a distrital eram mulheres (212 de 610). Mas apenas 16,7% dos eleitos foram mulheres — quatro de 24. A distorção é gritante: um terço das candidaturas, um sexto das cadeiras.
O dinheiro explica parte do problema. A receita média das candidatas mulheres foi de R$ 95.101, contra R$ 102.953 dos homens — um gap de 7,6%. Mas a mediana conta uma história diferente: R$ 42.439 para mulheres versus R$ 37.094 para homens. Ou seja, a candidata mediana tem mais dinheiro que o candidato mediano, mas os homens concentram as maiores receitas no topo.
A composição do financiamento revela a dependência estrutural: 79,8% da receita das mulheres veio do Fundo Especial de Financiamento de Campanha (o Fundão Eleitoral), contra 56,9% dos homens. Mulheres dependem quase exclusivamente de recurso público partidário. Homens diversificam mais, com 32,6% vindo de "outros recursos" (doações de pessoas físicas, autofinanciamento, etc.) contra apenas 14,6% das mulheres.
| Fonte de receita | Homens | Mulheres | |------------------|--------|----------| | Fundo Especial | 56,9% | 79,8% | | Outros recursos | 32,6% | 14,6% | | Fundo Partidário | 10,5% | 5,6% | | Total arrecadado | R$ 38,5 milhões | R$ 19,4 milhões |
O total arrecadado pelos homens é praticamente o dobro do arrecadado pelas mulheres (R$ 38,5 milhões contra R$ 19,4 milhões), mesmo que os homens sejam apenas 1,87 vezes mais candidatos. O dinheiro não segue a proporção de candidaturas.
O perfil de quem se elege: deputados de profissão
Dos 24 distritais eleitos em 2022, 11 declararam como ocupação "deputado" — ou seja, 45,8% já estavam no cargo e foram reeleitos. A CLDF é um clube de renovação lenta.
Os demais eleitos incluem dois advogados, dois servidores públicos estaduais, um enfermeiro, um professor, um assistente social, um agenciador de propaganda e um servidor aposentado. Dos 610 candidatos totais, 80 eram empresários (13,1%), 46 servidores estaduais, 41 advogados e 31 policiais militares.
Nenhum policial militar se elegeu distrital, apesar de serem 5% dos candidatos. Nenhum empresário, apesar de serem 13%. Os dois grupos investem em candidaturas, mas não convertem votos em cadeiras na proporção do esforço.
A idade média dos eleitos foi de 47,8 anos — praticamente idêntica à média de todos os candidatos (48,2 anos). O mais jovem eleito tinha 31 anos e o mais velho, 68. Não existe uma "idade ideal" estatisticamente significativa.
Em escolaridade, 21 dos 24 eleitos (87,5%) têm ensino superior completo. Dois têm ensino médio e um tem fundamental incompleto. A CLDF é quase exclusivamente de formação superior.
Em cor e raça: 12 brancos (50%), 8 pardos (33,3%) e 3 pretos (12,5%). Considerando que a população do DF é majoritariamente parda e preta, a sobre-representação branca persiste na casa legislativa.
Senado: o caso dos R$ 285,71 por voto
A disputa pelo Senado em 2022 no DF produziu um dos dados mais impressionantes da eleição. Marcelo Hipólito (PTB) declarou receita de R$ 526.000 e obteve 1.841 votos, o que dá R$ 285,71 por voto — quase quatro salários mínimos da época para cada eleitor que digitou seu número na urna. Ele ficou em penúltimo lugar.
Carlos Rodrigues (PSD), com R$ 1.670.929 de receita e 9.366 votos, gastou R$ 178,40 por voto. Também não se elegeu.
A eleita, Damares Alves (Republicanos), gastou R$ 5,52 por voto — 714.562 votos com R$ 3,94 milhões de receita. A segunda colocada, Flávia Arruda (PL), gastou R$ 8,80 por voto. O padrão é claro: os candidatos competitivos ao Senado gastam menos por voto porque já têm visibilidade pública. Quem não tem, joga dinheiro num poço.
