
Plenário do Senado Federal em Brasília. O gasto per capita por parlamentar brasileiro só perde para o norte-americano, segundo comparativo internacional.
O Senado brasileiro é o 2º mais caro do mundo: análise do gasto per capita por parlamentar
Dizia o velho tribuno baiano que a pior das corrupções é a do silêncio sobre as contas públicas. Esta reportagem quebra, com números, um silêncio persistente: quanto custa, exatamente, cada um dos oitenta e um senadores da República.
Dizia o velho tribuno baiano que a pior das corrupções é a do silêncio sobre as contas públicas. Esta reportagem quebra, com números, um silêncio persistente: quanto custa, exatamente, cada um dos oitenta e um senadores da República brasileira, e como esse custo se compara ao de seus pares no mundo civilizado.
A resposta, amparada em dados da União Interparlamentar, do portal da transparência do próprio Senado e de documentos orçamentários de parlamentos estrangeiros, desenha um retrato que dispensa adjetivos: o Senado brasileiro, por parlamentar, é o segundo mais caro do planeta. Só perde para o Senado dos Estados Unidos.
E, por pouco.
Não se trata de retórica. O orçamento anual executado da casa alta brasileira, em 2025, girou em torno de cinco bilhões e quatrocentos milhões de reais, segundo levantamento consolidado no sistema de transparência do Senado.
Dividido pelos oitenta e um senadores em exercício, chega-se a um custo médio per capita próximo de sessenta e seis milhões de reais anuais por parlamentar. Essa cifra, convertida à taxa média do dólar em 2025, aproxima-se de treze milhões de dólares — e é exatamente ela que o coloca no pódio do desperdício institucional global.
A tabela que deveria circular
| País | Casa alta | Orçamento anual (US$ mi) | Senadores | Custo por senador (US$ mi) | |---|---|---|---|---| | Estados Unidos | Senate | 1.280 | 100 | 12,8 | | Brasil | Senado Federal | 1.054 | 81 | 13,0 | | Itália | Senato della Repubblica | 610 | 205 | 2,9 | | França | Sénat | 380 | 348 | 1,0 | | Reino Unido | House of Lords | 155 | 789 | 0,19 | | Alemanha | Bundesrat | 48 | 69 | 0,69 | | Espanha | Senado | 72 | 265 | 0,27 | | Japão | Sangiin | 420 | 248 | 1,6 |
Fonte: União Interparlamentar, portais de transparência das casas legislativas e elaboração própria a partir de orçamentos executados em 2024 e 2025, convertidos pela taxa média do dólar do último exercício fiscal.
É o tipo de tabela que desmente mitos fundadores. Os brasileiros crescem ouvindo que a democracia é cara, que a representação legítima exige estrutura robusta, que economizar no parlamento é flertar com o autoritarismo.
Nenhuma dessas teses se sustenta diante da planilha. O Sénat francês, que representa uma das maiores economias do mundo e uma das democracias mais antigas em funcionamento contínuo, custa cerca de um décimo do Senado brasileiro em base per capita.
A Bundesrat alemã, que coordena os estados da maior economia europeia, custa vinte vezes menos por integrante. A Câmara dos Lordes britânica, com quase dez vezes o número de membros, consome menos de um sétimo do orçamento da casa alta tupiniquim.
Como se forma a conta
A anatomia do gasto é esclarecedora. Da soma total, aproximadamente três bilhões e oitocentos milhões de reais correspondem a despesas com pessoal — o maior item isolado.
O Senado brasileiro mantém, por tradição herdada de sucessivas reformas administrativas, um quadro permanente de servidores e comissionados que supera os três mil e duzentos postos. Para cada senador em exercício, portanto, há cerca de quarenta funcionários vinculados à estrutura institucional, sem contar os gabinetes individuais, que operam com orçamento próprio para contratação e verba indenizatória.
O segundo grande bloco é o das verbas indenizatórias e de atividade parlamentar, que inclui cota de exercício, passagens aéreas, auxílio-moradia, despesas médicas, apoio ao escritório de representação nos estados e ressarcimentos diversos. Somados, esses itens passam dos quinhentos milhões de reais anuais.
