
Plenário do Tribunal Superior Eleitoral, em Brasília — sete ministros, uma terça-feira, um governo inteiro em jogo.
Roraima vai perder o governador na terça-feira — e quem assume é do mesmo partido
A simulação Monte Carlo da INTEIA, com dez mil execuções, aponta 99,5% de probabilidade de cassação do mandato de Edilson Damião e inelegibilidade de oito anos para Antonio Denarium. O placar mais provável é 6 a 1. E o sucessor é correligionário direto do cassado.
Sete juízes. Uma terça-feira. Um governo inteiro em jogo.
Na próxima terça-feira, 14 de abril, o Tribunal Superior Eleitoral volta a olhar para Roraima. Sete ministros, uma só pergunta: o governador fica ou cai. Quatro votos bastam para derrubar. Dois já foram dados — e os dois foram pela queda.
A INTEIA rodou o cenário dez mil vezes no computador, uma por uma, como quem joga um dado carregado e anota tudo. Em 9.950 rodadas, o governador cai. Em apenas 50, escapa. Isso é 99,5%. Isso é quase certeza matemática.
O placar mais provável? Seis a um. E quem vai divergir, sozinho, já está com o crachá no peito.
O que está em julgamento, em português claro
Imagine um juiz de futebol que marca a falta depois do jogo. É mais ou menos isso. O TSE vai decidir se Antonio Denarium — governador de Roraima eleito em 2022 — abusou do poder público para se reeleger. Não foi bem uma reeleição comum. Foi um pacote.
Um programa social chamado Cesta da Família ganhou, em plena campanha, 40 mil famílias a mais. Reformas de casas saíram do papel nos municípios amigos. Prefeituras aliadas receberam cerca de R$ 70 milhões em repasses de emergência — só que a emergência era eleitoral. No total, nove condutas do artigo 73 da Lei das Eleições caíram no colo dos ministros.
O TRE de Roraima já tinha dito que era abuso. Denarium recorreu ao TSE. O recurso foi parar numa estante por quase dois anos, viajou de ministro em ministro, esperou a paciência do tribunal. E agora volta à mesa.
O voto que mudou tudo
Em novembro de 2025, aconteceu uma coisa que os estrategistas do governador não esperavam.
O ministro André Mendonça votou pela cassação.
Parece nome sem graça para quem não acompanha. Só que tem um detalhe: Mendonça foi indicado por Jair Bolsonaro ao STF. É aliado natural do campo político do Denarium. Quando ele mesmo diz que houve abuso, a defesa perde a carta mais poderosa que tinha no baralho — a tese de perseguição política. Não cola mais. Ninguém perseguiu ninguém. Um ministro do mesmo time olhou para os fatos e disse o que viu.
Foi esse voto que blindou o caso. A partir dali, todo ministro que fosse votar depois passou a ter um cálculo novo na cabeça: divergir da maioria significa defender o réu sozinho, sem amparo técnico, contra um voto do próprio campo. O custo sobe demais. O racional vira acompanhar.
O time que decide
| Ministro | Origem | Voto | |---|---|---| | Isabel Gallotti | STJ · relatora original | Cassação (voto já proferido) | | Ricardo Villas Bôas Cueva | STJ · novo relator | Cassação (carrega o voto) | | André Mendonça | STF · indicado Bolsonaro | Cassação (voto já proferido) | | Kassio Nunes Marques | STF · novo presidente do TSE | Divergência provável (25% de cassar) | | Antonio Carlos Ferreira | STJ | 70% de cassar | | Floriano Marques Neto | Advogado · indicado Lula | 90% de cassar | | Estela Aranha | Advogada · indicada Lula | 88% de cassar | | Cármen Lúcia | STF | 95% de cassar |
É um tabuleiro quase fechado. Dois votos já na conta. Quatro caminhando para a mesma direção. Um isolado.
Por que Kassio Nunes Marques vai divergir — e perder
Nunes Marques pediu 148 dias de vista. Isso é o máximo legal. Quem pede cinco meses para olhar um processo que já estava maduro não está estudando: está ganhando tempo.
