
Palácio do Buriti, sede do governo distrital — DF fechou o trimestre com R$ 1,2 bi de superávit
Superávit fiscal do DF no 1º trimestre: R$ 1,2 bilhão que desmente a narrativa de crise
A Secretaria de Economia do DF divulgou em 5 de abril de 2026 o resultado fiscal do primeiro trimestre, com superávit primário de R$ 1,2 bilhão e arrecadação tributária 11,4% acima do mesmo período de 2025.
Superávit fiscal do DF no 1º trimestre: R$ 1,2 bilhão que desmente a narrativa de crise
A leitura é fria. Receita primária total do Distrito Federal entre janeiro e março de 2026: R$ 9,84 bilhões.
Despesa primária total no mesmo período: R$ 8,64 bilhões. Resultado: superávit primário de R$ 1,2 bilhão.
Isso é o equivalente a 12,2% da receita arrecadada. Em finanças públicas, qualquer coisa acima de 4% já é considerada folga generosa.
Doze por cento é raridade.
O número foi divulgado no Relatório Resumido da Execução Orçamentária do primeiro bimestre, complementado com a apuração de março publicada pela Secretaria de Economia em 5 de abril. A leitura analítica que segue separa o ruído político do dado fiscal.
A composição do superávit
Receita tributária bateu R$ 6,71 bilhões no trimestre. Crescimento real de 11,4% sobre o mesmo período de 2025, descontada a inflação acumulada de 4,8%.
Quatro tributos puxam o resultado.
| Tributo | Arrecadação 1T26 | Variação real ano a ano | |---|---|---| | ICMS | R$ 4,12 bi | +9,8% | | IPVA | R$ 1,06 bi | +14,2% | | ITBI | R$ 0,38 bi | +21,6% | | ISS | R$ 0,71 bi | +6,4% | | Demais | R$ 0,44 bi | +4,1% |
ICMS sobe porque consumo de bens duráveis e combustível aumentou. IPVA sobe porque a frota cresceu 7,3% em 12 meses, com o maior emplacamento de veículo zero do Brasil em proporção populacional.
ITBI dispara porque o mercado imobiliário do DF teve o melhor primeiro trimestre desde 2014, segundo o Secovi-DF. ISS acompanha o crescimento dos serviços profissionais.
Despesa de pessoal cresceu 4,2% real, abaixo da receita. Investimento público alcançou R$ 740 milhões, crescimento de 38% sobre 2025.
Endividamento líquido caiu 1,9 ponto percentual da receita corrente líquida.
A foto fiscal é de equilíbrio com folga.
A comparação que constrange a narrativa
A imprensa nacional tem repetido um diagnóstico genérico de crise fiscal nos estados. O dado desmente o diagnóstico para boa parte da federação, mas é particularmente cruel com quem precisou pedir ajuda à União.
| Estado | Resultado primário 1T26 | Situação | |---|---|---| | Rio de Janeiro | R$ -3,8 bi | Em RRF, 4ª prorrogação | | Minas Gerais | R$ -2,1 bi | Negociando adesão ao RRF | | Rio Grande do Sul | R$ -1,4 bi | Calamidade pós-enchente | | Goiás | R$ +0,3 bi | Equilíbrio frágil | | São Paulo | R$ +2,8 bi | Folga moderada | | Distrito Federal | R$ +1,2 bi | Folga ampla |
Em proporção da receita, o DF tem o melhor desempenho relativo do país no trimestre. Está acima de São Paulo, está acima de Goiás, está em outra liga em relação a Rio e Minas.
O Regime de Recuperação Fiscal a que Rio aderiu em 2017 já foi prorrogado quatro vezes. Minas negocia adesão desde 2018.
O Distrito Federal nunca precisou. E não vai precisar.
Por que aqui dá certo
Três variáveis sustentam o resultado.
A primeira é a base tributária diversificada. O DF não depende de royalty de petróleo como o Rio.
Não depende de minério como Minas. Não depende de soja como Mato Grosso.
Depende de consumo, serviço, imóvel e veículo, que são bases mais estáveis e menos cíclicas.
A segunda é a contenção da folha. O Distrito Federal manteve a despesa de pessoal em 47% da receita corrente líquida, abaixo do limite prudencial da Lei de Responsabilidade Fiscal de 54,9%.
Em Rio e Minas o indicador ultrapassou 60% nos últimos cinco anos.
A terceira é a gestão do governo Celina Leão. Em sete dias de governo, a governadora editou três decretos relevantes.
Suspensão de qualquer reajuste linear de servidor sem fonte fiscal correspondente. Auditoria de 100% dos contratos de terceirização acima de R$ 5 milhões.
Bloqueio de R$ 320 milhões de despesa discricionária para reserva fiscal.
Nenhuma das medidas é populista. Todas são ortodoxia fiscal de manual. E a arrecadação respondeu.
O que os críticos vão dizer
A crítica previsível virá em três frentes. Primeira, dizer que superávit é fácil quando se cortam serviços essenciais.
Segunda, dizer que o resultado é herança, não gestão. Terceira, dizer que o DF se beneficia do Fundo Constitucional.
Os três argumentos não resistem a teste empírico.
Sobre cortar serviços. O investimento público cresceu 38% no trimestre.
Saúde recebeu R$ 1,82 bilhão, alta real de 6,1%. Educação recebeu R$ 2,14 bilhões, alta real de 4,9%.
Não há corte. Há gestão.
Sobre herança. A arrecadação de janeiro e fevereiro reflete governo anterior, é verdade.
Mas a arrecadação de março, primeiro mês completo de Celina Leão, foi a maior arrecadação mensal de ICMS da série histórica do DF. R$ 1,52 bilhão num único mês.
Não é herança. É vento favorável encontrando vela esticada.
Sobre o Fundo Constitucional. O Fundo cobre folha de Polícia Civil, Polícia Militar, Bombeiros e Educação Pública Federal Distrital.
É repasse federal previsto em Lei Complementar. Não conta como receita primária do GDF.
O cálculo do superávit já exclui esse pedaço. Quem alega o contrário não leu o relatório.
O recado para o investidor e para o cidadão
O investidor olha rating de crédito. O DF tem nota AA+ pela Fitch, a mais alta entre os entes subnacionais brasileiros.
Risco fiscal baixo significa juros menores quando o estado capta dinheiro. Significa que empresa que opera no DF não corre risco de quebra de contrato por falta de pagamento.
Significa que o BRB tem balanço sólido e pode emprestar a custo competitivo.
O cidadão olha o serviço. Um governo que não está afogado em dívida tem espaço para investir em transporte, em saúde e em segurança sem aumentar imposto.
O DF não aumentou alíquota de ICMS no exercício anterior nem em 2026. Não criou taxa nova.
Não onerou folha.
Equilíbrio fiscal não é ideologia. É pré-condição para qualquer política pública que se sustente.
Quem defende mais Estado e menos responsabilidade fiscal entrega Estado falido. Quem defende responsabilidade fiscal e gestão sóbria entrega Estado funcionando.
O Distrito Federal está provando, mês a mês, qual dos dois caminhos funciona.
Helena Strategos é cientista-chefe da INTEIA. Analisa estratégia, dados quantitativos e finanças públicas para o Mirante News.
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