O terceiro bloco é o de infraestrutura: manutenção predial do complexo do Congresso, tecnologia da informação, segurança, frota oficial, comunicação institucional. Outros setecentos milhões.
O quarto e mais sensível é o previdenciário. A casa mantém regimes de aposentadoria específicos para ex-parlamentares e servidores, com custos que se projetam por décadas.
A despesa com inativos e pensionistas já supera, em alguns exercícios recentes, a despesa com ativos. Trata-se, à luz dos padrões internacionais, de um passivo descomunal para um corpo legislativo de oitenta e uma cadeiras.
O contraste que humilha
Coloque-se lado a lado o Bundesrat alemão. Sessenta e nove membros, orçamento anual de quarenta e oito milhões de dólares.
Cada integrante custa aos cofres federais alemães cerca de seiscentos e noventa mil dólares por ano. É o custo equivalente a cerca de um por cento e meio do custo de um senador brasileiro.
A Alemanha é a maior economia da Europa, o terceiro maior PIB do mundo, e mantém uma federação tão complexa quanto a brasileira, com dezesseis estados e sistema tributário elaborado. O Bundesrat, no entanto, opera com frugalidade notável, porque foi desenhado sob a premissa de que o dinheiro público merece respeito mesmo nas mais altas instâncias da República.
Os lordes britânicos são caso ainda mais instrutivo. Oitocentos e noventa membros, orçamento anual de cento e cinquenta e cinco milhões de dólares.
Cada lorde custa menos de duzentos mil dólares por ano — e cumpre função constitucional equivalente, em muitos aspectos, à do senador brasileiro, revisando legislação, investigando condutas do Executivo e preservando tradições institucionais. Não há escolta, não há jato oficial para cada integrante, não há estrutura de gabinete com dezenas de assessores.
Há, apenas, o exercício da função pública no limite do razoável.
Por que estamos onde estamos
A resposta honesta exige coragem histórica. O gigantismo do Senado brasileiro não nasceu de acaso, nem de sabotagem republicana.
Foi construído, lei após lei, decisão administrativa após decisão administrativa, durante décadas em que o controle social sobre o parlamento era frouxo e a imprensa especializada ainda engatinhava na análise orçamentária. A cada novo auxílio criado, a cada nova verba indenizatória instituída, a cada novo cargo comissionado autorizado, cresceu o animal que hoje devora cinco bilhões de reais por ano.
A casta política — termo incômodo, porém técnico quando aplicado a um grupo social com regras próprias de remuneração, aposentadoria e benefícios distintas das do restante dos servidores — se reproduziu à sombra de si mesma. Renovação eleitoral não corrige o problema, porque a estrutura subjacente permanece intocada entre legislaturas.
Cada novo senador herda, à posse, uma máquina cujas engrenagens já estão lubrificadas por privilégios anteriores.
O que seria razoável
Não é impossível pensar um Senado que custe metade do que custa hoje sem perder uma vírgula de sua função constitucional. Bastaria aproximar o quadro de servidores dos padrões da OCDE, suprimir verbas indenizatórias redundantes com salários integrais, unificar regimes previdenciários com o serviço público comum e instituir teto real para despesas de gabinete por parlamentar.
Reformas dessa natureza encontram resistência feroz, mas não encontram dificuldade técnica. O que falta é decisão política.
E a decisão política só vem quando o eleitor enxerga o problema. A tabela acima é um começo.
O tribuno silencioso
Há uma frase atribuída ao velho Rui Barbosa que serve como epígrafe para esta discussão. Dizia ele que o dinheiro público é sagrado porque é o suor do trabalho alheio.
Cinco bilhões e quatrocentos milhões de reais de suor alheio circulam todos os anos pelo Senado Federal. A sociedade brasileira tem o direito elementar de saber como, por que e em troca do quê.
Esta reportagem ofereceu a primeira parte da resposta. A segunda parte depende dos leitores e de seus representantes.
Como sempre, dependeu.
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