
Plenário do Conselho de Segurança da ONU em Nova York — a mesa mais poderosa da diplomacia global, com quinze cadeiras disputadas por 193 países
O Brasil quer voltar ao Conselho de Segurança. Sua política externa pode ser o maior obstáculo
Com onze mandatos no currículo e a maior campanha diplomática da década, o Brasil disputa a vaga rotativa no Conselho de Segurança da ONU para 2026-2027. A equidistância de Lula em Gaza e na Ucrânia agrada o Sul Global mas pode custar os votos ocidentais decisivos.
O Brasil quer voltar ao Conselho de Segurança. Sua política externa pode ser o maior obstáculo
O Conselho de Segurança da ONU tem quinze cadeiras. Cinco são permanentes — Estados Unidos, Rússia, China, França, Reino Unido — e dez giram entre os demais 188 países. É a mesa mais poderosa do planeta. Quem senta ali vota sobre sanções, operações de paz e, nos piores dias, sobre guerra e cessar-fogo.
O Brasil quer uma dessas cadeiras rotativas para o biênio 2026–2027. A eleição aconteceu em junho de 2025, na Assembleia Geral. Precisava de dois terços dos votos: aproximadamente 129 de 193 países. O chanceler Mauro Vieira coordenou a campanha por mais de um ano, vendendo o Brasil como porta-voz do Sul Global.
Os números favoreciam. Onze mandatos anteriores — recorde entre países em desenvolvimento. Uma tradição diplomática que remonta à fundação da ONU em 1945. E a vaga pertence ao bloco latino-americano e caribenho, o GRULAC, onde o Brasil costuma passar sem adversário forte.
O problema não é a candidatura. É o que acontece quando os votos são contados fora da América Latina.
A aritmética dos 129
A maioria dos 193 membros da Assembleia Geral pertence ao Sul Global — África, Ásia, Caribe, América Latina. Esse bloco tende a votar junto. Se o Brasil conseguir apoio sólido ali, chega perto dos 129. Mas "perto" não basta. Precisa de europeus, de alguns asiáticos desenvolvidos, eventualmente de aliados dos Estados Unidos.
E aqui mora o dilema.
Desde o início do terceiro mandato, Lula adotou uma política de equidistância em dois conflitos que racharam a ordem internacional: a guerra na Ucrânia e a ofensiva israelense em Gaza. Na Ucrânia, recusou-se a condenar a invasão russa por nome. Em Gaza, criticou Israel com dureza — comparou a operação militar ao Holocausto — mas sem romper relações.
Para o Sul Global, a postura funciona. Países africanos e asiáticos que se sentem ignorados pelo Ocidente enxergam no Brasil um interlocutor que não se alinha automaticamente a Washington ou Bruxelas. É exatamente o que Lula quer vender: soberania de pensamento.
Para as democracias ocidentais, a leitura é outra. O governo britânico e o francês acompanham com desconforto a recusa brasileira em chamar a Rússia de agressora. A Alemanha, parceira do Brasil no G4 — o grupo que pleiteia assentos permanentes no Conselho —, já sinalizou em bastidores que a ambiguidade tem custo.
Resultado: o Brasil agrada quem já votaria nele e incomoda quem poderia completar os 129.
Os votos que decidem: mapa por bloco
A dinâmica de votação na Assembleia Geral segue lógica de blocos. Uma análise mais detalhada revela onde o Brasil precisa conquistar — e onde pode perder.
África (54 votos). Historicamente simpática ao Brasil por laços culturais e cooperação Sul-Sul. O Itamaraty investiu pesado em abertura de embaixadas no continente durante o governo Lula 2 (2007-2010), chegando a 37 representações. Muitas foram fechadas por Bolsonaro. A reconstrução da presença diplomática africana é trunfo de Lula 3, mas leva tempo para converter em votos firmes.
Ásia-Pacífico (54 votos). Dividida entre aliados americanos (Japão, Coreia do Sul, Austrália) e países que praticam a mesma equidistância do Brasil (Índia, Indonésia, Vietnã). O bloco ASEAN tende a apoiar candidatos que não se alinham rigidamente ao Ocidente — vantagem para o Brasil. Mas China e Índia têm suas próprias agendas no Conselho e nem sempre transferem apoio a aliados retóricos.
Europa Ocidental e Outros (28 votos). É o bloco mais problemático. Inclui todos os membros da União Europeia, Canadá, Austrália, Nova Zelândia e Israel. A postura brasileira na Ucrânia e em Gaza irrita exatamente esses países. Mesmo que o Brasil não precise de todos os 28, perder uma maioria nesse grupo torna a aritmética dos 129 muito apertada.
Europa Oriental (23 votos). Inclui Ucrânia, Polônia e os bálticos — todos hostis à ambiguidade brasileira sobre a Rússia. Mas também inclui Sérvia, Hungria e países da Ásia Central que orbitam Moscou. Bloco rachado, sem tendência clara.
América Latina e Caribe (33 votos). A base natural. O GRULAC costuma apresentar candidato único, o que transforma a eleição em formalidade regional. Mas a Argentina de Milei é imprevisível, e países caribenhos pequenos são suscetíveis a pressão de Washington.