O Senado também lidera em protesto: 12,1% dos votos dos que compareceram foram nulos ou brancos na urna para senador, contra 9,5% para deputado federal, 8,4% para governador e 7,5% para distrital. O eleitor demonstra mais confusão ou desinteresse no voto para senador — cargo que muitos não entendem bem.
A dinastia Roriz e os 64 clãs
O sobrenome Roriz apareceu três vezes nas candidaturas de 2022: Joaquim Roriz Neto (PL, eleito distrital com R$ 54,10/voto), Dedé Roriz (AGIR, distrital) e Paulo Roriz (PTB, distrital). O neto do ex-governador Joaquim Roriz foi o segundo mais caro por voto entre os eleitos.
No total, 64 sobrenomes aparecem com três ou mais candidatos em 2022. O campeão é Silva (73 candidatos), seguido por Santos (52), Oliveira (38), Souza (28) e Lima (19). São sobrenomes comuns demais para indicar parentesco, mas outros chamam atenção: Ferreira (16), Araújo (15), Rodrigues (16) — e, claro, os Roriz.
Ibaneis Rocha: forte em Planaltina, fraco na Asa Norte
O governador reeleito Ibaneis Rocha obteve 832.633 votos no primeiro turno, contra 434.587 de Leandro Grass, 123.715 de Paulo Octávio e 94.100 do Coronel Moreno.
Mas a votação de Ibaneis variou 26,3 pontos percentuais entre sua zona mais forte e mais fraca. Na Zona 21 (Planaltina), ele chegou a 61,4% dos votos — quase dois terços. Na Zona 14 (Asa Norte e arredores), ficou com apenas 35,2%.
Essa geografia confirma o padrão: Ibaneis é forte exatamente onde a direita domina e fraco onde a esquerda disputa. Planaltina, que tem a maior queda de votos de protesto entre 2018 e 2022 (-40,6% de nulos e brancos), parece ter canalizado sua decisão de votar diretamente para Ibaneis.
O que esperar de 2026: seis pesquisas, R$ 167 mil e muita incerteza
Até abril de 2026, apenas seis pesquisas eleitorais foram registradas no TSE para o Distrito Federal. O instituto mais ativo é o IGAPE (Instituto Gazeta de Pesquisas), com duas pesquisas. Veritá e Cepphor aparecem com uma cada.
O custo total declarado é de R$ 167.540, com a pesquisa mais cara saindo por R$ 93.940. A maioria cobre governador, senador e deputados simultaneamente.
O número é significativamente baixo para uma unidade da federação com 2,2 milhões de eleitores. Em 2022, a mesma época já tinha dezenas de pesquisas registradas. Isso pode indicar que os pré-candidatos ainda não definiram alianças — ou que o mercado de pesquisas migrou para levantamentos internos que não precisam de registro no TSE.
O que os números dizem sobre 2026
Os dados de 2022 são a linha de base para qualquer análise séria da eleição que vem. Três lições se destacam:
Primeiro, o DF é um território conservador com bolsões progressistas, não o contrário. Quem quiser vencer o governo precisará dos votos das zonas 6, 17, 4 e 13 — todas acima de 53% à direita. A Asa Norte e o Plano Piloto, onde mora a imprensa e a classe política, são exceção, não regra.
Segundo, dinheiro não compra eleição, mas a falta dele elimina. Paula Belmonte gastou R$ 73,80 por voto e se elegeu; Max Maciel gastou R$ 5,50 e também. Mas dos 234 candidatos com menos de 500 votos, a esmagadora maioria tinha receitas ínfimas. Existe um piso mínimo de recursos sem o qual a candidatura é ficção.
Terceiro, a sub-representação feminina é estrutural e financeira. Mulheres são um terço das candidatas e um sexto das eleitas. Dependem quase exclusivamente do Fundo Eleitoral. Sem rede própria de doadores e sem diversificação de receita, a cota de candidaturas se transforma em cota de derrota.
Todos os dados desta reportagem são públicos e verificáveis nos portais de dados abertos do Tribunal Superior Eleitoral. O script de análise está disponível para reprodução. Números referem-se ao primeiro turno das eleições gerais de 2022 no Distrito Federal, exceto quando indicado.
Matéria produzida por inteligência artificial com supervisão editorial humana. Os dados são factuais; a interpretação editorial segue a linha do Mirante News.
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