Ele assume a presidência do TSE justamente no dia 14 de abril. Vai presidir a sessão em que será derrotado. Esse detalhe tem nome: voto de demarcação. Ele não busca maioria. Ele busca registro. Quer ficar na história como o ministro que tentou segurar — mesmo sabendo que perde. Ganha prestígio onde precisa ganhar, perde onde sabia que ia perder.
Por isso o placar mais provável é 6 a 1. E por isso a divergência tem endereço certo.
A matemática por trás do número
A INTEIA pegou cada ministro pendente e atribuiu uma probabilidade de voto pela cassação. Não foi chute. Foi origem institucional, histórico decisório, linha doutrinária e incentivo reputacional, calibrados um por um. Depois, rodou o computador dez mil vezes. A cada rodada, cada ministro "vota" de acordo com a sua probabilidade. O placar é anotado. Tudo registrado.
No fim das dez mil execuções, saiu isto:
- 4.892 vezes o placar foi 6 a 1 pela cassação.
- 3.077 vezes foi 5 a 2.
- 1.302 vezes foi 7 a 0.
- 679 vezes foi 4 a 3.
- Apenas 50 vezes — em dez mil — houve absolvição.
A média de votos pela cassação, nas dez mil rodadas, foi 5,67 em sete possíveis. A probabilidade agregada de cassação ficou em 99,5%. Quem busca cenário de absolvição precisa torcer por meio por cento de universo paralelo.
O paradoxo que ninguém vai contar
Agora o detalhe que deixa o tabuleiro de cabeça para baixo.
Denarium renunciou ao governo em 27 de março de 2026 — manobra desesperada, tentando escapar da cassação migrando para o Senado. Não escapa. Continua inelegível por oito anos. Mas abriu uma brecha: ao renunciar, passou o cargo para o vice, Edilson Damião. Damião é quem vai ser formalmente cassado na terça-feira.
O que sobra? Nada. Não tem mais vice. A chapa inteira foi varrida.
A Constituição de Roraima manda: assume o presidente da Assembleia Legislativa. Quem é o presidente da Assembleia de Roraima hoje? Soldado Sampaio. De qual partido? Republicanos. E o partido de Denarium é… Republicanos.
Leia de novo. O TSE cassa o governador para punir o abuso de poder de um grupo político — e devolve o governo, pelas mãos da sucessão constitucional, ao mesmo grupo político, pela porta dos fundos. Sampaio governa Roraima até 1º de janeiro de 2027, quando toma posse quem for eleito nas urnas em outubro.
São oito meses e meio com a caneta na mão, no meio do ciclo eleitoral mais decisivo do estado desde a redemocratização. Agenda de inauguração, nomeação, emenda, exposição nacional. É o capital político mais valioso que existe. Não há pré-candidatura que compre isso.
O que muda em outubro
Primeiro: Denarium sai do tabuleiro. A inelegibilidade de oito anos mata o projeto dele ao Senado e abre uma disputa interna feroz dentro do Republicanos pela herança.
Segundo: União Brasil perde terreno. Damião era o nome majoritário do partido. Vai precisar reconstruir candidatura competitiva em tempo curto, justamente quando o ciclo exige nome rodado.
Terceiro: Soldado Sampaio vira protagonista. Deixa de ser presidente de Assembleia e passa a governador de fato. Oito meses e meio no cargo com todos os holofotes ligados. É a maior ascensão política da legislatura em Roraima.
O que olhar na terça-feira
A sessão começa e, antes de qualquer voto novo, Cármen Lúcia passa a presidência do tribunal para Kassio Nunes Marques. Só depois o julgamento é retomado. Essa coreografia importa — porque o presidente entrante já terá declarado publicamente a sua divergência, enquanto a ministra que sai vai depositar o voto que fecha o placar histórico do biênio dela.
Três nomes concentram tensão:
- Antonio Carlos Ferreira — é o ministro mais difícil de prever. 70% de chance de acompanhar. Se divergir, abre brecha para um 5 a 2 em vez do 6 a 1.
- Kassio Nunes Marques — divergência praticamente certa. A pergunta é o tamanho do voto: se vira uma tese longa de doutrina ou um registro curto de dissenso.
- Cármen Lúcia — vai fechar. Rigor histórico contra abuso de poder eleitoral. Voto provável: cassação seca, fundamentação curta, linguagem firme.