O que aconteceu no mandato 2022-2023
O último mandato brasileiro no Conselho de Segurança — 2022-2023 — oferece um espelho do que esperar.
O Brasil assumiu sob Bolsonaro, em janeiro de 2022, com uma política externa de alinhamento com os Estados Unidos e Israel. Dois meses depois, a Rússia invadiu a Ucrânia. O Brasil votou a favor da resolução da Assembleia Geral que condenava a invasão, mas se absteve em resoluções subsequentes que pediam reparações e responsabilização.
Em janeiro de 2023, Lula assumiu e a política mudou. O Brasil passou a defender "diálogo" e "mediação" em vez de condenação direta. Na votação de fevereiro de 2023 sobre o aniversário da invasão, o Brasil se absteve. Na votação sobre Gaza em outubro de 2023, após o ataque do Hamas e a resposta israelense, o Brasil votou a favor do cessar-fogo — posição que o colocou em rota de colisão com os Estados Unidos, que vetaram a resolução.
O mandato terminou com um saldo misto: o Brasil ganhou visibilidade como voz do Sul Global, mas consolidou a percepção ocidental de que é parceiro não confiável em questões de segurança.
O fantasma do G4
Brasil, Alemanha, Índia e Japão formam o G4 desde 2004 com uma pauta única: reforma do Conselho de Segurança para incluir novos membros permanentes. Vinte e dois anos depois, a reforma não avançou um centímetro. Os cinco membros permanentes — especialmente Estados Unidos e China — bloqueiam qualquer mudança que dilua seu poder de veto.
A candidatura rotativa de 2026 não é a cadeira permanente que o Brasil sonha. Mas é um teste de prestígio. Perder a eleição — ou vencer por margem apertada — sinaliza erosão de influência. E num momento em que a Índia investe pesado em diplomacia multilateral e a Alemanha recalibra sua posição pós-guerra na Ucrânia, o Brasil não pode se dar ao luxo de parecer fraco no próprio quintal institucional.
A ironia do G4 é que seus membros competem entre si por influência no Conselho ao mesmo tempo que cooperam pela reforma. A Índia, por exemplo, cumpriu mandato rotativo em 2021-2022 e usou a cadeira para se projetar como potência asiática indispensável — exatamente o papel que o Brasil quer desempenhar no contexto latino-americano. Berlim e Tóquio, por sua vez, têm a vantagem de pertencer ao bloco ocidental, onde a confiança é moeda mais estável.
A campanha de Mauro Vieira
O Itamaraty montou uma operação de lobby clássica: visitas bilaterais a dezenas de capitais, promessa de cooperação técnica, apoio a candidaturas de outros países em organismos menores. Troca de favores é a moeda corrente da diplomacia multilateral.
Vieira tem a seu favor a máquina do Itamaraty — uma das chancelarias mais profissionais do mundo em desenvolvimento — e a vantagem geográfica: o GRULAC costuma apresentar candidato único, evitando disputa interna. Se nenhum país latino-americano concorrer contra o Brasil, a eleição se torna quase um referendo de popularidade.
Quase. Porque mesmo sem adversário declarado, a votação é secreta. E voto secreto na ONU é território de surpresas.
O precedente mais traumático para o Brasil foi em 2005. O país concorreu ao Conselho de Direitos Humanos confiante na vitória. Perdeu para o México. A derrota expôs que promessas de corredor não se convertem automaticamente em votos na urna — e que a diplomacia brasileira, apesar de sofisticada, não é imune a revezes quando a margem depende de votos fora da América Latina.
Posições concretas: Ucrânia e Gaza
A equidistância não é abstrata. Ela se materializa em votos específicos que ficam registrados e são lembrados.
Ucrânia. Em março de 2025, a Assembleia Geral votou uma resolução pedindo retirada completa das tropas russas. O Brasil se absteve — pela quarta vez consecutiva em resoluções sobre o conflito. A justificativa: "resoluções unilaterais não conduzem à paz". A Ucrânia classificou a abstenção como "decepcionante". A Polônia, em nota diplomática, disse que "neutralidade diante de agressão é cumplicidade".
Gaza. Em dezembro de 2024, o Brasil copatrocinou uma resolução na Assembleia Geral pedindo cessar-fogo imediato em Gaza. A resolução foi aprovada com 153 votos a favor. Lula, em discurso na Assembleia, comparou a ofensiva israelense ao Holocausto — declaração que provocou a convocação do embaixador brasileiro em Tel Aviv e gerou protestos de comunidades judaicas em São Paulo e no Rio. Israel reclassificou o Brasil de "parceiro" para "hostil" em seus relatórios diplomáticos internos.
As duas posições — abstenção na Ucrânia, protagonismo em Gaza — ilustram a seletividade da equidistância brasileira. Para críticos ocidentais, o Brasil é duro com Israel mas brando com a Rússia, o que revela não equilíbrio, mas escolha geopolítica.
Os mandatos anteriores: o que o Brasil fez quando sentou à mesa
O histórico brasileiro no Conselho de Segurança é longo, mas desigual em impacto.
