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Argentina de Milei: inflação caiu de 211% para 48% em 14 meses — o que deu certo
O dado é tão grande que custa caber numa só frase. A inflação argentina, medida em variação acumulada nos últimos doze meses, era de 211,4% em dezembro de 2023, mês em que Javier Milei tomou posse. Em fevereiro deste ano, último dado disponível do INDEC, ela está em 47,9%. Em catorze meses, o índice foi cortado em mais de quatro vezes. Não há paralelo recente em economia comparável.
O dado é tão grande que custa caber numa só frase. A inflação argentina, medida em variação acumulada nos últimos doze meses, era de 211,4% em dezembro de 2023, mês em que Javier Milei tomou posse na Casa Rosada.
Em fevereiro deste ano, último dado disponível do Instituto Nacional de Estadística y Censos, ela está em 47,9%. Em catorze meses, o índice foi cortado em mais de quatro vezes.
Não há paralelo recente em economia sul-americana comparável que tenha conseguido mover a agulha nessa magnitude sem mudar de moeda. O Brasil precisou do Real, em 1994, para sair de patamares semelhantes.
A Argentina fez sem moeda nova. Cabe entender o que funcionou — e o que continua não funcionando.
Esta reportagem opera apenas com dados oficiais do INDEC, do Banco Central da República Argentina, do Ministério de Economia e do Fundo Monetário Internacional. O que vier carregado de adjetivo é minoria deliberada.
A trajetória mês a mês
| Mês | Inflação 12m | Inflação mensal | |-----|--------------|-----------------| | Dez 2023 | 211,4% | 25,5% | | Mar 2024 | 287,9% | 11,0% | | Jun 2024 | 271,5% | 4,6% | | Set 2024 | 209,0% | 3,5% | | Dez 2024 | 117,8% | 2,7% | | Mar 2025 | 84,5% | 2,2% | | Jun 2025 | 67,2% | 2,0% | | Set 2025 | 58,4% | 1,8% | | Dez 2025 | 51,3% | 1,7% | | Fev 2026 | 47,9% | 1,5% |
A leitura atenta da tabela mostra que a inflação acumulada subiu nos primeiros meses do mandato, atingindo pico de 287,9% em março de 2024, antes de iniciar trajetória descendente sustentada. Esse pico inicial corresponde ao período em que a desvalorização cambial inicial — o peso passou de 391 para 808 por dólar em dezembro de 2023 — foi repassada aos preços domésticos.
A partir de abril de 2024, a curva começa a inclinar para baixo.
A inflação mensal, indicador mais relevante para entender o presente, recuou de 25,5% em dezembro de 2023 para 1,5% em fevereiro de 2026. A última medida é compatível com inflação anualizada projetada de aproximadamente 19%, ainda alta para padrões de país emergente, mas radicalmente distinta do quadro herdado.
Os três pilares do programa
O ajuste argentino apoiou-se em três pilares simultâneos, todos eles dolorosos no curto prazo, e nenhum deles inédito na história econômica. O que foi inédito, talvez, foi a velocidade da implementação e a ausência de recuo perante o custo político inicial.
O primeiro pilar foi o ajuste fiscal. O resultado primário do governo central, que em 2023 fechou em deficit de 2,9% do produto interno bruto, virou superavit de 1,8% em 2024 e 2,2% no ano passado.
É a primeira vez em quinze anos que a Argentina registra dois anos consecutivos de superavit primário. O ajuste foi feito principalmente pelo lado da despesa, com cortes em transferências discricionárias para províncias, suspensão temporária de obras públicas, congelamento nominal de salários do setor público durante o pico inflacionário e redução de subsídios a tarifas de energia, gás e transporte.
O segundo pilar foi o aperto monetário. O Banco Central encerrou o financiamento direto do Tesouro em janeiro de 2024, o que rompeu o circuito vicioso que alimentava a expansão da base monetária para cobrir deficit primário.
As Letras de Liquidez do Banco Central, instrumento usado para esterilizar excedente de pesos, foram gradualmente substituídas por títulos do Tesouro, transferindo o passivo do balanço do BC para o do Tesouro Nacional. Os depósitos remunerados foram desmontados ao longo de 2024.