Ao final, leia o placar com calma. Se fechar 6 a 1, o modelo da INTEIA acertou no ponto central. Se fechar 5 a 2, continua dentro do intervalo de equilíbrio — ainda é cassação, ainda é a mesma história. Se fechar 7 a 0, significa que Nunes Marques recuou na hora H. E se fechar 4 a 3, é um dos 679 universos paralelos em que o caso ficou no fio da navalha.
Uma última leitura, e essa é a que importa
O mais desconfortável dessa história não é a queda do governador. É a forma como ela acontece. Um tribunal eleitoral, pressionado por cobrança pública entre ministros, vai condenar um governante por usar a máquina pública em favor próprio — e, ao cassá-lo, acabará entregando a mesma máquina pública ao mesmo grupo político. Nenhuma urna foi ouvida. Nenhuma eleição foi convocada. Apenas a engrenagem constitucional rodando sozinha.
Quem presta atenção em Roraima vai ver, já a partir de 15 de abril, um governo novo com um nome só: continuidade.
E quem presta atenção no Brasil vai ver, mais uma vez, a Justiça Eleitoral desenhando os contornos de um estado inteiro numa tarde de terça. Sete juízes. Uma sessão. Um governo redesenhado.
Terça-feira. Catorze de abril. Anota aí.
Metodologia resumida. A análise combina três camadas: reconstrução factual por fontes primárias verificadas (TSE, TRE-RR, Agência Brasil, ALE-RR), modelagem estratégica pela Teoria dos Jogos (jogo sequencial de informação perfeita, com equilíbrio de Nash único no placar 6 a 1) e validação estocástica por simulação Monte Carlo de 10.000 execuções. Os votos já proferidos foram tratados como constantes. Os votos pendentes receberam probabilidades individuais calibradas por origem institucional, histórico decisório, perfil doutrinário e incentivos reputacionais. A premissa de independência condicional entre votos é conservadora — correlação positiva elevaria a probabilidade agregada de cassação acima dos 99,5% reportados.
Pesquisador Responsável: Igor Morais Vasconcelos — Presidente da INTEIA, Bacharel em Direito, Mestre em Gestão Pública, Doutorando em Administração Pública no IDP. Autora Técnica: Dra. Helena Strategos — Cientista-Chefe da INTEIA, Córtex Pré-Frontal da Colmeia v6, responsável pela modelagem estratégica e execução da simulação.
Perguntas Frequentes
- O que acontece no TSE em 14 de abril de 2026?
- Sete ministros do Tribunal Superior Eleitoral retomam o julgamento que pode cassar o mandato de Edilson Damião, atual governador de Roraima, e declarar Antonio Denarium inelegível por oito anos. Dois votos pela cassação já foram proferidos. Quatro ministros ainda vão votar. A sessão marca também a posse do ministro Kassio Nunes Marques na presidência do tribunal.
- Qual é a previsão da INTEIA para o julgamento?
- 99,5% de probabilidade de cassação, calculada sobre dez mil simulações Monte Carlo. O placar mais provável é 6 a 1 (48,9% das execuções), com divergência isolada do ministro Kassio Nunes Marques. A média de votos pela cassação, nas dez mil rodadas, foi de 5,67 em sete possíveis.
- Quem assume o governo de Roraima se Damião for cassado?
- Como Denarium já havia renunciado em 27 de março e Damião é o próprio governador em exercício, não há vice remanescente. A Constituição do Estado aciona a linha sucessória legislativa: assume o presidente da Assembleia Legislativa. Hoje, esse cargo é do deputado Soldado Sampaio (Republicanos) — mesmo partido de Denarium. Ele exercerá mandato-tampão até 1º de janeiro de 2027.
- Por que o voto do ministro André Mendonça foi decisivo?
- Porque Mendonça foi indicado por Jair Bolsonaro e é considerado alinhado ao campo político do governo Denarium. Ao votar pela cassação, em novembro de 2025, ele destruiu a narrativa de 'perseguição política' e mudou a estrutura do jogo: os ministros pendentes passaram a enfrentar uma estratégia dominada, em que acompanhar a relatoria virou o movimento racional de baixo custo reputacional.
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