No mandato de 2004-2005, sob Lula 1, o Brasil liderou a Missão das Nações Unidas para Estabilização no Haiti — a MINUSTAH — e usou a cadeira para projetar capacidade militar e diplomática simultaneamente. Foi o mandato de maior protagonismo brasileiro no Conselho, com o país presidindo sessões sobre o Oriente Médio e propondo resoluções sobre a crise no Sudão.
No mandato de 2010-2011, ainda sob Lula, o Brasil tentou mediar a crise nuclear iraniana com a Turquia — a chamada Declaração de Teerã. A iniciativa foi rejeitada pelos Estados Unidos e pela França, que endureceram sanções contra o Irã semanas depois. O episódio consolidou duas percepções opostas: para o Sul Global, o Brasil mostrou ousadia diplomática; para o Ocidente, mostrou ingenuidade.
No mandato de 2022-2023, a transição Bolsonaro-Lula em plena guerra na Ucrânia criou uma esquizofrenia diplomática: o Brasil votou de um jeito em janeiro e de outro em fevereiro, conforme o presidente mudava. A credibilidade do país como ator consistente no Conselho sofreu.
Cada mandato deixa marcas. O próximo será avaliado não apenas pelo que o Brasil votar, mas pela coerência entre discurso e ação — exatamente onde a equidistância é mais vulnerável.
A dimensão econômica: comércio como moeda de voto
Diplomacia multilateral não opera no vácuo. Por trás de cada voto na Assembleia Geral há relações comerciais, acordos de cooperação e promessas de investimento.
O Brasil é o principal parceiro comercial da maioria dos países sul-americanos e tem presença relevante na África lusófona. Essas relações se convertem em votos com relativa facilidade. Mas nos mercados onde o Brasil compete — agronegócio na Ásia, manufatura na África — o apoio diplomático nem sempre acompanha o fluxo comercial.
A China, que é o maior parceiro comercial do Brasil desde 2009, tem posição ambígua. Apoia retoricamente a candidatura brasileira, mas nunca se comprometeu publicamente com o voto. Pequim usa a vaga latino-americana no Conselho como moeda de troca com outros países da região — e pode preferir um candidato mais alinhado se surgir alternativa.
Os Estados Unidos, por sua vez, não votam contra candidatos do GRULAC por tradição — mas podem articular abstenções em bastidores. A relação Lula-Biden foi funcional; a relação Lula-Trump 2.0, caso se confirme, é incógnita total.
A Rússia, que o Brasil se recusa a condenar por nome, retribui com apoio retórico à candidatura — mas o voto russo na Assembleia Geral vale tanto quanto qualquer outro, e o custo reputacional de ser identificado como "candidato apoiado por Moscou" pode superar o benefício de um voto a mais.
O que está em jogo
Sentar no Conselho de Segurança não dá poder de veto — esse privilégio pertence aos cinco permanentes. Mas dá voz. Dá acesso a negociações fechadas. Dá capacidade de moldar agendas. E, para um país que almeja o assento permanente, cada mandato rotativo é uma audição pública.
O Brasil de Lula quer ser ponte entre Norte e Sul, entre Ocidente e o restante. A equidistância é a doutrina que sustenta essa pretensão. Mas pontes que tentam ligar todos os lados às vezes não chegam a margem nenhuma.
A eleição de junho dirá se o mundo compra a narrativa — ou se a tentativa de agradar a todos convenceu ninguém.
O que muda se o Brasil ganhar — e se perder
A vitória traria ao Brasil dois anos de voz ativa nas crises mais graves do planeta. O mandato 2026-2027 coincide com a continuação da guerra na Ucrânia, a escalada no Oriente Médio e tensões crescentes no Indo-Pacífico. O Brasil teria que votar — não apenas opinar — sobre sanções, missões de paz e resoluções que dividem o mundo.
A equidistância, nesse cenário, vira armadilha operacional. Dentro do Conselho, abstenção é registro permanente. Cada voto — a favor, contra ou abstenção — fica documentado e é usado como referência por aliados e adversários. O Brasil não poderá se esconder atrás de declarações genéricas sobre "diálogo e mediação" quando a votação exigir posição concreta.
A derrota, por outro lado, seria o maior revés diplomático do Brasil desde a perda para o México em 2005 no Conselho de Direitos Humanos. Sinalizaria que o capital diplomático construído por duas décadas de ativismo multilateral se erodiu. Para o projeto de cadeira permanente — sonho de longa data do Itamaraty —, uma derrota na vaga rotativa seria sentença de irrelevância temporária.
O cenário mais provável continua sendo a vitória, dado que o GRULAC tende a apoio unificado. Mas a margem importa. Vencer com 170 votos é legitimidade plena. Vencer com 131 é aviso de que a equidistância tem prazo de validade.
Dados: Ministério das Relações Exteriores (gov.br/mre), Nações Unidas (un.org/securitycouncil), Agência Brasil, Reuters, Foreign Policy. Histórico de votações do Brasil no Conselho de Segurança obtido via repositório de resoluções da ONU. Análise de blocos baseada em padrões de votação da 78ª e 79ª sessões da Assembleia Geral.
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