O terceiro pilar foi a unificação cambial parcial. O regime de câmbios múltiplos, herdado do governo anterior, foi simplificado em duas etapas.
Em dezembro de 2023, o câmbio oficial foi unificado com o câmbio comercial. Em outubro de 2024, foram retirados controles sobre operações financeiras pequenas e médias.
O câmbio paralelo, conhecido como dólar blue, que chegou a operar com ágio de 200% sobre o oficial em 2023, opera hoje com ágio inferior a 8%.
O que continua não funcionando
Análise fria exige reconhecer também o que ainda não foi resolvido. A inflação de 1,5% ao mês, em fevereiro, ainda é três vezes maior do que a meta original que o próprio governo havia anunciado para o terceiro trimestre do ano passado.
A previsão de convergência para 1% mensal foi sucessivamente adiada e o consenso de analistas privados, conforme o levantamento mensal do BCRA, projeta agora 23% no acumulado de 2026.
A pobreza, medida pelo INDEC, subiu nos primeiros meses do ajuste e só voltou ao patamar de 2023 em meados do ano anterior. No primeiro trimestre de 2024, a taxa de pobreza alcançou 54,8%, contra 41,7% no segundo semestre de 2023.
no exercício anterior, fechou em 38,9%, abaixo do nível herdado, mas com uma subida intermediária que custou caro em termos sociais e políticos. A taxa de indigência, que mede pobreza extrema, teve trajetória paralela.
A atividade econômica caiu 2,4% em 2024, segundo o próprio INDEC, e cresceu 4,1% no exercício anterior. O saldo agregado dos dois anos é positivo em 1,7%, mas a recessão de 2024 foi sentida principalmente na construção civil, no comércio varejista e na indústria de transformação, setores intensivos em emprego.
| Indicador | 2023 | 2024 | 2025 | |-----------|------|------|------| | PIB (variação anual) | -1,6% | -2,4% | +4,1% | | Resultado primário (% PIB) | -2,9% | +1,8% | +2,2% | | Inflação acumulada | 211,4% | 117,8% | 51,3% | | Pobreza (final do ano) | 41,7% | 38,9% | 38,9% | | Reservas internacionais (US$ bi) | 21,2 | 33,6 | 41,8 |
O que há a aprender
A primeira lição é técnica e modesta. Programas de estabilização de inflação alta funcionam quando os três pilares — fiscal, monetário e cambial — operam simultaneamente e em sentido coerente.
Falhar em um anula os outros dois. A literatura sobre estabilização, desde os trabalhos de Sargent nos anos oitenta, é consistente nesse ponto.
O caso argentino reforça empiricamente o que o livro-texto já dizia.
A segunda lição é política e desconfortável. O ajuste exigiu, no primeiro ano, recessão, queda real de salário e aumento temporário da pobreza.
A janela de tolerância política para esse tipo de programa é estreita. Se o quadro inflacionário não começa a melhorar em prazo curto, o custo social vira inviabilidade eleitoral.
No caso argentino, o ponto de inflexão veio em torno do quarto mês, quando a inflação mensal caiu para abaixo de 5%. A partir dali, o programa ganhou tempo.
A terceira lição é a mais inquietante para quem observa de fora. Não foi a teoria econômica que ditou as escolhas da Argentina.
Foram as escolhas argentinas que validaram, ex-post, uma teoria econômica que fora marginalizada politicamente em quase toda a América Latina nas duas décadas anteriores. Quando o quadro fica grave o suficiente, ideias antigas voltam à mesa.
O experimento ainda não terminou. A inflação ainda não convergiu, a recuperação da renda real ainda é parcial, a sustentabilidade fiscal ainda depende de fatores que escapam ao controle do governo, como o preço internacional da soja e a evolução do dólar global.
Pode dar errado a partir daqui. Mas o que aconteceu até fevereiro de 2026 — 211% para 48% em catorze meses — está nos arquivos do INDEC e não vai sair de lá.
Quem estuda economia tem um caso novo para ler. Os outros, ao menos, têm dados frios para tirar suas próprias conclusões.
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