
Manifestação em defesa da liberdade de imprensa em Roma. O ataque institucional a jornais tende, historicamente, a revigorá-los.
O efeito bumerangue: quando governos atacam a imprensa, a imprensa cresce
Há regularidades na política que atravessam séculos. Uma delas, pouco estudada porém visível a quem observa sem paixão, diz respeito ao que acontece quando o poder decide esmagar os jornalistas que o incomodam. O resultado raramente é o planejado.
Há regularidades na política que atravessam séculos. Uma delas, pouco estudada porém visível a quem observa sem paixão, diz respeito ao que acontece quando o poder decide esmagar os jornalistas que o incomodam.
O resultado raramente é o planejado. Com frequência suspeita, é exatamente o contrário.
Este ensaio se propõe a percorrer três casos recentes — Berlusconi na Itália, Erdogan na Turquia, Chávez na Venezuela — e extrair deles o que poderíamos chamar, sem ironia, de lei do bumerangue. Quando um governo ataca a imprensa, a imprensa cresce.
Não imediatamente, não sem perdas, não sem exílios e prisões. Mas cresce, porque o ataque confere à imprensa algo que ela nunca conseguiria comprar: autoridade moral.
O leitor, neste ponto, pode suspeitar que o argumento seja excessivamente consolador. Não é.
Há casos em que a imprensa sucumbiu. Há regimes que conseguiram aniquilá-la.
A tese aqui é mais modesta: em democracias que ainda preservam instituições mínimas — eleições competitivas, algum grau de independência judicial, sociedade civil organizada — a investida contra os jornais tem produzido efeito perverso do ponto de vista de quem a promove. E há razões estruturais para que assim seja.
A aritmética da perseguição
| Período | Líder | País | Liberdade de imprensa antes | Após ataques | Audiência imprensa crítica | |---|---|---|---|---|---| | 1994-2011 | Silvio Berlusconi | Itália | Livre | Parcialmente livre | Crescimento de 34% | | 2003-2023 | Recep Tayyip Erdogan | Turquia | Parcialmente livre | Não livre | Exílio + crescimento digital | | 1999-2013 | Hugo Chávez | Venezuela | Livre | Não livre | Migração para internet | | 2018-presente | Diversos populistas europeus | Hungria, Polônia | Livres | Parcialmente livres | Audiência internacional dobrou |
Fonte: Repórteres Sem Fronteiras, Committee to Protect Journalists, Freedom House. Indicadores agregados de liberdade de imprensa e audiência consolidada de veículos críticos no período.
A tabela é ilustrativa, não exaustiva. Mas aponta para um padrão que se repete.
Em todos os casos, o ataque ao jornal impopular ao governo produziu dois efeitos simultâneos. O primeiro, visível e doloroso, foi a degradação formal do ambiente de liberdade.
O segundo, invisível e decisivo, foi a transformação do jornal perseguido em símbolo. Um símbolo, nas democracias, tem poder de multiplicação que nenhuma estratégia de marketing alcança.
O caso italiano
Silvio Berlusconi controlava, em seu auge, a maior rede de televisão privada da Itália. Tinha amigos poderosos nos jornais.
Tinha advogados excelentes. E, durante quase duas décadas, dedicou parcela substancial de sua energia política a hostilizar os veículos que o criticavam — em particular, um jornal de circulação moderada chamado Il Fatto Quotidiano, e a revista L'Espresso, e um programa de televisão chamado Report.
Processou, ridicularizou, pressionou anunciantes, insinuou favores cruzados. O resultado, verificável em qualquer arquivo de circulação, foi o crescimento sustentado desses veículos ao longo de seu mandato.
Il Fatto Quotidiano, fundado em 2009 no auge do confronto, tornou-se um dos jornais mais lidos do país em poucos anos. Não por milagre — pela razão sociológica elementar de que, quando o poder ataca um veículo, o leitor que desconfia do poder passa a enxergar aquele veículo como necessário.
O caso turco
Na Turquia de Erdogan, o ataque foi mais violento. Houve prisões, houve jornais fechados, houve perseguição criminal a centenas de profissionais.
O resultado, no entanto, seguiu padrão semelhante ao italiano, adaptado ao ambiente digital. A imprensa crítica turca migrou.
Para o exílio, primeiro. Para a internet, depois.
Veículos como o Bold Medya e o Ahval News, operando a partir de Berlim, Londres e Washington, construíram audiências significativas entre turcos dentro e fora do país. A rede social tornou-se amplificador.
A perseguição, que deveria silenciar, gerou solidariedade internacional e acesso a fontes de financiamento antes impensáveis. Erdogan conseguiu destruir prédios de jornais.
Não conseguiu destruir jornalismo.
O caso venezuelano
Hugo Chávez inaugurou, na América Latina moderna, o modelo de ataque frontal à mídia tradicional. Fechou concessões, pressionou anunciantes, intimidou proprietários.
Canais inteiros foram extintos, como o emblemático RCTV em 2007. O governo acreditou, naquela ocasião, ter vencido uma batalha decisiva.
O que ocorreu depois foi a explosão da imprensa independente venezuelana na internet. Sites como Armando.info, Efecto Cocuyo e Runrun.es nasceram ou cresceram exatamente no período pós-perseguição, operando com equipes pequenas, orçamentos modestos e audiências expressivas.
Investigações desses sites derrubaram funcionários, expuseram esquemas de corrupção, documentaram violações. O regime que tentou calar a imprensa produziu, involuntariamente, uma geração de investigadores cujo prestígio cresce na mesma medida em que cresce a repressão.
Por que o bumerangue funciona
Há três mecanismos combinados. O primeiro é psicológico.
O ataque público a um veículo credita-lhe, gratuitamente, a aura de incômodo útil. O leitor que suspeita do poder conclui, com razão, que quem incomoda o poder provavelmente diz algo que o poder preferiria ocultar.
A assinatura daquele veículo, a partir desse ponto, deixa de ser consumo de informação e passa a ser ato cívico.
O segundo mecanismo é econômico. Em democracias com mercado editorial minimamente funcional, a imprensa atacada costuma receber, em resposta, apoio financeiro concentrado: novas assinaturas, doações, campanhas de financiamento coletivo, contratos de distribuição internacional, prêmios.
O ataque, em vez de estrangular, capitaliza. É um dos raros casos em que a hostilidade do poderoso se converte em receita de caixa.
O terceiro mecanismo é institucional. Organismos internacionais, ONGs, governos estrangeiros e grupos de defesa da liberdade de expressão reagem a cada movimento hostil com declarações, relatórios, missões e financiamento direto a jornalistas perseguidos.
A imprensa atacada deixa de ser ator local e passa a integrar uma rede global de proteção. Aquilo que o governo queria tornar marginal torna-se internacional.
O que o príncipe prudente faria
Nenhum estadista inteligente ataca a imprensa crítica. Ignora-a.
Desdenha-a. Eventualmente responde a ela com argumentos.
Mas não a transforma em inimiga declarada, porque compreende que o inimigo declarado é, por definição, fortalecido pela declaração. Os antigos sabiam.
Os modernos esqueceram. E cada vez que esquecem, a imprensa cresce — não porque mereça, mas porque a natureza do ataque cria as condições para seu renascimento.
A lei do bumerangue não é moral. É física política.
Quem a ignora, se atinge com o próprio arremesso. Quem a estuda, aprende a calar com mais elegância — ou, melhor ainda, a tolerar a crítica como preço civilizado da permanência no poder.
O segundo caminho, embora mais difícil, é o único que costuma terminar sem manchete ruim.
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